Lélia Nunes à conversa com o pesquisador Antonio Borges

As tradições açorianas do Espírito Santo em Itabapoana e o resgate histórico da saga de um padre de Nordeste na cidade do Brasil

 Não creio que muitos açorianos das Ilhas e da Diáspora já ouviram falar da cidade fluminense Bom Jesus do Itabapoana, situada há cerca de 380 quilómetros da maravilhosa Rio de Janeiro.  Desde o dia 6 de Agosto em que comemorou o santo padroeiro Senhor Bom Jesus até dia 15 de Agosto, dedicado à Assunção de Nossa Senhora, quando também celebra o Espírito Santo, o povo da simpática cidade do estado do Rio de Janeiro realiza há 159 anos as festas religiosas mais tradicionais do município. 
Bom Jesus de Itabapoana guarda uma história linda e preserva as tradições açorianas do Divino Espírito Santo com grande louvor, graças a uma personalidade muito querida e reverenciada por toda a população, o Padre António Francisco de Mello, micaelense nato em 27 de Abril de 1863 na Achada Grande, Concelho do Nordeste, filho de Mariano Francisco de Mello e Rosa Pimentel de Mello, chegou a Bom Jesus do Itabapoana com Provisão de Vigário em 18 de Junho de 1899, acompanhado da irmã Maria Júlia de Mello e de uma amiga da família de nome Cândida.
Para falar sobre o importante legado do Padre Mello e a história da Festa da Coroa de Itabapoana entrevistamos o cirurgião-dentista de profissão, escritor e estudioso da história cultural por amor à terra de seus antepassados, Dr.Antônio Borges, membro da Academia Bonjesuense de Letras (ABDL), em breve assumirá uma Cadeira, que leva o nome de seu pai, Cid Bastos Borges, no Instituto de Letras e Artes Dr. José Ronaldo do Canto Cyrillo e participa, ainda, do Centro de Estudos Portugueses de Bom Jesus “CEPBJI’ que leva o nome do picoense.
Antônio Borges tem seus ancestrais nos Açores. Afirma que seu 5° avô, Francisco Lourenço Borges “nasceu em 21 de Janeiro de 1774, na freguesia de São Miguel Arcanjo das Lajes, na Ilha Terceira”, conforme pesquisa realizada por ele no Centro de Conhecimento dos Açores, Biblioteca Digital – Lajes, Baptismos, 1751 – 1769.  Francisco Lourenço veio para o Brasil muito jovem, ainda no século XVIII, estabelecendo-se em Minas Gerais. Aos 16 anos já trabalhava como tropeiro de cargas, abastecendo as praças de Minas Gerais e do Rio de Janeiro. Comerciante, político e muito religioso. Trouxe da sua Terceira a devoção ao Espírito Santo que fez florescer em terras mineiras e fluminenses tendo sido, também, membro remido de várias Irmandades. 

Quem é Antonio Borges? 
O Antonio Borges, nasceu em Niterói (RJ), casado com Leila, 4 filhos e 4 netas. Aos 63 anos, não passa de um menino sonhador, porém, muito atento a tudo o que passa ao seu redor. Tem uma forte percepção intuitiva de ligar factos e acontecimentos, além de manter o foco com vivaz e intensa obstinação.
Gosta de ler e remexer livros e papéis antigos com o objetivo de conhecer factos passados, na família e na cidade onde vive, Bom Jesus do Itabapoana (RJ), terra de seus antepassados paternos, onde pesquisa a história local, fortemente influenciada, desde os seus primórdios, por uma profunda devoção ao Divino Espírito Santo, cuja Festa, a Ele dedicada, remonta ao ano 1860.

