3 de setembro de 2019

Espírito Santo Emigrante

Com esta mesma epígrafe, apresentou o Museu Carlos Machado, no Núcleo de Arte Sacra, na Igreja do Colégio, uma interessante e valiosa exposição, que pude visitar poucos dias antes do seu anunciado encerramento.
Trata-se de um conjunto de fotografias e objectos ilustrativos das celebrações do Espírito Santo em diversas Comunidades Açorianas da América. O que nelas se podia observar não é diferente do que por cá vivemos, com grande naturalidade, nessas festas. Mas é nisso que está precisamente o valor da mostra, tornando evidente a capacidade de transportar para um meio tão diferente os usos e costumes que afinal nos identificam.
O enquadramento é tipicamente americano, nos edifícios e no restante meio urbano onde decorrem as festividades. As pessoas vestem-se à moda da América e por toda a parte se vê ondear a bandeira americana, orgulhosamente abrindo os desfiles e na fila da frente das bandas de música. Mas sempre aparece também a bandeira de Portugal e ainda a dos Açores.
Açorianas são sobretudo as tradições ali mantidas, longe das ilhas mas sem delas afinal conseguirem desapegar-se. As mordomias incluem todos os ritos usuais, respeitando as regras do país, naturalmente. Lá estão designadamente os manjares tradicionais partilhados, os desfiles de carros de bois (onde será que os vão buscar?), as decorações do quarto do Senhor Espírito Santo, as crianças com os seus trajes de festa, prontas para a cerimónia da coroação e para a procissão subsequente. Até as varas a enquadrar as coroas e os pequenos coroados, tal como se pratica em algumas das nossas ilhas, mas não em todas, também aparecem, dando logo a entender que se trata de gente originária do Pico ou do Faial.
Destaca na exposição o manto de uma das rainhas da festa, costume inventado, julgo eu, na Califórnia e daí trazido para algumas das nossas ilhas. É uma rica vestimenta, de veludo e seda, aparentemente, debruada com arminho, com cauda a arrastar pelo chão. Comprova que nas festas do Espírito Santo, como em algumas outras matérias, a emigração açoriana tem duplo efeito: leva coisas e valores nossos para fora, mas as nossas ilhas recebem também o influxo daquilo que lá longe se vai adquirindo e adaptando.
Interessei-me em especial por observar as caras das pessoas que apareciam nas fotografias e o seu doar. Eram tipicamente, a maior parte, emigrantes de primeira geração, saídos eles próprios das ilhas, talvez já há algumas décadas, mas com aquela marca ilhoa que nunca nos abandona. Isso sem prejuízo de parecerem bem integrados na sociedade americana, com bons empregos ou iniciativas empresariais bem  sucedidas, algumas delas até visíveis nos retratos, com os seus painéis identificativos, dos quais anotei o Chaves Market de Fall River, onde há muitos anos vi, com alguma surpresa, latas metálicas de bolachas Maria da Moaçor, vendidas em abundância para dar sabor à papa de fruta dos bebés açor-americanos…
Com não podia deixar de ser, as fotografias em exposição mostravam também muitas crianças, porque elas são os reis e rainhas da Festa. E aí é que me interroguei sobre se os mais novos vão conseguir manter e transmitir a devoção do Espírito Santo, com o mesmo vigor com que vemos que hoje se pratica por todas as Comunidades Açorianas pelo Novo Mundo fora. Podíamos estar tranquilos ao lembrar o caso do Havai, que a esse respeito é bem elucidativo da força da identidade açoriana, em especial quando se lembra que os emigrantes açorianos idos no século XIX para as Ilhas Sandwich, como então eram chamadas, nem saberiam ler nem escrever… Mas hoje há novas e diferentes condições e principalmente uma rasoira cultural, que tende a esbater diferenças, pondo em perigo identidades, até mesmo de portas para dentro das nossas ilhas.
A exposição mencionada incluía, em sala ao lado, um conjunto de elementos informativos sobre a emigração açoriana para a América, que de alguma forma enriqueciam a mensagem a transmitir. Lá estavam os navios baleeiros da Nova Inglaterra, que faziam aguada por cá e levavam gente clandestinamente, desde antes ainda da independência das colónias inglesas da Costa Leste. E também dados sobre a emigração legal, que envolveu dezenas de milhares de pessoas ao longo de várias gerações. Pelas contas que pude fazer, quando tinha responsabilidades directas na matéria, deixaram as nossas ilhas em direcção à América, Estados Unidos e Canadá, entre 1950 e 1975, 150 mil pessoas!
Uma exposição sobre temas de tão permanente actualidade bem deveria ser itinerante e correr pela ilha de São Miguel e também pelas outras ilhas, estacionando nos museus ou outras instalações adequadas. As escolas só ganhariam em organizar visitas de estudo para os seus alunos. Desde logo é pena saber que encerrou no final de Agosto, quando o começo do ano lectivo poderia proporcionar muitas visitas organizadas. O esforço feito na montagem da exposição merecia a recompensa de uma grande divulgação junto do público juvenil, que não teria o obstáculo psicológico e físico que tive de enfrentar quando me disseram que era preciso subir uma escada com alguma centena de degraus… Pelo menos foi o que me pareceu e ainda assim cheguei à conclusão de ter valido a pena!


(Por convicção pessoal, o Autor
não respeita o assim chamado
Acordo Ortográfico.)

 

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Categorias: Opinião

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