31 de agosto de 2019

A sociedade como causa principal de doenças mentais


Nunca vejo na comunicação social ser abordada a questão das desvantagens da civilização ocidental.
Fala-se muito e bem das alterações climática, do aquecimento global, do buraco na camada de ozono, na poluição da indústria alimentar e da diminuição assustadora dos recursos naturais, mas dos efeitos do estilo de vida dito civilizado do ocidente pouco ou nada vejo e não é por estar desatento, muito antes pelo contrário.
Esta sociedade está cheia de doenças porque ela é a fonte por excelência de doenças.
Ao colocar o homem a funcionar ao ritmo vertiginoso da máquina, contrariando as leias da natureza, criou no homem um série de doenças crónicas a nível físico e sobretudo mental.
Já no século passado o escritor suíço-alemão Herman Hesse, no seu livro Hans, conta a história de um rapazinho superdotado chamado Hans, mas que tinha um sistema nervoso invulgarmente frágil e ficou debilitado pela carga enorme de tarefas e horas de estudo que estava obrigado a suportar no seminário.
Felizmente a medicina regista assinalável avanço e evolui da concepção de uma medicina exclusivamente orgânica uma medicina psicossomática que valoriza os aspectos psíquicos do doente que, as vezes, são a causa dos sintomas físicos.
Este tipo de sociedade da pressa, do stress, da competição, cria no indivíduo doenças mentais.
Os que têm um sistema nervoso mais forte (mas que não frequentemente os menos inteligentes) aguentam, os outros adoecem do sistema nervoso, especialmente com depressão nervosa que alastra hoje na sociedade de forma aterradora.
O estilo de vida de stress constante origina a fadiga crónica, isto é, uma fadiga que se mantém mesmo quando a pessoa descansa e para além do repouso.
O coração e o cérebro são as principais vitimas, depressões e ataques do coração são cada vez mais frequentes, mesmo em idade jovem, porque as pessoas são fatigadas crónicas sem o saberem recorrem aos tranquilizantes e aos anti depressivos para se aguentarem até às idade da reforma que muitos não chegam a gozar, vitimada por essas maleitas citadas pela sociedade.
Claro que há a parte genética que predispõe o indivíduo a padecer de certas doenças, mas essas maleitas nunca apareciam, ou pelo menos, nunca apareciam tão cedo se não fossem os factores sociais exógenos.
Médicos e não médicos falam da importância de alimentação, mas de que serve isso se o indivíduo está permanentemente fatigado com o trabalho que tem com o rendimento que a sociedade lhe exige?
Não se fala da importância do ócio na vida, de se fazer um trabalho que se gosta, de ter tempo para contemplar-se a si próprio e às maravilhas da criação.
É muita pressão desta sociedade exercida sobre a pessoa humana e os mais sensíveis é que são as maiores vitimas porque ficam doentes.
Tomemos por referência o homem português cuja a alma é onticamente saudosista segundo Teixeira de Pascoaes.
Falo do português, mas poderia falar do homem francês, do inglês, do alemão, até porque o estilo de vida é uniforme e global e visa precisamente uniformizar e capturar a pobre criatura vivente por vontade de Deus, para as prisões do mundo.
Todos sofrem dos mesmos males hoje em dia.
Na realidade são uns tristes seres , mais mortos do que vivos, são almas cativas, almas mortas, deixando cada dia um pouco deles mesmos no caminho como escreveu Amiel.
A sociedade prende completamente o indivíduo, e a sua margem de liberdade real é mínima.
Começa pela facto de o indivíduo não escolher o trabalho que gosta mas o trabalho que lhe aparece e quando aparece; muda de serviço por mais dinheiro e não porque esse serviço o vai realizar mais como ser humano.
E fá-lo porque tendo mais dinheiro, tem maior capacidade de consumo a todos os níveis, é melhor tratado pelos médicos, pode fazer viagens às Caraíbas, pode comprar bons carros e boas roupas e até a mulher gosta mais dele se tiver a carteira sempre recheada, tipo poço sem fundo.
Nos casais a falta de dinheiro é o primeiro e talvez o decisivo para o divórcio.
Os filhos, viciados pela sociedade, acham que o bom pai é o que os deixa em rédea solta à mercê do primeiro oportunista que aparecer; o pai normativo que impõe regras é visto como um chato a evitar, um exemplar fossilizado da idade da pedra.
Os pais hoje são vistos como companhia de seguros dos filhos a quais recorrem quando levam um trambolhão, e não como o amor encarnado e a autoridade que tem maior saber da vida, que tem saber da experiência, como diria Camões.
Depois, o Estado, que se diz de direito, mas é o mais torto do que um corno de cabra, cria prazos que ele próprio não cumpre, sujeitando o cidadão a uma pressão constante para não exceder o prazo senão aplica-lhe uma multa sem querer saber onde o pobre cidadão vai buscar o dinheiro para a pagar.
Em Portugal existem impostos que são imorais; a pressão fiscal exercida sobre o contribuinte é insustentável.
Não há justiça nem equidade fiscal.
Os impostos são muitos e caros, mas o sistema de saúde não está melhor, está mais doente.
São greves e mais greves de magistrados e de funcionários médicos e enfermeiros.
Os interesses corporativos, prevalecem sobre o interesse público e isto porque a maioria da população portuguesa está dependente do Estado para sobreviver, mas, sendo maioria, decide eleições; então o jogo é o seguinte.