Como surgiu este gosto por investigar a relação cultural de Bom Jesus de Itabapoana com os Açores? O que encontrou nestes seis anos de pesquisas?
Sempre senti uma certa curiosidade e admiração por tudo o que se contava a respeito da vida do Padre açoriano Antonio Francisco de Mello, em especial, por ter sido o introdutor do Hino que então conhecíamos como Hino da “Alva Pomba”, célebre nas celebrações da principal Festa da Cidade onde moro, que conhecemos, ainda nos dias atuais, como a “Festa de Agosto”, ou, “Festa da Coroa do Divino Espírito Santo” que, nas origens, era a tradicional e muito antiga (1860) “Festa do Divino Espírito Santo” de Bom Jesus.
A Festa sempre me atraiu e, por ser parte indissociável das origens da Cidade e se confundir com a sua própria História, juntamente com a formação do Patrimônio dedicado ao Senhor Bom Jesus, comecei a formar questionamentos, com o intuito de conhecer melhor os detalhes de como tudo aconteceu, de saber mais sobre o Hino da “Alva Pomba”. Confirmar a sua autoria era o que mais me fascinava e instigava e depois que comecei a pesquisar e constatar que era o mesmo e, não só, ainda se tocava e cantava nos Açores, eu fiquei admiravelmente surpreso e feliz.
O que sabe  sobre a história de vida do Padre António Francisco de Mello e sua vinda para o Brasil.
Os motivos que o levaram a vir para o Brasil não o sabemos, ainda... Parece ter vindo com um “espírito missionário” bem determinado, pois, nunca retornou aos Açores.
Porém, conseguimos apurar factos extraordinários como a data de sua entrada no Seminário de Angra (08/08/1880), de sua ordenação sacerdotal (25/08/1988 ) e de ser o autor da letra do belíssimo Hino do Seminário de Angra(27/09/1891). Era poeta e recuperamos algumas de suas poesias.
Descobrimos onde exerceu o seu 1° trabalho pastoral, na então Capela, hoje Paróquia de São José, na Freguesia da Ribeira Chã, Concelho da Lagoa, Ilha de São Miguel, até a sua vinda para o Brasil, em Setembro de 1895, chegando ao Rio de Janeiro em 04/10 do mesmo ano.

Gostaria que, uma história tão rica e intensa como a do Pe. Mello, seja (re)conhecida na sua terra?
Sim, é essencial e muito importante o (re)conhecimento da saga deste ilustre Sacerdote que, além do seu trabalho espiritual foi poeta, escreveu suas poesias, publicadas em livros e artigos em jornais, na sua terra e no Brasil, sendo bastante conhecido e saudado pela Colônia Portuguesa e Círculos Literários no Rio de Janeiro. 
É isso que venho tentando fazer desde que fui conhecendo essa história tão instigante, que ele seja reconhecido em sua terra, coisa que não ocorreu antes, possívelmente, pelas dificuldades de comunicação da época, as mesmas que, actualmente, facilitam este resgate histórico.

Alguma vez entrou em contato com o Concelho do Nordeste, terra do Padre Mello? 
Resposta: Com o Concelho não, mas, com a Junta da Freguesia da Achada sim, enviei um e-mail, infelizmente sem resposta. Tentei contactar algumas pessoas também, o que mais se interessou foi o José Pacheco, da Ribeira Chã, de quem já era amigo no Facebook, para quem passei as informações obtidas com a famosa carta, até recentemente desaparecida, do Pe. João Caetano Flores, que escreveu ao Brasil para obter informações da vida do Pe. Mello em Bom Jesus. Ofereceu uma rica biografia da vida do Padre Mello enquanto esteve nos Açores, isto também merece uma ampla divulgação.

Fale sobre as raízes da Fé e da Religiosidade em Bom Jesus de Itabapoana na festa conhecida como “Festa de Agosto” ou “Festa da Coroa”.
Nas raízes da fé e da religiosidade do povo de Bom Jesus, de maneira providencial, desde os primórdios do então Arraial do Campo Alegre, surgiram, simultaneamente, o estabelecimento oficial do Patrimônio do Senhor Bom Jesus e o início das bases da devoção ao Divino Espírito Santo, no ano de 1860, tendo um personagem ilustre, Francisco José Borges, filho do açoriano - da Vila das Lajes, Praia da Vitória, Ilha Terceira – Francisco José Borges, participante dos dois acontecimentos históricos, ora como pioneiro, fundador e um dos 12 doadores das terras do novo Patrimônio, ora como instituidor da Devoção ao Espírito Santo, juntamente com o seu cunhado Antonio Teixeira de Siqueira.

