31 de agosto de 2019

Uma pupila de Domingos Rebelo

“Vi dez mil quadros. Observei mil. Estudei cem. E finalmente compreendi dez.” – José-Augusto França

Nos tempos do corporativismo, um aprendiz só passava a mestre depois de muitos anos e após a realização de um teste prático – a chamada “obra prima”.
Hoje é raro cruzarmo-nos com “obras primas” no nosso dia-a-dia. Muito menos com as de discípulos de Domingos Rebelo. Muito menos com as de discípulas de Domingos Rebelo. E muito menos ter a “obra prima” de uma discípula de Domingos Rebelo em casa.
Em 1938, Maria Georgina Moniz, pequena, corcunda, aluna de pintura, abordou Domingos Rebelo em casa. Bateu-lhe à porta. Queria ter lições. Uma mulher. Corcunda. Em 1938, a disformidade e o sexo pesavam sempre contra.
Estavam em finais da fase regionalista do ilustre pintor micaelense. Domingos Rebelo recusou. Maria Georgina regressou a casa. Pintou um quadro. Uma jarra de jarros. Voltou a bater à porta de Domingos Rebelo. Mostrou o quadro e ficou sua aluna. A pintura foi a sua “obra prima”, mas de acesso ao estatuto de aprendiz.
Após o sucesso, Maria Georgina Moniz ofereceu o quadro a Aida Domingues César, colega de pintura, e mãe de quem me descreveu esta história, na terceira pessoa. Longa lhe seja a vida.
O depoimento, por vezes, é a única barreira entre o conhecimento do passado, que deixa vestígios, e o seu total anonimato.
É uma obra extraordinária para quem observa. Não só pela sua proficiência artística, mas também porque representa a elevação de uma mulher, com disformidades físicas, perante uma resignação que a sociedade – e o mestre – lhe impunha. 
É uma materialização autêntica de emancipação, numa altura em que se constrangia a elevação de talentos no feminino e, como sabemos, a lei não plasmava claramente a igualdade entre os sexos -  quanto mais quotas de género. 
De Maria Georgina Moniz não se conhece retrato. Poderá aferir-se, na fotografia que se junta, captada por volta dos anos 30, que seja a primeira, a contar da esquerda, sentada. É uma hipótese que carece de maior confirmação. Mas é a única mulher do conjunto cuja postura indicia disformidade física, coincidente com corcundez.
O quadro merece uma atenção mais especializada. Porventura de um historiador da arte. E sobretudo merece a fruição pública. Lá chegaremos.
 

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Categorias: Opinião

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