27 de agosto de 2019

Eleições, festa ou drama?

Defendo que, e comigo todos os democratas que já experimentaram nas suas vidas o que é viver sob regime autoritário ou ditatorial, onde as palavras liberdade e democracia, não existiam, que as eleições livres é o culminar da Democracia, não se esgotando nela, não deixa de ser a sua festa maior, o ponto alto da expressão livre da cidadania.
 Hoje, 2019, século XXI. Era do digital. Constata-se que em grande parte da nossa “Casa Comum, a Terra”, ainda subsistem regimes, onde as palavras democracia e liberdade são proibidas. E, em muitos países, existindo eleições, a democracia esteja condicionada à vitória antecipada dos que as manipulam.
Sabemos que, para “alguns”, o atrás afirmado, já começa a ser um lugar comum. Sou de opinião contrária, temos de a afirmar até à exaustão, porque a realidade a que temos vindo a assistir, impulsiona os democratas a repeti-la sempre e sempre.
Até porque, países existem, em que a vivência democrática, que se julgava consolidada, começa a ser abalada por forças obscuras que, sob diversas formas, a questionam.
 O que têm os partidos que nos têm governado, pós 25 de Abril, a ver com o crescente desinteresse pelas eleições? Serão assim tão diferentes, PSD e PS? Não vou escrever sobre as respectivas histórias e como ambos desejavam entrar na Internacional Socialista. Sabemos que as conjunturas, têm levado uns, a arrumarem na “gaveta o socialismo” e, outros a derivarem para um “ ultra liberalismo”.
Porquê demasiada abstenção? Será que na raiz deste problema, não estará a existência de dois partidos, cujos princípios ideológicos, pouco os diferencia, e que se têm alternado na governação? Ademais numa terra com as nossas características? Será que são assim tão diferentes programaticamente? 
Seja como for, aqui chegados, não seria oportuno começar a pensar, num grande movimento social e democrático açoriano? Assim como, avançar com a constituição de partidos açorianos e dum circulo eleitoral único para os Açores? Como já existe em muitos países da Europa?
“…As conclusões finais da CEVERA – Comissão Eventual para a Reforma da Autonomia, serão grandes prioridades para o futuro dos Açores. Assistiremos a resistências centralistas perante exemplos de novos avanços autonómicos…” (Professor Doutor José António Vieira da Silva Contente).
Não há muito tempo o Presidente Mota Amaral desabafava: “...E passados 45 anos também são muitos os que a nível nacional têm a ideia de que os Açores são uma possessão de Portugal. Esta ideia ainda persiste na mente de muitos e não podemos deixar que isso aconteça…”. 
Que os partidos políticos concorrentes, abordem, partindo desta afirmação de um dos pais fundadores do actual regime político, o tema do futuro dos Açores e do seu modelo de desenvolvimento. Pese embora os progressos alcançados pelos sucessivos governos desta autonomia, verificamos que alguns indicadores, nos situam numa posição bem pior do que Portugal, pelo que se sugere, que os candidatos inscrevam nas suas agendas eleitorais, as seguintes realidades e quais as soluções que apresentam para as debelar:
- A esperança média de vida abaixo da de Portugal; as famílias em risco de pobreza nos Açores atingem os 31%, a pior de todo o país; a taxa de abandono escolar precoce é mais do dobro da taxa portuguesa; os números do subsídio de desemprego equivalem a 150% dos do território português;
- O rendimento social de inserção (RSI) é de 12%, enquanto em Portugal é de 3,5%; há pessoas que trabalham mas são pobres; há pessoas que subsistem apenas com 300 €/ mês e com filhos menores; os Açores têm liderado quase todos os indicadores portugueses de subdesenvolvimento humano; o insucesso escolar nos Açores é o mais elevado de Portugal; segundo estatísticas oficiais e estudos e análises de especialistas, num universo de 240.000 habitantes, 70.000 correm o risco de pobreza, destes 18.000 recebem o RSI.
 Estamos na Europa. Saímos de séculos de atraso e de pobreza. Estamos em 2019.Três décadas são passadas. Apesar dos “milhões” 30% de açorianos estão em risco de pobreza. (dados Pro data da Fundação Francisco Manuel dos Santos). 
A Suíça, pequeno país, no meio da Europa, rodeado de terra por todos os lados, pode ser um exemplo para os Açores, que apesar de tudo, levamos vantagem, temos mar por todos os lados. São quase 1.000 kms2. 
“…Toda a gente fala do mar, mas não se apresentam propostas concretas para além de meras generalidades inconclusivas sem caminhos concretos…” (Professor Doutor José Manuel Monteiro da Silva).
Mais do que diferentes protagonistas, temos de mudar de Modelo. Inovação requer-se. Tirar a nossa terra do marasmo de séculos, sempre amarrados ao ciclo persistente da pobreza, não fora a emigração… Pobreza, condição e não fatalidade, conforme opinião duma respeitada socióloga. Ciclo de pobres. Muitos, que serviram de condição e suporte, durante décadas, de outros ciclos de alguma abastança económica, duns poucos, que se alternavam, consoante as elites dominadoras de cada tempo histórico. Ontem, tal como hoje.
Enquanto não se for à raiz ancestral do problema as soluções nunca existirão. O despovoamento de algumas ilhas e a pobreza, terão de ser uma das prioridades. Esqueça-se, por momentos as questões éticas e morais, o que já bastava para nos inquietar, vejamos  a temática  pelo prisma do desenvolvimento económico e do modelo  pretendido para o nosso devir colectivo.
Que os candidatos não se fiquem só pelo atendimento dos anseios das corporações e associações, cuja legitimidade não discutimos, assim como nada temos a opor ao pulsar reivindicativo e força persuasiva, advindas do respectivo “peso” na contagem final dos votos, mas que “os outros”, os tais 30%, sem voz, também sejam tidos em conta. Que nos Açores caibam todos. Que ninguém fique para trás ou seja excluído. 
 

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Categorias: Opinião

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