Nas tradicionais festas do Espírito Santo é comum a distribuição de “massa sovada”. Em Itabapoana chama-se “Pão do Padre”. Por que?
Porque era feito com receita da irmã do Padre, Dª Mariquinha (Maria Júlia de Mello), vinda dos Açores com ele, e vendido na Casa do Padre, para ajuda nas despesas da Igreja e das suas obras. O “Pão do Padre” é relembrado e comemorado, já há alguns anos, quando da recordação do aniversário do Pe. Mello, em 27 de Abril. É uma comemoração recente realizada no mês de Abril – a  “Festa Portuguesa Com Certeza”. O ponto culminante é o dia 27, com Missa em memória ao Pe. Mello e após, a distribuição do “Pão do Padre.”

Conte sobre os ricos legados deixados pelo Padre Mello para os Bonjesuenses, como a visita das Insígnias Sagradas às residências, com a reza do terço do Espírito Santo.
Um legado riquíssimo de costumes preciosos da sua cultura açoriana de uma maneira muito respeitosa, mantendo e valorizando os que aqui já encontrou, foi, portanto, uma fusão genuína de culturas, encontradas em Bom Jesus, que não tinha o costume da visita das Insígnias Sagradas às famílias, onde, também, se reza o Terço ao Divino Espírito Santo. 
Esta novidade gerou um clima de muita satisfação e viva alegria entre as famílias que recebiam as Insígnias, orgulhosos por receber, na sua própria casa, a visita do Espírito Santo. Gerou uma motivação enorme levando o pobre Padre Mello (naturalmente muito feliz) a prolongar em mais dias a Festa, até então  era apenas um Tríduo.
Também pode ter sido o Pe. Mello o introdutor das Cavalhadas (hoje já não se realizam mais) nas Festas de antigamente, assim como elas são ainda presentes em terras de São Miguel.

É sabido que desde os tempos imemoriais o Hino do Divino Espírito Santo em Bom Jesus ficou conhecido como o Hino da “Alva Pomba”?  Fale-nos sobre esta singularidade?
Quando o Pe. Mello chega a Bom Jesus, em 18/06/1899, surpreende-se com uma Festa dedicada ao Espírito Santo, como em sua terra natal, porém, celebrada no mês de Agosto, procurou entender os motivos da mudança de Maio (Pentecostes) para este mês e introduziu dois costumes açorianos:
1- A visita das Insígnias Sagradas do Divino às residências;
2- O Hino do Divino Espírito Santo de sua terra de origem, os Açores, que passa a ser entoado nas Missas e Coroações, bem como nas Procissões da Coroa, como aqui se diz. É tocado em ritmo mais lento e arrastado como é costume o andar de procissão.

Trata-se do mesmo Hino do Espírito Santo entoado em todas as nove Ilhas açorianas e nas comunidades da diáspora?
Sim, impressionantemente trata-se do mesmo Hino, somente com a diferença de ritmo. O povo, devotamente, passou a cantar o Hino durante a Procissão que leva as Insígnias Sagradas para a visita às residências, adquirindo, deste modo, um ritmo mais lento, ao compasso do andar das pessoas.
E, o que chama a atenção e, até então, isso estava como que, caprichosamente “escondido”, um tesouro guardado. Para o povo bonjesuense, este Hino é a sua própria “Alma”, como o é para o povo açoriano. Não tenho registo onde mais se se toca este vosso maravilhoso Hino do Espírito Santo e nosso precioso  Hino da Alva Pomba, à exceção  das Casas dos Açores ou nas comunidades da Diáspora da América. 

