Açoriano Ivan Nunes: depois do Clube K treina equipa da 1.ª divisão sueca

“Como fui parar à Suécia? Pelo trabalho e pela paixão”

Como surgiu o convite para trabalhar num clube sueco?
O convite surgiu porque a treinadora-jogadora que estava no Degerfors Volleyball Orion decidiu não continuar nos comandos da equipa sueca. Como conhecia bem o meu trabalho quando estivemos juntos uma época no Clube Desportivo Ribeirense (Pico), propôs ao clube que me deslocasse à Suécia para me conhecerem e conhecerem a minha forma de trabalhar. Assim aconteceu. Em duas semanas fizemos alguns treinos e após duas reuniões chegámos a acordo.

Vai ficar com a equipa principal do clube que pertence a uma cidade relativamente pequena... 
O Degerfors Volleyball Orion fica situado numa cidade relativamente pequena, chamada Degerfors, com cerca de 7 000 habitantes e fica a cerca de 12km de Karlskoga, com 15 000 habitantes. O clube, para além da equipa sénior “A”, tem uma equipa sénior “B” que participa na segunda divisão sueca, bem como o escalão que em Portugal chamamos de minis. 
O contrato acordado entre mim e o clube foi para trabalhar com a equipa “A” como técnico principal e colaborar com os restantes treinadores do clube nos restantes escalões. Assim podemos partilhar alguma experiência, bem como ajudar no crescimento das equipas chamadas de formação do clube. 
Se assim não fosse provavelmente não teria aceitado, porque, para mim, mais importante do que ser campeão é, sem dúvida, participar activamente na formação mental, física, técnica e táctica do atleta e o seu percurso até à elite. 

Que argumentos seus chegaram ao clube ao ponto de tê-lo convidado?
Como deve calcular, um currículo de pouco serve quando não é repleto de grandes vitórias, campeonatos e taças. São etapas que nunca me preocuparam em demasia. Basta consultar o meu currículo para ver as poucas “grandes” classificações obtidas pelas minhas equipas. Portanto, ter alguém que já conhecia o meu trabalho e a paixão que tenho pela modalidade e por tudo o que faço acabaram por serem muito importantes. Juntando a essa paixão a visão que é partilhada por toda a direcção do clube sueco, tudo se tornou mais fácil.

A duração do contrato por quanto tempo é?
 A duração do contrato proposta pelo clube foi de duas épocas, mas pedi para mudarem para uma época. Sendo o primeiro ano que estarei a viver fora do meu país natal, num país com temperaturas negativas que podem chegar aos -22ºc, fiquei com uma dúvida em termos de saúde. Apenas isso me fez pedir a redução para um ano, porque tenho como objectivo cumprir, no mínimo, as duas épocas, tendo em conta que numa época pouco se faz em termos de trabalho de formação. O primeiro ano serve para conhecermos ritmos de trabalho, cultura, hábitos, criar rotinas, etc…

“SEMPRE FUI AFORTUNADO”

Financeiramente deve valer a pena comparando com o que pagam os clubes portugueses?
A nível financeiro, sabe, sempre me senti afortunado, pois sou, desculpe, era, dos poucos treinadores nos Açores que podia afirmar que vivia da minha paixão, fazendo aquilo que amo. Onde quer que tenha trabalhado sempre fui recompensado financeiramente para que, com alguma cautela, pudesse viver.
Na vinda para a Suécia não foram os motivos financeiros a prevalecerem, mas ajudou saber que teria casa, carro, internet e o mesmo ordenado que usufruía nos Açores. Sei que a vida aqui é bastante mais cara, principalmente em termos alimentares, mas é algo que ponderei antes de aceitar. Nunca foi e dificilmente será o enriquecimento financeiro que me fez ser treinador de voleibol.

O que tem em mente desenvolver no Degerfors Volleyball Orion ?
Para além do que referi anteriormente, tenho também como objectivos ajudar no crescimento da modalidade e colocar o clube no mapa em termos de escola de formação de atletas de voleibol. Pretendo trabalhar em conjunto com os colegas de forma a criarmos uma equipa de treinadores, aumentarmos o número de atletas em geral, principalmente nos escalões mais novos e estabilizar o processo para o médio/longo prazo.

No entanto, teve de enfrentar uma situação inesperada no clube de Degerfors...
Durante o mês de Julho a direcção do Degerfors Volleyball Orion teve de tomar a difícil decisão de descer de divisão devido à falta de atletas disponíveis para competir na Divisão de Elite. Assim, o clube passou para a 1.ª divisão. 
A meu ver foi uma decisão acertada tendo em conta que seria necessário um grande investimento financeiro para termos atletas estrangeiras para disputar algo que queremos todos (treinadores e direcção). A visão do clube e minha é que as atletas estrangeiras sejam um reforço e não a base de tudo! É certo que me sinto triste por não poder participar na mais alta divisão feminina sueca, mas acaba por ser um incentivo ainda maior para que o trabalho seja bem feito e que, se assim o merecer, para o ano o  Degerfors Volleyball Orion esteja novamente da Divisão de Elite.

