Atum que os pescadores açorianos vendem a dois euros o quilo na lota pode atingir os 10 a 20 euros

 O investigador e empresário norte-americano Rex Ito foi biólogo durante anos e é hoje o Presidente da empresa ‘Prime Time Seafood, Inc.”. Participou em duas Semanas das Pescas que, ao tempo, se realizam na Horta com cientistas e investidores de todo o mundo. Na altura tentou convencer o Governo dos Açores a apoiar a venda do atum da Região devidamente tratado a bordo para atingir preços elevados no mercado internacional e não conseguiu. Hoje é o Governo dos Açores que o procurou para criar condições para os pescadores açorianos ganharem mais dinheiro com o atum patudo que pescam. Este ano, por exemplo, o patudo esteve a menos de 2 euros o quilo e podia ser vendido a 10 euros o quilo. Rex Ito esteve reunido com o Secretário do Mar, Gui Menezes; com o Presidente da APASA; e com o Presidente da Federação das Pescas dos Açores. Todos estão empenhados em valorizar o atum patudo da Região. O norte-americano admite mesmo trazer para os Açores algumas embarcações de long line e ensinar a pescar atum patudo e tratar o peixe a bordo. Mas nos actuais atuneiros também se pode tratar o atum desde que tenha os equipamentos necessários. A máxima é: “quando não há peixe, procura-se valorizar o pouco que há para ter mais rendimento”.
 

Correio dos Açores - O que o traz aos Açores?
Rex Ito (Presidente da empresa ‘Prime Time Seafood, Inc.) - Há muitos anos, há mais de 20 anos, vim aos Açores porque reconheci que o atum dos Açores tem um grande potencial e pode ser um peixe de alta qualidade e de alto preço. A minha especialidade é o atum fresco.
Estou cá porque recentemente, através de Valdemar Oliveira, do Secretário Regional do Mar, Gui Menezes, e de outras pessoas ligadas ao sector, contactaram-me para cá vir e, talvez, ajudar a melhorar a qualidade do pescado para se ter uma indústria de atum fresco de alta qualidade nos Açores.

Já houve alguma abordagem neste sentido?
Tentámos, há 20 anos, mas não teve continuidade. Depois da primeira tentativa não se deu continuidade.

O Governo não estava interessado?
Não tenho a certeza se estava interessado ou não. Acho que os tempos mudaram. Na altura, havia maior ênfase na indústria conserveira. A produção ia para as conserveiras, que dominavam as compras e as práticas de pesca dos barcos de pesca de atum. 
Os pescadores não tinham a mentalidade de pensar na qualidade mas sim na quantidade, no volume.   

Agora os pescadores evoluíram?
Em todo o mundo, em todos os mares, há cada vez menos peixe. Acho que a conservação é uma parte muito importante no mundo das pescas e o primeiro passo da conservação é maximizar a utilização das espécies. Por isso, em vez de vender o atum a muito baixo preço para a indústria conserveira pode-se vender por um preço muito mais alto para ser consumido em sushi, wm bares e restaurantes de gama alta, por um valor muito mais alto. E depois, respeita-se muito mais, dá-se muito mais valor e criam-se mais empregos para este recurso tão precioso. 

O que é que precisamos de mudar para conseguir fazer isso?
Vocês têm a matéria-prima, o peixe que é espectacular. Têm as águas cristalinas, têm qualidades excelentes. Só têm de mudar a vossa forma de trabalhar a bordo, a forma como lidar com o peixe, o desenho do barco, o tipo de material de pesca que usam, a forma como processam o peixe a bordo. Assim que sai da água, o atum tem de ser sangrado devidamente, cortado o nervo, esventrado e arrefecido. Se fizerem isso e mantiverem a cadeia de frio, mantendo o frio no barco, no transporte, na parte do armazenamento e na exportação, têm um peixe de topo. 

Tudo isso representa investimento. Acha que os nossos pescadores estão despertos para isso?
Na minha opinião têm de o fazer. Senão não há futuro porque temos menos peixe. Em toda a minha carreira, quando me deparo com este tipo de situações, costumo dizer aos pescadores: “apanhem menos, ganhem mais”.  

Já reuniu com o Secretário…
Na Segunda-feira já reuniu com o Secretário. Ele estava aberto à ideia.

É possível ganhar mais dinheiro com o atum patudo? Como?
Tem de ser de alta qualidade, mas é possível. Mas o peixe tem de ser tratado de forma conveniente assim que sair da água. Na realidade, a minha sugestão para os Açores é trazer barcos qualificados, barcos de pesca à linha para a Região, para uma experiência. Testar o peixe desta Região com os barcos adequados.

Se eu for um pescador que pesca 30 toneladas de patudo por saída, como me convence a trazer um ou dois peixes tratados a bordo?
Quando se pesca 30 toneladas, não se traz apenas dois ou três peixes. 
A minha empresa recebe barcos na Califórnia e chegam barcos de linha longa com o peixe devidamente, com boa técnica e boas infra-estruturas nos barcos, e podem chegar com 15 a 20 toneladas de atum e se têm bom tamanho, boa qualidade, podem fazer 50 a 75 mil dólares por viagem. 

Consegue-se manter a qualidade do peixe, mesmo pescando muito atum?
Sim. 

O que têm de se fazer a bordo?
Já andei nos barcos e o sistema ainda é o mesmo, por isso sei do que falo. 
Os pescadores, nestes barcos, apanham o peixe, e têm um homem ao lado com um gancho para ajudar a puxar. Apanham muito peixe.
O que têm de ter é um sistema. Será difícil porque os barcos não estão preparados, precisam de ter arrefecimento próprio, gelo próprio, processamento próprio a bordo. Vou dar um exemplo: quando estava nos barcos precisava de mais um ou dois ajudantes. 
Quando se apanha atuns pequenos, não faz muita diferença, mas quando se apanha um grande atum, puxamo-lo, colocamo-lo de lado, temos de o sangrar, cortar-lhe o nervo, e esventrá-lo e pô-lo em água fria. 

