Há mais uma nuvem que paira sobre o Estádio de São Miguel

A nuvem do receio

Estamos em pleno mês de Agosto, o mês de Verão mais ansiado. Mês de sol e de calor... mas noutras paragens. Na ilha de São Miguel tem sido um mês sombrio, de chuva, de angústia, de irritação e de desalento. Em vez da canção popular “meu querido mês de Agosto”, emprega-se o desabafo micaelense de “sai-te mês de Agosto”.
E como as nuvens têm pairado sobre a ilha, inevitavelmente estiveram sobre o estádio de São Miguel nas duas vezes que o Santa Clara jogou perante os adeptos. Domingo sem a chuva durante os 96 minutos, o que tornou o relvado mais apto para a equipa desenvolver o futebol ofensivo. 
As melhorias do relvado foram evidentes. A classificação que os delegados da Liga de Portugal atribuíram ao estado da relva subiu. Domingo recebeu 3,19 pontos no máximo de 5. No jogo com o Famalicão haviam sido uns míseros 1,81. Já não foi o pior entre os 18 campos que receberam jogos das 1.ª e 2.ª Ligas e não será o pior quando todas as 36 equipas jogarem em casa por duas vezes. 
A “lanterna vermelha” da 1.ª Liga foi agora para o relvado do Marítimo da Madeira, com 3,08 pontos. Houve 3 clubes da 2.ª Liga cujos relvados estiveram em pior estado do que o de São Miguel. 
Sendo as melhorias relativas, ficou mais um alerta para a necessária reabilitação profunda. Alertas que continuarão. Agora há que amanhar. Resolvê-lo, além de cerca de um milhão de euros, vai ter custos paralelos para quem o utiliza.

HÁ 5 JOGOS SEM FESTEJAR...

O relvado continua sendo um problema para a equipa do Santa Clara, que deveria assumir as despesas na maioria dos jogos quando actua perante os adeptos. Mas não é só o relvado. 
Há uma outra nuvem a pairar sobre o estádio. É a nuvem do receio. Do receio de sofrer nova derrota. A filosofia de antes 1 ponto do que zero tem imperado. É que já são 4 empates em casa e a derrota na abertura deste campeonato. Cinco jogos sem os adeptos festejarem os 3 pontos deixam uma mágoa e alguma desmotivação. Em dois jogos nem se levantaram para aplaudirem o golo. Domingo foram 3 525 que acorreram ao estádio.
O receio esteve patente na estratégia adoptada pelo treinador do Santa Clara. Foi idêntica à que resultou em Paços de Ferreira. Os intérpretes foram os mesmos, mas as circunstâncias foram outras. Há uma semana a prioridade atacante era do Paços e anteontem era do Santa Clara.
Em Paços a equipa esteve perfeita, bem organizada porque está encaixada no modelo que tem sido preparado. Marcou e até nem sofreu muito para sair com 3 pontos.
Domingo tinha de ser diferente. Mas não foi. Não houve a pretensão do risco. 
Thiago Santana esteve muito desacompanhado. A posição confiada a Bruno Lamas, mais próxima do avançado mais adiantado, não tem resultado. O médio constrói melhor mais atrás. Aquele passe de mais de 30 metros a isolar Carlos na 2.ª parte é eloquente, para mais conhecendo-se o que fez na época passada.
Só aos 67 minutos houve a primeira substituição no Santa Clara. Acabou por ser quase uma troca por troca. José Manuel no lugar de Carlos Júnior. Pensou-se que seria mais um homem para jogar ao lado de Thiago Santana. Não. Só nos 12 minutos finais é que Guilherme foi para o relvado apoiar o já estoirado Thiago. Muito tarde. A equipa já não patenteava a frescura física para o “assalto” final. Frescura física que se esbateu mais cedo.

