Nini Andrade Silva, Arquitecta de Interiores/Designer

“Quero construir um hotel à beira mar em São Miguel que tire partido dos dias de chuva...”


Correio dos Açores - Que projectos tem em curso? 
Nini Andrade Silva - Tenho vários. Os mais recentes que abrimos foi o Vila Foz, um palacete do Sec. XIX que foi totalmente recuperado na Foz do Porto, um projecto único que vale a pena conhecer e o Savoy Palace, na ilha da Madeira, um dos maiores hotéis que fizemos até hoje, sendo que é considerado, actualmente, o maior hotel construído na Europa. É um projeto muito bonito, a temática envolve toda a ilha da Madeira. Estão lá representados os bordados, os vimes, a floresta laurissilva, os jacarandás, finalizando com as estrelas cadentes do mês de Agosto.  Com mais de 500 quartos, divididos entre o “Vacation” e o Hotel, é um projecto especial para todos os que lá trabalharam. Só do meu atelier, tivemos 18 pessoas envolvidas, entre arquitectos, designers, decoradores e outras pessoas relacionadas com a logística. Entre estudos, projectos e construção,  foi cerca de 3 anos.  Actualmente, temos vários projectos em curso, abrangendo várias partes do mundo, desde casas, hotéis, clínicas, restaurantes e escritórios. Acabámos de finalizar uma obra em Tóquio (Japão). África, Suíça e Inglaterra, fazem também parte dos países onde estamos com projectos. De momento, estamos igualmente a trabalhar para o Grupo Marriott,  em São Paulo (Brasil) a maior cadeia hoteleira do mundo, no projecto do primeiro W Hotel de luxo do Brasil.    

Nos Açores, tem algum projecto em curso? Nos Açores, temos um trabalho na ilha Terceira, em Angra do Heroísmo e aqui em Ponta Delgada está em estudo o início de  um novo projecto que penso que será de grande interesse para a Região.   E que mais? Além do Atelier Nini Andrade Silva, temos mais duas empresas: A Esboço Interiores e N116 que comercializa equipamento para privados e hotéis. Como é do conhecimento público, temos uma colecção de mobiliário de luxo, intitulada “Garouta do Calhau” Vamos juntar-nos a uma grande empresa de Design para nos posicionarmos internacionalmente apesar de já termos estado presentes em muitas feiras internacionais , como Paris, Abu Dabi, Londres e Milão.   

Como tem evoluindo o Design Centre no Funchal? 
O Design Centre, é para mim muito importante, é uma ilhéu (Forte Nossa Senhora da Conceição)  que, actualmente, está ligado, à Madeira pelo porto do Funchal. Está lá retratada toda a história da minha vida: a exposição dos prémios, dos meus projectos, pintura e os originais das peças da colecção de móveis da Garota do Calhau. Temos dois restaurantes e um bar. O restaurante “Atelier”, com uma vista soberba de 360º sobre a baía do Funchal, localizado no topo da ilhéu é visita obrigatória  na Madeira.  Aliás, as pessoas já reservam o restaurante antes mesmo de chegarem à Madeira. No andar do museu, temos uma cafetaria Lounge e a Sala Gonçalves Zarco. Temos também um grande espaço para eventos. Um dos grandes momentos da Madeira é, sem dúvida, a passagem de Ano e nessa altura, o nosso espaço, é considerada dos melhores spots porque é como se estivesse dentro de um cubo de vidro no mar. É mesmo muito, muito bonito!

Construiu uma casa aqui em São Miguel...
Sim, na zona do Pópulo. De um casal fantástico. Quando cá venho, fico muitas vezes lá. Uma casa com acesso directo à praia, o que não podia ser melhor. Adoro! Ultimamente, nestes dias em que cá tenho estado, apesar da chuva que as pessoas apelidam de “mau tempo”, para mim é uma benção! E por várias razões: os Açores têm este verde maravilhoso devido à chuva,  não há incêndios no verão e  adoro tomar uma chávena de chá a observar as ondas na praia, com a “dança” da chuva a fazer-me companhia. Para além disso, há dias de sol belíssimos e nunca se sente um calor insuportável.