Quando se aproxima a data das eleições disparam as greves porque sabem os sindicatos que nesse período o Governo não tem outro remédio senão ceder às reivindicações justas ou injustas dos grevistas, porque se não ceder a junção publica não vota nele nas eleições, tira-lhe o tapete.
E como o governo e os partidos e seus membros querem manter-se no poleiro a todo o custo, deixam correr o marfim.
A solução é dar o que os grevistas querem para depois receberem em troca o poder que adoram na terra, acima de todas as coisas visíveis e invisíveis.
Os privados, estando em minoria, ganham menos do que os funcionários públicos, trabalham mais, são despedidos pelos patrões e não fazem greve senão é o que se saber, rua com eles.
Para acabar com estes jogos de interesses o melhor seria por o partido comunista a governar e acabava-se a distinção entre públicos e privados; assim como assim vivemos num regime semi-comunista, que nem é carne nem é peixe.
Acabe-se com os patrões, o Estado do futuro será o patrão de nós todos, aquele que nos proteja do berço até à cova; agora uns serem filhos e outros os enteados é que não.
Ainda há dias pensava nisso: os nossos homens poleiro apelam ao empreendedorismo, a que os jovens criem empresas privadas e até abrem linhas de crédito especiais para isso, mas depois mandam os filhos para os cargos públicos e empregam a família toda no Estado.
Eu pago impostos, não me importo.
Não recebo subsídios do Estado, não me importo; há quem precise mais.
A minha dúvida é não saber onde é empregue e como é gerido pelos governos o dinheiro dos impostos que eu pago e os outros pagam.
Parece-me  que é fundamental criar uma relação de confiança entre o Estado e o cidadão para melhorar a vida dos cidadãos.
Há falta de transparência na relação que exige em Portugal, entre o Estado e os cidadãos; a confiança cria-se com transparência, clareza de procedimentos, com opções claras de politica nas várias áreas da governação.
Ora isso só se faz com as pessoas certas e nem sempre os partidos escolhem as pessoas certas, mas as pessoas convenientes, ou melhor, mais subservientes.
As pessoas que queiram intimamente um Portugal melhor, e não um país melhor só para alguns, mas um Portugal mais justo, melhor, porque é mais fraterno, habitado por pessoas com profundidade de sentimentos morais.
Não um país e a Europa que temos, o sistema que temos, que nos vê como uma máquina de produção e consumo e que nos faz adoecer devido à pressão insustentável que exerce sobre nós. 
A Europa ainda se proclama mundividentemente cristã mas Cristo não tinha profissão conhecida (ajudava S. José, seu pai, como carpinteiro), não tinha orçamento, não sabia de finanças e não possuía biblioteca; não ensinou escravidão, mas a liberdade. Não ensinou o homem a vergar a cerviz para a terra mas a levantar a cabeça para o céu.
Ou seja, colocou a pessoa humana no centro; o trabalho é para o homem, mas o homem não é para o trabalho; porque todas as coisas são instrumentos para um fim mas não um fim em si mesmo. Aliás, a própria vida do homem não é um fim em si mesma mas o caminho para uma vida superior que transcende o próprio homem.
Todavia disse: ganharás o pão com o suor do teu rosto; trabalha que eu te ajudarei; mas fez a noite para o homem dormir e descansar.
Todavia o coração do homem não dorme; mesmo de noite a sua mente é povoada de sonhos e de pesadelos, e não dorme hoje em dia porque as preocupações são muitas e não consegue dormir; a sociedade não acolhe o ensinamento de Cristo.
A cada dia a sua preocupação; deixa o dia de amanhã para cuidar de si próprio.
Vivemos hoje na esperança de amanhã que será superior a hoje!
Mas a vida embora seja vivida para a frente e compreendida às arrecuas como disse egregiamente Confucio e KierKgaard.
Mas o problema importante aqui a reter é a sociedade actual, a compreensão das coisas só é possível com tempo e reflexão a coisas que hoje não existem ou existem muito pouco.
Apreender rapidamente uma coisa nas suas linhas essenciais não chega para forma uma visão mais clara das coisas; é preciso a maturação que só o tempo permite.
Ora o que vejo é que há muitas árvores por aí mas os figos, devido à pressa, são apanhados verdes, falta a maturação do tempo que traz sabedoria.
Falta aos dirigentes atuais, mesmo que sejam doutorados pelas universidades criadas a granel, saber histórico, cultura política, filosófica, enfim cultura histórica e visão para serem a floresta em vez das arvores, para serem parte das soluções e não parte dos problemas.
Veja-se Trump, veja-se o presidente da Coreia do Norte, vejam-se certos professores universitários, vejam o nível da nossa comunicação social; a mediocridade, a falta de formação moral e intelectual dos pseudo-mestres.
São produtos da sociedade que cria doente e ignorantes.
Hitler era claramente um doente mental, Churcill um doente depressivo; Nietsche tinha surtos psicóticos, Heidegger tinha depressões, o próprio Salazar era um doente depressivo.
E a psiquiatria ainda não tinha a autonomia e credibilidade científica que hoje tem, porque senão ninguém escapava a uma exame psiquiátrico rigoroso; o próprio Sócrates de Massada pode ter algum distúrbio desse tipo e o próprio Sócrates da Grécia antiga não sabe.
E por hoje termino com as andorinhas a voar sobre a minha cabeça; como eu invejo a sua liberdade; como será voar sem medo de cair, voar apenas pela pura felicidade de viver completamente livre!

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Categorias: Opinião

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