SÓ 38% DE POSSE DE BOLA

O Belenenses, com os três defesas centrais, face à ajuda permanente de Nuno Coelho, foi resolvendo os problemas que lhe surgiram na área. Quando não foram os defesas foi o guarda redes Koffi e, por uma vez, o poste, num cabeceamento de Fábio Cardoso. O defesa acabou ser dos mais perigosos na área contrária.
Koffi teve duas excelentes defesas e nas bolas por alto dominou com extrema segurança. Como as bolas centradas, principalmente por Mamadu, foram na maioria das vezes para a pequena área do Belenenses, o guarda-redes esteve sempre presente. 
Os atletas do Belenenses foram entretendo a equipa do Santa Clara ao trocarem a bola devagarinho. Por isso tiveram mais 24% de posse de bola. Para quem jogou em casa 38% é pouco. 
Foi mínima a pressão por parte dos atletas do Santa Clara quando o Belenenses iniciava a fase de ataque na sua área. Aguardaram por alguma falha para numa transição rápida aplicarem o golpe da misericórdia. Não aconteceu. Foram 16 remates e 3 oportunidades flagrantes. Faltou mais uma vez a eficácia. 
O Santa Clara tem 4 pontos, mais dois do que há um ano após 3 jornadas. A diferença é que agora tem 2 jogos em casa e um fora. No campeonato anterior foram 2 jogos em campos alheios e um em São Miguel.
Quatro pontos em 3 jogos tinha o Santa Clara na terceira participação (2002/03) na 1.ª Liga e 5 pontos em 2001/02. Pior foi na primeira época na 1.ª Liga, amealhando apenas 2 pontos.

Resultados da 3.ª jornada: V. Setúbal 0-0 Moreirense; Rio Ave 5-1 CD Aves; Benfica 0-2 FC Porto; Boavista 1-1 Paços Ferreira; Santa Clara 0-0 Belenenses SAD; Marítimo 2-3 CD Tondela; Portimonense 1-3 Sporting; Gil Vicente 1-1 SC Braga E V. Guimarães 1-1 FC Famalicão.

Classificação: 1.ºs Sporting 7 e FC Famalicão 7 pts; 3.ºs FC Porto 6 e Benfica 6; 5.º Boavista 5; 6.ºs SC Braga, Portimonense, Moreirense, Gil Vicente, Santa Clara e CD Tondela 4, 12.ºs Rio Ave 3 e CD Aves 3; 14.ºs V. Guimarães, Belenenses SAD e V. Setúbal 2; 17.ºs Marítimo e Paços Ferreira 1 pt.

“Nos resultados não há justo ou injusto”

O treinador do Santa Clara explicou ter a equipa jogado o suficiente para sair com os 3 pontos, mas a finalização em casa continua a impedir a ansiada vitória.
“Permitimos ao Belenenses ter mais bola nos primeiros 15 minutos para, depois, aproveitarmos os espaços que nos dariam alguma oportunidade de golo. A partir dos 15 minutos controlamos o jogo e tivemos as únicas oportunidades de golo. Não é por acaso que o homem do jogo voltou a ser o guarda-redes adversário. Com alguma infelicidade pecamos na finalização. Deveríamos ter tido um melhor critério para chegar ao golo”.
Se o resultado era, por isso, injusto, João Henriques respondeu assim:
“Nos resultados não há justo ou injusto, mas, na verdade, este empate sabe-nos a pouco por aquilo que fizemos frente a um adversário que não nos conseguiu criar nenhuma oportunidade de golo.
Já na 1.ª jornada perdemos em casa e fizemos um bom jogo. Perdemos por 2 erros. Rectificamos e fomos buscar pontos fora. Nesta ronda voltamos a fazer um bom jogo, mas estamos a pecar na finalização. Temos de ser mais pragmáticos face às oportunidades criadas.”
Em relação à falta de vitórias no estádio São Miguel, o responsável pela formação “encarnada” mostrou confiança em relação ao futuro:
“Estas exibições fazem-nos ficar confiantes com o trabalho que está sendo feito e sentimos que estamos no bom caminho. Sabemos tratar-se de um campeonato muito difícil, muito competitivo, com muito equilíbrio entre as equipas.
Somamos mais 1 ponto e na mesma altura, no anterior campeonato, tínhamos 2 pontos e agora temos 4. Podíamos ter mais 5 pontos porque as exibições assim o indicaram. 
Vamos continuar a trilhar o nosso caminho à procura dos pontos para a manutenção.
Claro que queríamos vencer em casa, porque o Belenenses vai lutar pelos mesmos objectivos”.

JS
 

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Autor: CA

Categorias: Desporto

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