Recuando no tempo, lembra-se da primeira vez quando foi à escola? 
Por incrível que pareça, eu tinha uma escola em casa. Os meus pais eram professores e a minha mãe dava aulas em casa. A casa era portanto uma casa/escola. Tínhamos sempre 80 crianças em casa.  Inicialmente, fui para o infantário, num colégio. Na primária, estive apenas duas semanas na escola da minha mãe. Como era uma criança irrequieta, a mãe mandou-me novamente para o colégio! Fui a única dos filhos que foi para o colégio. Depois estive no liceu Jaime Moniz, no Funchal, e fui para Lisboa estudar no IADE. De lá, fui para Nova Iorque.    

Como é que decidiu ir para Nova Iorque? 
Na Madeira, havia a família Kiekeben. Eles tinham lojas nos Estados Unidos e trabalhavam com muitos designers, na área da tapeçaria. Tinham a Tapeçaria da Madeira. E essas tapeçarias eram desenhadas  pelos maiores designers internacionais. Viajei com eles para Nova Iorque. E comecei aí, a perceber que de facto, era o Design aquilo que realmente gostava. Na altura, os designers vinham de Nova York até Paris de Concorde, viajavam até à Madeira, escolhiam duas ou três cores e voltavam para Nova Iorque, tudo isto, era muito rápido: vinham num dia e regressavam noutro. Eles controlavam um pouco os negócios. Ter estado com estes designers e arquitectos sempre desde muito nova influenciou-me na minha carreira. Depois de ter passado por Nova Iorque, fui para África do Sul e Dinamarca. Comecei o meu primeiro negócio com quatro sócios,  Stephen van Blommestein,  Isabel Borges e Augusto Jacquet. No final, cada um seguiu o seu rumo e  eu acabei por ficar com o atelier.  

Voltava a fazer tudo o que fez até agora?
 Voltava. Não escolhi a minha família mas, felizmente, tive a sorte de ter uma família fantástica. Tenho muitas saudades dos meus pais, morreram muito cedo… Tenho irmãos, sobrinhos e amigos que adoro! Gosto da minha vida.  

Compara os Açores da primeira vez que cá veio com os Açores de hoje em dia? E São Miguel, sobretudo? 
Completamente diferente. A primeira vez que estive nos Açores foi através da família Neves, por causa do Hotel Casa Hintze Ribeiro. Lembro-me quando eles foram lá ao ateliê em Lisboa há cerca de uns 7 anos. Normalmente, quando as pessoas entram, fico na retaguarda para tentar perceber a atitude das pessoas e, ao vê-los entrar, tive logo a certeza que queria fazer aquele trabalho.  Nunca tinha vindo aos Açores, ao contrário de minha irmã que sempre cá veio. Eu dizia  à minha irmã: “Que vais fazer aos Açores? Estás numa ilha e vais para outra?” e ela respondia-me que os Açores eram fantásticos, que  eu não imaginava o que isto era. A minha irmã tinha razão! O projecto pioneiro que vim cá fazer foi o Hotel Casa Hintze Ribeiro, mas o Furnas Boutique Hotel abriu primeiro e depois foi o Azor Hotel. Desde então, a minha família cresceu e, como tenho agora uma família açoreana, venho pelo menos cá 4 vezes por ano. Adoro vir cá de férias. Os Açores para mim é também a minha casa. As pessoas são fantásticas. É um local abençoado e de paz!

 Acha que há demasiado turismo nos Açores? 
Não acho. Uma região para se desenvolver necessita do turismo, mas um turismo de qualidade que felizmente ainda é o caso e que se tem que manter. Um dos pontos que, a meu ver, se deveria melhorar relaciona-se com o estacionamento nas lagoas, acho que deveria haver um parque localizado  antes de se lá chegar.  As pessoas poderiam ir a pé até aos miradouros e as que tivessem mais dificuldade, poderia-se recorrer a “navettes”.  Porque é uma pena não se poder usufruir do silêncio da paisagem.  Mas esta é a minha opinião, cabe às autoridades competentes analisar essa viabilidade. Já conheço os pontos turísticos aqui da ilha de São Miguel, como a Ferraria e a Caldeira Velha. Noto uma grande evolução. Lembro-me que há 6 anos atrás, passava-se pouco ao fim do dia em Ponta Delgada. As lojas fechavam cedo, não havia muita gente nas ruas. Agora há mais restaurantes, hotéis, lojas, vêm-se mais pessoas a passear, tornou-se um local mais alegre e com mais vida.

