27 de agosto de 2019

Coisas do Corisco

Perigosas leviandades

 


No mundo de hoje, infelizmente, já nada me surpreende. 
E nada me surpreende porque  as reviravoltas que acontecem diariamente, no nosso planeta, eclipsam aquele que deveria ser o comportamento da humanidade no respeito que teria que haver para com a Terra, para com esta nossa casa. Por via disso, este nosso planeta adoece gravemente a cada dia que se passa, embora o alarme já tenha há muito tempo soado, activado pelos mais credenciados cientistas, virados para a ecologia e para o estado lastimável em que a Terra se encontra. Segundo os mesmos, o nosso planeta já está num ponto sem retrocesso, embora tenham prevenido insistentemente os principais governantes deste mundo.
O mais dramático é que já se conjectura, no seio dos mais prestigiados cientistas internacionais, que o colapso do equilíbrio ecológico do nosso planeta tem os dias contados: uns preconizam o ano 2.025 outros, mais optimistas, o ano 2.050 mas ambos duvidosos se estamos a tempo do ponto de retorno desse equilíbrio.
Infelizmente, aquilo que  se passa pelo mundo fora, também bate à nossa porta. Também aqui nos Açores, o imediatismo e a  ganância do poder do dinheiro, fazem-nos derrapar para  as grandes perturbações que estamos a causar à fabulosa  natureza que dispúnhamos não muito longe no tempo.
Por exemplo, no passado sábado, dia 10 de Agosto,  no Jornal Correio dos Açores, neste jornal onde tenho acusado inúmeras vezes o desleixo dos nossos governantes na conservação deste delicado e puro paraíso ambiental que tínhamos,  li  nele os autênticos cânticos de louvor que foram  feitos sobre assuntos onde, bem-vistas as coisas,  penalizam gravemente o nosso equilíbrio ambiental o qual, quanto a mim, não se parando imediatamente com o abuso que agora sucede, levar-nos-á  à destruição do nosso património ecológico, não tarda muito.
Fala-se em primeira página que, alguém nas Furnas, chega a vender 600 maçarocas de milho doce cozido, diariamente, como uma espécie de exemplo económico a imitar e não como algo que realmente nos deveria fazer parar para reflectir, e analisar, aquilo que essa venda, enorme diga-se, de maçarocas, representa, senão vejamos:
Para se venderem 600 maçarocas, quantas pessoas visitam as Furnas para que se comprem tantas? Estarão as Furnas habilitadas para receberem  um número de pessoas tão grande que facultem o consumo de tantas maçarocas  de milho doce? 
Ainda dentro deste tema, sabe-se  que o milho é cozido, com as camisas, na caldeira do Esguicho. 
Saber-se-á a poluição que se causa naquela caldeira assim como nas águas que dela correm para os cursos de água naturais ou para os lençóis freáticos subjacentes? Sabendo-se que as Furnas estão cheias, de perigosos gases radioativos conhecidos por  radão,  não existirão esses gases naquela caldeira, contaminando aquele milho?
E os esgotos das casas subjacentes à área das caldeiras, não afectarão ecologicamente as suas águas? Já se fizeram estudos sobre isso? Ou não se fizeram e poder-se-á, eventualmente, correr o risco de se contaminar  as pessoas?
Diz-se, na última página do mesmo jornal, que as visitas ao parque Terra Nostra, duplicaram, atingindo-se o impensável número de 212 mil visitantes. Será este um número positivamente aliciante para a ilha de S. Miguel ou, pelo contrário, um sério aviso para o número preocupante de pessoas que lhe trazem grandes problemas  ambientais subsequentes ao pisoteio causado, e às toneladas de lixo que deixam nas ilhas, isso para não falar na subida alucinante dos custos de vida que  penalizam a nossa população?
Recordo-me da euforia e da  arrogância com que se anunciava o  número de cruzeiros que passariam a visitar-nos anualmente. Isso como se fosse uma benção para a economia e vivência nas nossas ilhas. Assim como me recordo das manchetes dos nossos jornais e o eco dos nossos noticiários quando num só dia acostaram em Ponta Delgada, 4 enormes paquetes desembarcando mais de uma dezena de milhar de pessoas,  em Ponta Delgada.
Pergunta-se: para além das toneladas de lixo que cá deixaram, que lucro tirou o cidadão comum micaelense da passagem desses paquetes? 
Aquilo que sabemos é que comem e dormem nos luxuosos navios onde viajam, deixando-nos toneladas de lixo por troca de umas bugigangas que compram com meia dúzia de tostões para levarem como recordação.
E se há alguém que ganha algo com essas passagens dos cruzeiros nos Açores, são os agentes internacionais que controlam e dominam esses mercados, ganhando os açorianos apenas lixo e pouco mais.
Há muito mais razões de queixa na forma como o turismo, desordenado, sem controlo, arbitrária e  paulatinamente destrói as nossas ilhas.
Concluo este texto, relembrando que a nossa riqueza, a nossa galinha dos ovos de ouro, reside neste espaço muito verde, recortado por ribeiras de águas frescas, serpenteando todos estes nossos arvoredos únicos, bordados pelas conteiras sob as suas fragrâncias que perfumam e enchem os nossos pulmões.
Por isso sugiro que, como forma de se por um travão na destruição que o pisoteio de tanta gente que nos visita cria, dever-se-ia criar uma taxa justa a todos aqueles que desembarcam nos  Açores como forma de, pelo menos, se aliviar aquilo que custa à Região a limpeza do lixo que deixam, e a reposição dos estragos que fazem.  

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Categorias: Opinião

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