Um patudo de cerca de 70 quilos, quanto custa no mercado nessas condições que falou?
Diria que, com boa qualidade, pode custar cerca de 10 euros por quilo. Actualmente está a cerca de 1,60 euros. É um desperdício deste recurso.

Há mercado para o atum de qualidade dos Açores?
Qualquer atum patudo, de for de alta qualidade, em qualquer parte do mundo, tem mercado. 

Toda a gente fala que o atum rabilho é mais valioso…
Nós determinamos a qualidade do peixe através da cor. Quando o peixe tem uma cor acastanhada, não vale nada. Quando está meio vermelha acastanhada, pode valer 7 euros, mas quando a cor é avermelhada, pode valer 10 ou 20 euros por quilo. A classificação do atum e como as pequenas diferenças podem representar grandes diferenças de preço. 
O peixe mais avermelhado vai ser usado em sushi bares, o meio vermelho acastanhado vai ser usado para cozinhar como bife, em restaurantes, e o acastanhado serve para a indústria conserveira, para ser enlatado.
Vai ser um processo de aprendizagem. Neste momento, nos Açores, têm a qualidade do peixe acastanhado. Mas o que preciso é manuseamento adequado a bordo, barcos de pesca adequados ou os barcos de pesca que já têm mas com equipamentos novo e conseguem ter boa qualidade. 

A única diferença…
É o manuseamento a bordo. São duas coisas, o tipo de método de pesca e o manuseamento a bordo. 
Para se perceber o atum, tenho de explicar que se a temperatura da água estiver a 20 graus centígrados, a temperatura interior do atum é de, pelo menos, 10 graus centígrados mais elevada. Há um gradiente de temperatura, de dentro para fora, de quente para frio. 
Quando se apanha um atum, se tiver um lombo de atum, quando fica estragado/acastanhado é de dentro para fora, e por vezes vemos o atum com uma parte avermelhada e no cimo, com aspecto queimado. 
Vou dar um exemplo: vamos pensar no atum como se fosse carne. Quando se mata uma vaca e ela está stressada, a carne não é boa. O mesmo acontece com o atum.
Por isso, no barco de long line põe-se linhas e ganchos que podem alcançar os 5 ou 10 quilómetros e apanham atum. Agora, os pescadores apanham o atum à mão e por vezes apanham uma linha, à mão, para alguns dos maiores peixes. Mas quando se pesca assim, quando ele chega ao barco, é a mesma coisa do que quando o ser humano se exercita. Quando se faz jogging, o corpo vai do metabolismo aeróbico para anaeróbico. Quando os músculos ficam cansados, produzem ácido láctico. 
O mesmo acontece com o atum, se chegam ao barco e ficam a debater-se, a carne não fica boa. Têm de matar o nervo para morrerem a 100%, senão a carne vai continuar a queimar.

Acredita que se vai convencer os pescadores açorianos a pescar desta forma?
Passaram 20 anos. Portanto… Acho que a necessidade existe agora. O Secretário do Mar, a APASA e a Federação das Pescas pediram ajuda. O momento é este. 
Há 20 anos era o momento. Perderam-se 20 anos. Mas há 20 anos ainda havia muito peixe e os pescadores podiam sobreviver. 
Eu compro peixe em todo o mundo e, actualmente, há menos peixe e ou se faz isso ou deixa de haver pesca. 

É possível, produzir atum nos Açores em aquacultura?
A minha especialidade ,além do atum selvagem, é aquacultura. Tenho feito aquacultura desde os anos 80. Não só de atum, também fiz de camarão, peixe, atum. Quantos aos ranchos de atum rabilho teria de ver essa possibilidade aqui. 
Primeiro, o investimento são muitos milhões de euros. Pode-se fazer dinheiro mas tem de se ter um mínimo de 400 a 500 toneladas para se conseguir viabilizar o investimento. 

Quanto tempo depois consegue recuperar o dinheiro do investimento?
Depende, mas entre 2 a 5 anos. Mas tem de se ter uma massa crítica. O problema é que os Açores têm uma quota para o atum rabilho. O rabilho é uma das histórias de sucesso no atum, porque tem sido controlado desde 2008 e tem dado tempo para a espécie crescer. 
Agora, na aquacultura, é preciso um grande volume para se justificar o investimento. Por aquilo que sei, aos Açores foram dadas 70 toneladas de atum rabilho, e isso não é o suficiente para rentabilizar o investimento.

A produção de atum em aquacultura não pode ser feita fora da quota de atum selvagem?
Isso é da responsabilidade das autoridades da pesca.

Acredita, portanto, em atum de qualidade vendido a partir dos Açores?
 No fundo, os Açores têm grande potencial. Têm atum de grande qualidade e hoje em dia um chef famoso é como uma estrela de cinema. Na indústria da comida, as gerações mais novas conhecem a sua comida. Penso nestas ilhas, volto para Los Angeles e contamos a história, mostramos as fotos da água cristalina, e a história vende o peixe.

Dentro de 5 anos, pode-se perspectivar uma frota de pesca de atum à linha com a frota de salto e vara?
Sim. Em partes diferentes do mundo têm vários métodos de pesca nas mesmas águas. Eu entendo a cultura do salto e vara, e respeito, as pessoas cresceram a comer atum em lata, e devem continuar. Mas em cru, o atum é muito mais valioso. 

                             

Carla Dias/João Paz

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Autor: CA

Categorias: Regional

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