Quanto ao ineditismo que mencionou, refere-se a uma antiga partitura do “Alva Pomba”, no caso, o “Hymno do Divino Espírito Santo”, ainda do Séc. XIX, que está em Bom Jesus de Itabapoana?
Sim e não. Sim, para o facto de ser inédita a sua descoberta, em um antigo “Cancioneiro de Músicas Populares Portuguesas” datado de 1893, e pelo facto de se encontrar “virtualmente” em Bom Jesus, pois a descoberta, depois de uma insistente, perseverante e dificultosa pesquisa, foi feita através dos meios modernos da internet e recentemente divulgada para que todos possam ter a facilidade de acesso.
Na pesquisa, além do ineditismo da Partitura em si, é de se ressaltar outros dois aspectos que considero muito importantes:
1°- muito possivelmente, é de se supor, pela data em que foi lançado (1893), que o Pe. Mello teria este Volume (I) em suas mãos quando veio para o Brasil, pois, as Cifras e Letra são as mesmas e, sabemos que existem algumas variações regionais nos Açores.
2°- o nome do autor do Hino, na Partitura, é o mesmo que sempre foi citado pelo Pe. Mello, um certo Padre Delgado, de Ponta Delgada, confirmando a autoria, desta vez, referenciada em um Livro de grande valor para a Música Popular Portuguesa da época.
Acrescento a informação de que, por algumas vezes, vi ser referenciado, em artigos de páginas açorianas, como autor deste Hino do Divino Espírito Santo, Jacinto Inácio Cabral. Descobri que Jacinto Inácio Cabral teria sido Mestre de Capela da Matriz de Ponta Delgada e, também, Maestro de algumas Filarmônicas nas Ilhas. Concluo que talvez por estes motivos ter sido considerado o autor, já que, o Pe. Delgado, no Livro foi apontado como o autor, como bem o considerava, também, o Pe. Mello.
Aliás, este pode ser um bom ponto de discussão sadia e de aprofundamento de pesquisa para quem possa se interessar. Quem sabe, até mesmo um Grupo de especialistas em História e Música podem se dedicar ao tema?
O Pe. Mello, nascido em 1863, afirmava ser o Hino muito antigo e já o escutava quando criança em sua pequena Achada...

Comente sobre as informações contidas na carta de 7 páginas escrita pelo Padre João Caetano Flores da Ribeira Chã que o senhor encontrou durante a sua investigação?
O Padre Flores, sucedâneo, entre outros, do Pe. Mello na Ribeira Chã, foi extremamente zeloso e escreveu ao Bispo de Campos dos Goytacazes, à época – Agosto de 1891 -,  para obter informações sobre a vida do Pe. Mello em Bom Jesus e oferecendo uma rica biografia do mesmo desde a sua saída do Seminário e o seu 1° trabalho pastoral na então Capela de São José e, foi ele - e não outro, como já vi divulgado, utilizando as ricas informações do Pe. Flores –a ter a enorme sensibilidade de denominar o Pe. Mello como o “Sacerdote Poeta”.
As informações, valiosíssimas, vão, desde o seu nascimento até informações, até então inéditas, como ser o autor da Letra do Hino do Seminário de Angra, ainda o mesmo tocado actualmente, o que foi confirmado, por verificação vem vídeos e por contacto pessoal com o seu Reitor, o Reverendissimo Padre Hélder Miranda Alexandre; a citação a suas Obras Literárias, entre as quais a do ilustre escritor, porta e professor Ruy Galvão de Carvalho, em sua “Antologia Poética dos Açores – 1° Vol. 1979 “, vem como cita a poesia em homenagem ao Papa Leão XIII, dedicada ao Bispo de Angra de então, Dom Francisco Ribeiro de Brito, em 1893, também publicada no Jornal lisboeta “O Economista”, em 25 de março de 1883, esta em pesquisa realizada pela Drª Lucília Stanzani, que também achou, em pesquisas, documentos e as datas de partida e chegada do Pe. Mello, respectivamente, de Lisboa, depois da Ilha Terceira e Brasil.
O Pe. Flores cita, ainda, outras actividades de elogiosa atividade caritativa, em especial em uma enfermidade infecciosa que atacou a Comunidade.
Esta carta, infelizmente, nunca respondida e que foi parar nas mãos de uma pessoa que percebeu a preciosidade das informações e nos comunicou, foi o elo definitivo que nos uniu à Ribeira Chã e aos Açores pelas revelações encontradas. Facto comunicado, imediatamente ao amigo José Pacheco, da Ribeira Chã, e que já conhecia e divulgava a história do Pe. Mello, sem saber ele que havia realizado o seu trabalho pastoral na citada Ribeira Chã…
Por já conhecer o trabalho do Pe. João Caetano Flores, ao reconhecer o nome de quem assinava a carta, meu Deus, levei um susto enorme. Depois pensava, com um sorriso maroto: “assim age o Espírito Santo, que dá a revelar-se quando, como e onde quer”...

