28 de agosto de 2019

Bilhetes-Postais

Incidente na procissão do Corpo de Deus

Durante o século XIX, em Ponta Delgada, a relação dos batalhões de guarnição, temporária ou permanente, com as autoridades civis e religiosas e a população pautou-se dum modo geral pela cordialidade e respeito mútuo. 
Já tivemos oportunidade de referir o Batalhão de Caçadores 5 (1848-1857),que manteve uma excelente relação com os habitantes e deixou excelentes recordações, quer pela disciplina deste corpo quer também pelos entretenimentos proporcionados à população citadina (aSerração da Velha; o Enterro do Bacalhau; e aLoa,na noite de S. João).
Outras unidades tiveram igual estima e consideraçãoda ilha:
–2.º Batalhão de Infantaria 18 (1858-1860)–«E é de toda a justiça consignar que durante o tempo em que entre nós esteve a força do 18, todos, officiaes e soldados se comportaram com a maior regularidade não podendo notar-se-lhe a menor falta de disciplina.» (“Açoriano Oriental” de 17Nov1860)
–2.º Batalhão de Infantaria 8(1860-1862) –«Saío d’esta cidade, aonde permaneceo dous annos, o segundo batalhão d’infanteria n.º 8. Força mais disciplinada e mais digna de saudade que todos os ponta-delgadenses experimentaram ao vêl-a partir, ainda não a tivemos aqui. Não queremos por forma alguma desmerecer outros corpos que tem feito a guarnição d’esta ilha, com a apreciação que fazemos da ala esquerda do 8.º regimento, mas não podemos ocultar que ainda não presenceamos tão sentidas despedidas, como as que se trocaram entre os officiaes e soldados d’este corpo e os habitantes d’esta cidade.» (“Açoriano Oriental” de 20Out1862) 
Também sobre o Batalhão de Caçadores 11 (1864-1899) encontramos na imprensa local as melhores referências – as revistas e os exercícios de fogos e de manobra no Campo de S. Francisco (transformado pontualmente em parada “exterior” do quartel de S. João) e, sobretudo, os apreciadíssimos concertos da banda regimental no coreto, inaugurado em 12 de Maio de 1871, quando se inaugurou também a iluminação a petróleo do Campo de S. Francisco.
As procissões– de S. Sebastião, de Terceiros, do Corpo de Deus, do Senhor Santo Cristo, etc.–,integravam sempre uma guarda de honra militar, que fazia as descargas regulamentares.
A propósito. Em 1895, ao recolher da procissão do Corpo de Deus, aquando das descargas da força militarem frente da Igreja Matriz, um homem ficou ferido pelo estilhaço de um cartucho e foi internado no hospital em estado muito grave.
Daí o aviso “Ao público” para que num exercício a realizar em 1896, «se não vão por ao alcance dos tirospois, se bem estão lembrados, à porta da Matriz, o anno passado, por occasião da procissão de Corpus Christi, ficou ferido um homem, apezar dos cartuchos terem só uma rodella de papelão a tapar a polvora; emquanto os que fazem fogo amanhã tem bala de madeira e ainda que se desfaçam logo ao sair da arma ode algum estilhaço ferir alguem». (“CommercioMichaelense” de 07Set1896)
Dada  harmonia institucional reinante, causou a maior estranheza no meio civil o inesperado incidente que ocorreu, em 9 de Junho de 1898,entre a força militar e a vereação ponta-delgadense, à saída da procissão do Corpo de Deus.
«Seguiam atrás do pálio algumas Autoridades civis e militares, Cônsules, Reitor e Professores do Liceu, indo a Câmara, como lhe cumpria, no último lugar. Repentinamente avançou a música regimental, banda de cornetas, e o primeiro pelotão da tropa que se achava postada em frente da Igreja [Matriz] e tomaram o lugar da frente da Câmara, que ficou envolvida pela tropa. O Sr. Presidente [José Álvares Cabral] teve ocasião de observar ao Sr. Comandante [major Manuel d’Araújo Brocas] esta inconveniência e declara que como resposta somente ouviu a voz de – Marche. 
Ficou a Câmara sobressaltada por tão insólito procedimento e nada lhe ocorreu senão retirar-se para os paços do Concelho.» (Acta da sessão de 11Jun1898)
Imediatamente, o comandante do Batalhão de Caçadores 11, coronel Manuel Jerónimo Pereira de Sines, compareceu em pessoa nos Paços do Concelho «a dar explicações do facto e a declarar peremptoriamente e com a máxima delicadeza que não tinha havido intuito algum de melindrar a respeitável Corporação. A Câmara não se deu, com tudo, por satisfeita perante tão espontaneas e leaes declarações, mantendo a resolução de não acompanhar a procissão». (“Preto no Branco” de 11Ago1898)
Dividiram-se as opiniões sobre o incidente. Para o “Diário dos Açores”, a ordem precipitadíssima de “marche” à música e ao regimento pelo comandante da força de Caçadores 11, major Manuel d’Araújo Brocas, ao sair da procissão, foi tomada como uma desconsideração pela Câmara Municipal. Segundo o periódico, o incidente deu origem a comentários muito desairosos para o major.
Para o semanário “Preto no Branco”, «quem viu as cousas reflectidamente, reconheceu de pronto que da parte da força não tinha havido a menor sombra de propósito de desconsiderar a Corporação Municipal, e que o movimento da tropa fora devido à evolução precipitada duma secção dela, que ouvira mal a voz do comando».
Apreciando o incidente entre o comandante da guarda de honra e a municipalidade, o semanário “A Ilha” diz que «o público é que se julga desconsiderado pela câmara». E “A Actualidade” diz-se «convencida de que não houve propósito de desconsiderações por parte de ninguém. O incidente foi causal, afigura-se a toda a gente».
A Câmara Municipal apresentou queixa da ocorrência ao Governo Civil, recebendo em 30 de Junho a informação de que o Ministério do Reino “não deixaria de sustentar o desaggravo da Câmara, se a maneira como os factos se passaram e o ulterior procedimento do Commandante Militar, não mostrassem que não ha fundamento para o reclamar”.
Por sua vez, o coronel Sines remeteu para o Ministério da Guerra a relação documentada das desagradáveis ocorrências.
O Governo achou producentes as satisfações dadas pelo comandante do BC11e deu razão ao major Brocas, considerando que a Câmara Municipal não se podia achar desconsiderada pelo comandante da força, que manobrara na melhor fé e sem intuitos de melindrar quem quer que fosse. Coincidência ou não, «foi chamado á Terceira, pelo sr. general [Frederico Augusto de Almeida Pinheiro] o sr. coronel commandante de caçadores 11. Sua ex.ªpartiu no “Açor”. Estava na festa do Corpo de Deus na Matriz, quando recebeu o telegramma que o chamava áquella Ilha». (“Gazeta da Relação” de 11Jun1898)
 

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Categorias: Opinião

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