31 de agosto de 2019

Cesto da Gávea

Lorosae XXI

Fez ontem 20 anos que os timorenses, em referendo supervisionado pelas Nações Unidas, optaram pela independência daquele antigo território português, ocupado pela Indonésia na sequência do 25 de Abril em Portugal e da subida ao poder em Timor da FRETILIN, vizinhança politicamente perigosa do regime indonésio então vigente. O trágico episódio do massacre ocorrido em 1991 no cemitério de Santa Cruz, quando os habitantes de Díli homenageavam um estudante timorense vítima da violência repressiva, chocou o mundo e despertou consciências adormecidas. Destacaram-se duas universidades portuguesas que assumiram a defesa da causa timorense: a Universidade do Porto, impulsionada pela ação do Prof. Barbedo de Magalhães; e a Universidade dos Açores, com o programa Universidade XXI, que orientou as equipas reitorais entre 1995 e 2003. Tendo por base a preparação da Universidade para o futuro, a internacionalização era um objetivo fundamental, pelo que Timor não podia deixar de estar na mira da nossa cooperação externa, como recordei ao ler o documento de recandidatura à Reitoria, que escrevi em Maio de 1999, poucos meses antes do referendo libertador de Timor Lorosae. 
A Universidade dos Açores apoiou a causa timorense desde que, em 1996, José Ramos Horta participou nas Jornadas sobre Timor Leste, organizadas pela Reitoria e realizadas no sempre digno Anfiteatro C do campus de Ponta Delgada, uma relíquia sempre útil dos tempos fundacionais do Instituto Universitário. Em 1997, uma missão liderada pelo Reitor deslocou-se aos EUA, para uma série de conferências/debates e contactos na Brown University, na U. Mass/Dartmouth e em Yale. O tema geral das conferências que proferi foi “ A autonomia dos Açores e o caso de Timor Leste”, tornando-se curioso verificar que, no início de 1999, a política dos Estados Unidos propunha soluções muito semelhantes às que tínhamos debatido com os políticos e académicos americanos. Nessa missão, custeada pela Reitoria e organizada pelo nosso assessor Carlos Riley, fomos acompanhados por João Carrascalão, Presidente da União Democrática Timorense, e por Constâncio Pinto, representante da Resistência Timorense na Nova Inglaterra. Em Boston, juntou-se ao grupo Armindo Maia, Vice-Reitor da Universidade de Díli, que chegou ao pátio principal da Harvard University de fato simples, a tremer de frio e dando sinais de hipotermia. Alarmado, pedi a Carlos Riley que fosse ali perto à Harvard Coop comprar uma parka acolchoada, antes que houvesse azar. Devem ter sido os dólares mais bem empregues da minha vida, pois vários anos mais tarde, num almoço de Natal da Direção Geral do Ensino Superior, vi Armindo Maia, então Ministro da Educação de Timor Lorosae, correr a abraçar-me fraternalmente, atravessando a sala sob os aplausos dos funcionários e convidados, uma cena que jamais esquecerei e aqui registo com alguma emoção.
Emoção e preocupação, foram sentimentos que não faltaram na digressão pelas universidades americanas, feita num carro alugado conduzido por Carlos Riley e onde ia toda a trupe. A certa altura, alguém notou em Yale uns asiáticos que estavam sempre presentes e bem atentos ao que se dizia; fomos informados que eram provavelmente agentes indonésios, mas tranquilizaram-nos – os ditos estavam igualmente a ser vigiados por agentes da segurança dos EUA. Quando acompanhámos Armindo Maia ao aeroporto de Providence, em Rhode Island, donde partiu para Díli via Djakarta, ficámos apreensivos, porque ele se arriscava a ser preso pelos indonésios. Podia ter ficado connosco, mas decidiu voltar a Timor para continuar a lutar pela Liberdade, como nos frisou ao despedir-se de nós. Felizmente, a sua coragem teve a merecida recompensa, como me explicou no tal almoço de Lisboa, alguns anos depois. Uma das consequências positivas desta e doutras missões semelhantes para a cooperação externa da nossa Universidade, resultou no acolhimento de estudantes timorenses no Pólo de Ponta Delgada, onde ficaram alojados na velha residência da Rua das Cabaças. Tantas “dores de cabeça” deu ao secretariado da Reitoria, coordenado por Graça Castro, que estou seguro dela ainda se lembrar do número de bolseiros que recebemos de Timor. Seriam uns 15 elementos – um dos quais teve um acidente e partiu um braço, conforme me recordou a Graça, amiga e colaboradora de longa data— numa ação conjunta que, se a memória me não falha, envolveu posteriormente o Polo de Angra, através dos colegas Jorge Pinheiro e Tomás Dentinho.
Todas estas ações de cooperação internacional exigiam esforço pessoal e financeiro, mobilizando a Reitoria e os Departamentos, pelo que formámos uma Pró-Reitoria da Cooperação, entregue a Gilberta Rocha, uma colega distinta e imaginativa que muito fez por estas missões. Quando Ramos Horta veio à Universidade dos Açores em 1996, prometemos ir um dia a Díli, num Timor Livre. E os nossos docentes cumpriram a promessa, sendo esta uma das boas razões porque passados tantos anos, “Lorosae XXI” tem sabor a Liberdade.
 

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Categorias: Opinião

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