Entrevista a Cristina Fraga, Directora do Serviço de Hematologia do HDES

Plano Regional de Promoção da Dádiva e Rede Regional de Sangue são importantes para rentabilizar recursos na Região

 A Directora do Serviço de Hematologia do Hospital do Divino Espírito Santo, em Ponta Delgada, Cristina Fraga, fala do “dador de plaquetas” que ainda é só um projecto, há vários anos, mas que permitiria que os doentes tivessem acesso às “pool de plaquetas de excelência” em vez de serem pedidas a nível nacional. Apesar do stock de sangue no Hospital de Ponta Delgada estar estável, e com capacidade de armazenamento em caso de catástrofe, Cristina Fraga entende que seria importante efectivar uma Rede Regional de Sangue e elaborar um Plano Regional de Promoção da Dádiva. Primeira para conseguir atrair e fidelizar dadores mais jovens, e depois para que se rentabilizassem recursos tão preciosos em toda a Região. 


Correio dos Açores - No Hospital do Divino Espírito Santo, nestes meses de férias também diminui o número de dádivas de sangue?
Cristina Fraga (Directora do Serviço de Hematologia do Hospital do Divino Espírito Santo) - Comparando o ano 2019 com o ano 2018 (até à data de 15 de Agosto), podemos constatar que o número de pessoas que se deslocaram ao Serviço de Hematologia ou integraram as sessões de recolha de sangue no exterior, não diminuiu. Tivemos sim, um maior número de dadores impedidos de doar sangue por diversos motivos clínicos. Ou seja, uma diminuição de 2,5% no número de dádivas.
O importante é saber se menos 35 dádivas no ano 2019 teve algum impacto. Pode perguntar se algum doente ficou em risco de não ter sangue quando necessitou? Respondo-lhe claramente que, não! Em 2019, até tivemos mais doentes a necessitar de sangue do que em 2018.
Saliento que em 2019,  29% das dádivas são oriundas das sessões de recolha de sangue móveis. Foi uma aposta realizar sessões de recolha no período de férias tanto dos dadores como da equipa do Serviço de Hematologia. Porque os doentes e as suas necessidade nunca tiram férias!

Actualmente o stock de sangue está no limite ou a situação é estável?
Completamente estável. É o número suficiente para as solicitações, no entanto não podemos dizer que é uma situação óptima. Temos também o objectivo de angariar um maior número de dadores jovens e fidelizá-los a este acto solidário. De formar a manter e renovar os Dadores de Sangue regulares.

Qual a capacidade de armazenamento do Serviço? É a ideal? Poderia ser maior ou a “data de validade” do sangue também não o permite?
Quando estamos a falar na rotina, nas solicitações do dia-a-dia deste Hospital a capacidade é a ideal para dar resposta a todas as solicitações. Até numa situação de catástrofe onde há uma necessidade exponencial de sangue, também temos capacidade de resposta. O que pode complicar será no caso de avaria de um equipamento de armazenamento do frio, que obrigará a alguma «ginástica» na gestão do armazenamento. O importante é que com a monitorização em tempo real da rede de frio do sangue, este mantenha a qualidade e se garanta a segurança da transfusão ao doente. 
Garantimos que todo o sangue que é transfundido tem a máxima garantia de segurança, qualquer dúvida sobre uma possível menor qualidade do sangue, este não é utilizado.

Há cerca de dois anos falava em iniciar-se no Hospital o projecto do “dador de plaquetas”. Já foi iniciado este projecto? 
Já solicitamos esse equipamento há vários anos. Aguardamos serenamente que um dia tenhamos esse equipamento, que permitirá que os doentes tenham acesso a pool de plaquetas de excelência. Bem como, garantir a nossa autossuficiência e deixarmos de solicitar ao exterior (IPST – Instituto Português do Sangue e Transplantação, I.P.) pool de plaquetas. 

Qual o perfil do dador de sangue do Hospital do Divino Espírito Santo? Quantas dádivas em média efectuam por ano?
A maioria dos dadores são do sexo masculino (58%), note-se que há uns anos menos de 25% eram do sexo feminino. E, actualmente já representam 42% do total do número de dádivas! Na faixa etária entre os 18 e os 24 anos a maioria dos dadores são do sexo feminino. 
O perfil do dador regular é, homem entre os 25 e os 44 anos de idade, que vem doar 1 ou 2 vezes por ano. 
O perfil de dador que vem doar pela primeira vez é, mulher entre os 18 e os 44 anos de idade.

Tem-se conseguido chamar os mais jovens para serem dadores?
Sim, com o apoio das redes sociais.

Há algum tempo falava na necessidade da elaboração de um plano regional de promoção da dádiva. Já existe? Tem sido eficiente? Se não existe, o que falta para ser efectivo?
Como afirmei no passado, as campanhas do IPST nacional não têm impacto nos Açores. Em 2015, foi efectuada uma campanha regional, promovida pela Secretaria Regional da Saúde, que permitiu na altura servir de «travão» ao decréscimo do número de dádivas. Mas ainda há a necessidade de elaboração de um plano regional de promoção da dádiva em que aposte nas camadas mais jovens da população, entre os 18 e os 34 anos. Bem como de uma efectiva Rede Regional de Sangue, que permita uma maior rentabilização dos recursos existentes na Região. Já foram dados alguns passos mas há francas oportunidades de melhoria.
 
Em relação aos dadores de medula óssea, tem havido aumento de dadores? Ou de pedidos de informação?
Sim, temos recebido muitas mensagens sobre este assunto na página do Serviço de Hematologia no Facebook. Apesar de também estarmos nas redes sociais no Twitter e Instagram, a maioria das solicitações são feitas no Facebook. Aproveito mais esta oportunidade para divulgar que toda a informação pode ser encontrada na internet  e pode ser descarregado o impresso através deste link  https://www.sns.gov.pt/wp-content/uploads/2016/10/DocumentoInscricaoDadores.pdf. E depois de preenchido enviar para CEDACE Lisboa, Alameda das Linhas de Torres nº 117 | 1769-001 Lisboa. 

O que é preciso para se ser dador de sangue ou de medula óssea e quais as contra-indicações? 
Para ser Dador de sangue: hábitos de vida saudáveis, ter mais de 18 anos de idade e mais de 50 Kgs e o essencial, ter vontade de ajudar os outros.
Para ser Dador de Medula Óssea: existem alguns pré-requisitos, ou seja não poderá registar-se como Dador de Medula Óssea se tiver  p. ex. idade inferior a 18 anos ou superior a 45 anos; Altura inferior a 1.50m; Peso inferior a 50kg; Obesidade Mórbida ( mesmo nos casos de colocação de Banda ou Bypass Gástrico); Patologia Cardíaca;  Hepatite B ou C, alguma vez na vida; Doença Oncológica; Insuficiência renal; Patologia da Tiróide; Diabetes, etc…
                                                         

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Autor: Carla Dias

Categorias: Regional

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