30 de agosto de 2019

Do Meu Olhar

Um caso sério

O conceituado jornalista açoriano Tomás Quental escreveu recentemente na sua página do FB um interessante episódio que suscitou vários comentários, incluindo um da minha autoria , pela preocupação que o relato invoca e pela atualidade do tema abordado ! Assim, tomo a liberdade de transcrever a parte central do episódio , que é a seguinte :  “  Uma senhora de 50 anos sentiu-se mal na rua, numa cidade do continente português . Ficou branca como papel, a tremer e de olhos fechados. Foi imediatamente apoiada por outros transeuntes. O  INEM prontamente compareceu... reanimaram a senhora e concluíram que se tratou de uma descida momentânea de tensão arterial. A senhora , emocionada , disse : Isto é tudo por causa do meu trabalho. Sou funcionária de um lar de terceira idade e trabalho como uma escrava . Há trabalho para 20 mulheres e só existem 10 ao serviço. E não podemos reclamar. Além do trabalho difícil no lar , ainda temos que apoiar moralmente aqueles idosos, cujos familiares nunca  os vão visitar ... Eu não aguento mais !”.
Este triste episódio suscitou-me uma série de reações sobretudo em relação ao trabalho e funções dos cuidadores dos Lares de Idosos , sejam eles no continente , nos Açores ou na Madeira  ! O problema é idêntico e as condições similares porque o idoso é sempre uma pessoa mais velha ,  com mais idade , seja em que  Vila  for ou até mesmo na capital ou capitais da nossa geografia ! As pessoas mais velhas da nossa sociedade estão a viver mais e naturalmente que vão residir nos Lares cada vez mais velhos e dependentes . É um facto indesmentível  e que sobrecarrega quem deles cuida , trata e acompanha ,   e a família de alguns é muito ausente originando mais queixas e carências, mais sofrimento emocional , carecido da atenção do coração que só os familiares são capazes de proporcionar ! 
Neste lamentável episódio centra-se o demasiado esforço que é requerido aos trabalhadores auxiliares dos lares , hoje mais conhecidos por cuidadores , que sofrem demasiado com o esgotamento que as funções originam, dia a dia , noite após noite , levanta e deita , veste e despe, lava ou ajuda na higiene , sempre com esforço redobrado , misturando-se os queixumes de uns com os lamentos de outros , numa cruzada de dificuldades que só quem, como eu, quando exerci as funções de Provedor durante dezassete anos , pôde verificar e acompanhar , às vezes com o coração dilacerado !  A questão agrava-se muito com a famigerada falta de pessoal no setor , que o governo diz sempre que é suficiente ( vejam só as queixas daquela funcionária que desmaiou ) ,  baseado em informações de técnicos que ordeiramente seguem as diretrizes oficiais e  nas desatualizadas tabelas oficiais que técnicos desarvorados tentaram elaborar,  tendo sempre em vista as capacidades orçamentais  do governo e das Instituições parceiras !  Neste caminho estão os poderes públicos , a quem compete esta ingente tarefa ,  ao considerar , cada vez mais , que o utente é um número na respetivas plataforma e o cuidador é  apenas  um elemento do grupo de trabalho do respectivo lar . Esquecem- se que  eles  são pessoas , acima de tudo  e que devem ser remunerados mais justamente !Preocupam-se em criar mais serviços e valências e esquecem-se de melhorar e qualificar os serviços já existentes, como são os Lares , que agora também mudaram de nome ! São estruturas residenciais ...
É urgente rever esta questão , com frieza e ponderação , porque os cuidadores cada vez mais se esgotam e, neste caminho , vão desmaiar  cada vez mais !  Depois os cuidadores não têm quem os defenda ou as defenda , a não ser as Instituições que , apesar de muitas delas insistirem nesta gritante lacuna , com persistência  e legítima teimosia  , pouco ou nada se avançou ! 

 Verão   2019

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Autor: CA

Categorias: Opinião

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