Uma última pergunta. Padre Mello, pároco, poeta, cronista e autor da letra do Hino do Seminário de Angra de Heroísmo. Que mais tem o Antônio para contar aos leitores do Correio dos Açores, da Ilha de São Miguel ?
O Pe. Mello, para Bom Jesus, foi, muito além de um estimado e operoso Pai Espiritual, participando activamente da vida cultural e cívica da Cidade, lutando bravamente pela sua independência, o que ocorre em 01/01/1939 e é, justamente ele, a fazer o discurso no Palácio do Governo quando da oficialização do Acto de Emancipação.
Foi, também, o responsável pela organização do Património da Igreja, que estava deixado de lado, reformou e construiu a incipiente Igreja Matriz, dotando-a de duas torres, a maior com a torre do relógio (1924), em funcionamento até os dias atuais, e outra menor (1931), tudo feito com projetos e cálculos seus e com obtenção de recursos com seus próprios escritos em firma de pequenos livretos e o “Pão do Padre”, nada mais do que a “massa sovada” açoriana, feita por sua irmã, Dª Mariquinha.
Foi, ainda, agrimensor, autor de artigos e colaborador em vários jornais, fundador de jornais, de Filarmônicas, inúmeras e históricas Capelas e grande incentivador da Festa de Agosto de Bom Jesus, dedicada ao seu Padroeiro e à sua Devoção maior, desejando falecer em um dia da Festa, no que foi atendido, no dia 13 de Agosto de 1947, deixando ordens expressas de que esta não fosse interrompida. Este seu último desejo também atendido.
E, o Padre Mello, escreveu, em Capítulos, a História de Bom Jesus nos seus primórdios, incluindo a explicação, em detalhes, da Festa local dedicada ao Espírito Santo e, também, como ela era celebrada na sua terra natal.

A última mensagem?
Muito ainda teríamos que a discorrer sobre assunto tão palpitante, mas, finalizamos com o apelo de que este filho dos Açores, da São Miguel jamais esquecida, mas, também, filho espiritual da Terceira, do seu Seminário, ao qual chamava “Casa Santa Mimosa de Deus” onde foi o autor da letra de um Hino tão impressionantemente belo e consistente precisa ser (re)conhecido em sua terra, por seus méritos de religioso, mas, também, como escritor, poeta, historiador e muito mais... 
No Brasil, em especial em Bom Jesus do ITABAPOANA foi enorme, nos legando a sua cultura religiosa, intelectual e histórica, nos doou a sua vida por tantos anos, morrendo em Dia de Festa do Divino Espírito Santo e, um dos seus poemas últimos, talvez pressentindo a glória da morte, hoje Hino de um Colégio com o seu nome é o de um homem que amou e sonhou com os Açores e com Bom Jesus:

MORRER SONHANDO

“Cedo, bem cedo, perderei a vida
Planta ferida no mimoso pé.
Teu desengano perecer me ordena,
Na idade plena de esperança e fé.

Porém a morte me é suave e doce
Como se fosse uma ilusão de amor;
Embora eu sinta que uma luz se apaga
Outra sae afaga de eternal fulgor.

Morrer sonhando! Como é doce a morte!
Que vale a sorte que esta vida tem?!
A vida é sempre uma fugaz mentira,
A morte aspira a realidade além.

Morre este corpo de servil matéria.
Baixa à miséria do funéreo pó,
Porém minha alma sempre viva sonha
Vida risonha; não mereço dó.

Beijo-te a mão que me assassina e creio
Que ela me veio libertar ao fim.
Morrer sonhando é despertar na glória;
Eis a vitória. Morrerei assim.
                                                 

Lélia Nunes

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Autor: CA

Categorias: Regional

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