Santa Bárbara saiu à rua ladeada de “urtigas” para recolher oferendas

Depois de no Domingo a procissão em honra de Nossa Senhora das Vitórias ter saído à rua na freguesia de Santa Bárbara, da Ribeira Grande, (ver reportagem na página 16) ontem foi a vez da santa que dá nome à freguesia sair sozinha para recolher oferendas. 
Também ontem as várias ruas da freguesia se enfeitaram com bonitos e coloridos tapetes, ladeados com as tradicionais “urtigas” ornamentais que dão um colorido diferente às ruas por onde passa a procissão e a recolha de oferendas. 
Luísa e Luís Andrade enfeitaram a rua para passar no Domingo a procissão em honra de Nossa Senhora das Vitórias, acompanhada por seis bandas filarmónicas, e ontem fizeram questão de voltar a enfeitar a rua em frente à sua casa. É a família que tinge as próprias aparas, que depois usam para dar cor ao cinzento do alcatrão, juntamente com pequenos pedaços de ramo de criptoméria. Luísa Andrade diz que leva entre dois a três dias para tingir com corante os vários sacos de aparas que usa depois no caminho. “Compramos as aparas em branco, mergulham-se em água com corante próprio, e deixamos de molho para apanhar bem a cor”, refere Luísa Andrade que ainda faz tudo à mão. “O que importa é a fé e a vontade”, explica. 
O marido, Luís Andrade, recorda que antigamente as ruas eram enfeitadas com “nevelões” em que eram usadas as tradicionais flores de hortênsia para dar alguma cor. “Mas agora é preciso uma licença até para apanhar flores”, refere ao acrescentar que assim fica mais fácil recorrer às aparas. Mesmo que isso signifique gastar algum dinheiro, mas “Nossa Senhora fica contente” com a homenagem que os moradores lhe prestam. Seja com as aparas tingidas, seja com as “urtigas” ornamentais que praticamente todos os moradores expõem nestes dias de festa. Seja no Domingo, seja na Segunda-feira quando é Santa Bárbara que vai, sozinha, recolher as oferendas que serão no fim do dia arrematadas. 
Santa Bárbara vai passando para recolher “fruta, dinheiro, animais, eu por acaso este ano fiz um bolo para oferecer”, refere Luísa Andrade que explica que a imagem, juntamente com a Sociedade Recreativa Filarmónica Nossa Senhora das Victórias, percorre todas as ruas da freguesia do concelho da Ribeira Grande durante a tarde para a recolha de oferendas.
Um pouco mais acima, António Raposo ostenta orgulhosamente as suas “urtigas” ornamentais que vai replantando de um ano para o outro para que fiquem grandes e viçosas. Há 34 anos que António Raposo é o ornamentador da Igreja de Santa Bárbara e nestes dias de festa não tem mãos a medir para conseguir ter todos os arranjos prontos para a festa da padroeira que arrancou na passada Quarta-feira e se prolonga até amanhã. Mesmo assim consegue ter tempo para cultivar e cuidar das suas “urtigas” que apesar de agora estarem grandes e bonitas “daqui a uns meses vão esmorecer” e fica apenas o talo. Em Março começam de novo a rebentar e “vamos tirando os filhos” para que a planta tenha força e fique verdejante “para a festa nova”, ou seja para a festa do próximo ano. António Raposo, acompanhado por Messias Raposo e Maria dos Anjos Matos, diz que não há segredo para ter as plantas bonitas apenas “uso sempre terra de estufa” e vai pondo algum insecticida “para a lagarta”. 
Desde jovem, “desde o tempo dos pais”, que António Raposo gosta de manter a tradição de cultivar e mostrar as “urtigas” ornamentais que vão embelezando também esta festa em honra de Nossa Senhora das Vitórias. Os vasos, grandes e pequenos, vão começando a sair de casa desde cedo e permanecem na rua, à frente da casa de quem os planta, durante todo o dia. À noite, muitos desses vasos, voltam para dentro de casa para na Segunda-feira voltarem a sair para a procissão de oferendas. “Há pessoas que deixam os vasos na rua, mais perto da Igreja, durante toda noite para não terem o trabalho de recolher para voltar a pôr na rua no dia a seguir, mas há que os recolha porque há algumas pessoas que roubam os vasos” com as plantas mais bonitas. António Raposo guarda os seus vasos, mas mais acima na mesma rua, há casas onde no passeio se faz um caminho com duas filas de vasos de “urtigas” que deverão permanecer sempre na rua dado o peso e a quantidade de material que é preciso recolher. Quanto à tradição de se usarem “urtigas” ornamentais para alegrar a procissão de Nossa Senhora das Vitórias e a recolha de oferendas com Santa Bárbara, Miguel Sousa, antigo Presidente da Junta de Freguesia e actual membro da Comissão de Festas diz que não há certezas que justifiquem esta tradição.
Aponta para a toponímia de Santa Bárbara onde há duas ruas em homenagem ao Visconde do Porto Formoso, onde a presença das “urtigas” nas ruas aquando das festividades também é uma tradição. “Santa Bárbara tem ligações ao Porto Formoso já que havia senhores de lá com propriedades aqui e as “urtigas” vieram de lá”, refere Miguel Sousa que acrescenta que já houve em tempos concursos para que se elegessem as melhores “urtigas” em exposição nas ruas mas foi algo que se foi perdendo. 
Durante a recolha de oferendas, há fruta da época, animais, abóboras, dinheiro que se vão recolhendo ao longo da tarde para serem arrematadas ao fim do dia junto à Igreja.  Miguel Sousa diz que este ano o tempo também ajudou as festas, quer no Domingo, quer na Segunda-feira e destaca a presença da banda filarmónica de Brampton, no Canadá, com 80 elementos que veio também integrar-se nas festas dando um colorido diferente à tradição. 
Tradição que é para manter também é novamente hoje a saída da imagem pelas 24 horas e na Quarta-feira é o “dia do chicharro” em que haverá 250 quilos de chicharro para a população “ao almoço e ao jantar”. Um dia que junta sempre muita gente de outras freguesias que gosta de marcar presença neste dia em concreto e em todas as festividades de Santa Bárbara.           

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Autor: Carla Dias

Categorias: Regional

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