“FOI UMA ÉPOCA MUITO DESGASTANTE”

Ao ter conseguido evitar a descida do Clube K, que pairou durante quase toda a época, foi como tivesse conquistado o título?
Em relação à equipa masculina e a época 2018/2019, penso que não será disparate nenhum dizer que todos os envolvidos tinham a noção que seria muito pouco provável conseguir a manutenção. Mesmo condicionados, nunca foi a razão para não trabalharmos, para darmos o melhor e fazermos o “impossível” para que no final, descendo ou mantendo, todos saíssem de cabeça erguida pelo que tinham feito ao longo da época. 

Na época passada esteve como treinador principal na equipa masculino do Clube K. Pelas dificuldades que a equipa passou na 1.ª divisão, foi uma experiência amarga e desgastante para si?
Não foi uma experiência amarga para mim, mas foi a época mais desgastante desde que me lembro, não só para mim bem como para todos os atletas que aceitaram, durante uma época inteira e sem desistirem, fazer, dentro das suas possibilidades, tudo o que podiam para dignificar o nome do clube que representavam.
Não é fácil manter o ânimo após 23 derrotas consecutivas quase todas a três a zero. São os atletas os verdadeiros heróis. Se existem heróis nesta história, foram eles que durante semanas e semanas treinaram, sofreram com as lesões, com a fadiga e conseguiram! 

Se não têm chegado os jogadores venezuelanos na parte final da época, hoje o Clube K estaria na série Açores da 2.ª divisão?
Sim, confirmo. A meu ver conquistámos um título. A chegada dos reforços não só aumentou o nível da equipa, como aumentou a qualidade dos treinos o que, por sua vez, melhorou a qualidade de todos os envolvidos. Foram poucas semanas, mas viu-se evolução em todos.
O mais importante a referir neste momento, é a posição da direcção em relação a tudo o que se passou. Quero, mais uma vez, agradecer à direcção do Clube Kairós por ter decidido fazer um esforço financeiro para que a equipa fosse reforçada e pudesse, de uma forma mais equilibrada, lutar de igual para igual contra as equipas adversárias. Se o Clube Kairós se manteve na divisão mais alta do voleibol nacional masculino foi graças à direcção do clube. São os dirigentes que merecem a maior fatia de crédito. 

“HÁ 3 TREINADORES QUE SÃO AS MINHAS REFERÊNCIAS”

Pelo que afirmou o presidente do Clube Kairós (K), João Pimentel, em entrevista concedida ao Correio dos Açores, o Ivan Nunes se continuasse no clube não pretendia que fosse na equipa principal, mas sim na formação. Porque pretendia voltar às equipas dos escalões inferiores?
Sempre demonstrei o interesse de trabalhar com Paulo Barreto. É para mim e sempre foi uma referência. Foi, aliás, a sua presença no Clube Kairós que mais influenciou a minha vinda, para além de todas as condições e estrutura que o clube pode oferecer.
São três as pessoas que para mim sempre foram a referência na Região e que tive o prazer de ir acompanhando, umas vezes de perto outras não tanto: Luís Magalhães, António Brilhante e Paulo Barreto. 
Esta época 2019/2020 encerra algumas mudanças. Como em todas as mudanças surgem algumas dificuldades e adaptações. Foi por isso que senti que seria uma peça útil se fosse treinador da formação do Clube Kairós. É que apesar do muito que foi feito nos últimos anos, ainda há muito para ser feito.

A série Açores da 2.ª divisão é a solução para o crescimento do voleibol açoriano ou não passa de um forma de empurrar os clubes dos Açores para o seu casulo?
Em relação à série Açores da 2.ª divisão nacional, a forma como está estruturada permite dar oportunidade aos clubes que pretendem dar o passo para as divisões superiores. Assim terão a experiência de jogarem com equipas do Continente e melhorarem, através desses mesmos jogos, a capacidade dos atletas perante equipas mais experientes. 
Penso que não existe uma solução que seja mais eficaz para todos, pois todas as ilhas contribuem para o crescimento da modalidade. Apesar da Direcção Regional do Desporto tentar que ninguém seja prejudicado, existe sempre quem o fique. Não devemo-nos virar para os grandes núcleos para que os pequenos possam crescer, mas ao fazê-lo também não permitimos que os que têm capacidades possam crescer mais.

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Categorias: Desporto

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