O que vai ser a Nini nos próximos tempos?
Quero continuar a minha carreira internacional, já tenho a minha família a trabalhar comigo no atelier. Tenho uma equipa fantástica e agradeço por isso todos os dias. E cada vez mais, dou poder a cada um deles para que a marca Nini Andrade Silva tenha sempre continuidade como as grandes marcas internacionais.  

Onde está o amor da sua vida? 
Em tudo o que eu faço. 

E isso é suficiente? 
Pois se está em tudo, como não poderia ser suficiente?  

Sente-se realizada? 
Sim. Nunca trabalhei por dinheiro, embora seja importante, trabalho sim por paixão. Nós fazemos arquitectura de interiores, design e decoração que são 3 coisas  diferentes. Faço sempre o melhor que consigo. Sou uma perfeccionista, gosto de ser original e causar impacto nas pessoas com o meu trabalho, talvez seja por esta razão que temos ganho tantos prémios internacionais.  

E relativamente ao futuro? 
Tenho uma grande equipa e pessoas que estão comigo há mais de 20 anos.  Felizmente é com grande honra que posso dizer que, hoje em dia, a “Nini Andrade Silva” já não é uma pessoa, mas sim uma marca. Foi através de muito trabalho e dedicação de todos que conseguimos isso.  O grupo Nini Andrade Silva é composto por 55 excelentes profissionais, fora as equipas fixas que são extra e aí sim, somos mais de 200.  

E a sua casa aqui em São Miguel já tem um atelier? 
Não, porque a casa não é minha.  Já está a trabalhar nisso? Estou a pensar nisso, gostava até de ter um hotel meu cá.  

E local para isso, já pensou? 
Gostava que fosse à beira-mar. Mas quero que seja um lugar muito especial, que tire partido dos dias de chuva, onde houvesse também sessões de poesia e música. Quero fazer esse lugar aqui nos Açores.  

Que fez durante estes dias por cá? 
Descansei, dei passeios, usufrui da amizade e de um momento muito especial que a família Neves me proporcionou na sua Quinta da Galera (Caloura) ao darem o meu nome a uma canada. Como vê…não tenho um atelier cá, mas já tenho uma canada! (risos)  

Está à procura de paz...
Venho cá sempre à procura de tranquilidade. É difícil, nos dias de hoje, encontrar um lugar como este arquipélago com uma paz enorme, bonito, com pessoas tão simpáticas.  Quando fui à Lagoa do Congro pela primeira vez, estavam lá pessoas, mas o silêncio era total. Todos tinham respeito por todos e o ambiente ao redor era mágico: só se ouviam pássaros e a água. É tão bonito! Devia haver placas nestes locais a pedir silêncio. É muito importante. É preciso defender o silêncio, é “património” aqui da região.  

Da sua experiência, como acha que vão ser os Açores dentro de 10 anos? 
Acho que está no bom caminho e é preciso preservar. Vamos para o campo e não vemos lixo. Os Açores são ilhas maravilhosas. Tem que ser mantido um turismo de qualidade e com grandeza.  Procura a grandeza? A grandeza pode ser encontrada em coisas pequenas como em coisas grandes. Quando criamos alguma coisa, temos que saber como o fazemos. Os  Açores é um lugar privilegiado.  Estas ilhas são património mundial. Estão a 2h de Lisboa e a 5h dos Estados Unidos. Estão muito bem posicionadas. São ilhas fabulosas!                                         

João Paz/Rita Frias

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Autor: CA

Categorias: Regional

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