3 de setembro de 2019

Porto de Santa Iria, espaço de memória colectiva

Depois de alguns anos, fui revisitar o Porto de Santa Iria, um porto piscatório e de recreio, localizado na freguesia da Ribeirinha, concelho da Ribeira Grande, neste momento se encontra desativado.
Este porto encontra-se numa zona de altas falésias, tendo os acessos ao mesmo sido escavados nas referidas rochas, uma obra de grande relevância do inicio do povoamento que como conta Gaspar Frutuoso, mais parecia uma obra dos Romanos. Encontra-se na área de abrangência do IBA da Ponta do Cintrão, sendo dali possível aceder às grutas vulcânicas daquele acidente geológico.
A população da Ribeirinha, por diversas ocasiões tem reivindicado obras no porto de Santa Iria, existindo mesmo uma petição pública para que este assunto seja objeto de apreciação parlamentar e o Governo regional possa levar por diante a revitalização daquele espaço.
Já Gaspar Frutuoso descreveu pormenorizadamente este porto, ao ponto de informar como a Câmara Municipal da Ribeira Grande, numa importante reunião, deliberou construir um acesso ao Porto de Santa Iria: “aos vinte do mês de maio de 1525, sendo juntos na casa do concelho da Vila da Ribeira Grande, o licenciado António de Macedo, corregedor nesta ilha, António Carneiro, Diogo de Sousa, juízos ordinários, e Fernando Anes e Álvaro Orta, vereadores, e Álvaro Gonçalves, procurador do concelho, e João e Abrantes e Álvaro Afonso, procuradores dos misteres, e muitos homens da governança da dita vila, praticando neste caso, antre todos foi acordado de se fazer o caminho deste porto de Santa Eiria, cortando o pico da fajã de cima direito ao dito porto e varadouro dos batéis, para se poder carregar trigo e outras coisas nele, pois não se sofria a descida pela rocha e caminho a pé; logo foi arrematado a um Fernandalvres, o Grande, chamado Gram Pele, dito assim por diferença de outro, do mesmo nome, que tomou partido a ponte da dita vila, ambos moradores na Ribeirinha, em cento e vinte mil réis; mas depois chegou a mais de duzentos mil, porque para se fazer se ajuntou a ribeira do salto com a Ribeirinha e elas juntas levaram a terra ao mar, que os homens iam cavando, com que se abriu um alto pico pelo meio e se fez o caminho de carro que agora tem, obra que parece de Romanos. De princípio se chamava o porto do Macedo, por respeito ao corregedor António Macedo que procurou que se fizesse. Depois se chamou de Santa Eiria”.
Como se sabe, no início do povoamento, não existiam estradas a atravessar esta ilha, pelo que o Porto de Santa Iria desempenhou um importante papel, como local de descarga dos cereais que os moradores da zona sul da ilha iam de barco até à Vila da Ribeira Grande para ali se moer o milho, trigo e centeio, etc nos inúmeros moinhos de água que funcionavam ao longo da vila. Depois, a farinha embarcava no mesmo porto e regressava para consumo dos seushabitantes.
Por outro lado, Santa Iria era o porto de abrigo dos pescadores de Rabo de Peixe, que ali aportavam nas suas aflições, quando o mar estava revolto e não conseguiam chegar com os seus barcos a remos e a vela ao seu porto de destino e era ali que podiam ter abrigo seguro. Aquele porto é um espaço de memória coletiva viva que os homens do mar da Vila de Rabo de Peixe tanto acarinham e guardam como reminiscência imorredoura que passa de pais para filhos.
Por tudo isto, por respeito a uma herança identitária, aquele porto merecia melhor sorte, porque atualmente com a facilidade de transportes e as boas estradas, as atuais gerações não podem imaginar os sacrifícios que eram necessários dos nossos antepassados para obter uma saca de farinha para auto sustendo e sobreviverem nesta ilha, pelo que o Porto de Santa Iria é um marco civilizacional que importa regenerar.
Por outro lado, o Porto de Santa Iria, com as suas águas límpidas de azul-turquesa, emprestam àquele local um potencial extraordinário como zona balnear, num encontro e simbiose esplendorosa com a natureza. Os turistas deleitam-se naquele espaço, apreciando a paisagem invulgar e a sua tranquilidade que já não encontramos no resto da ilha.
Que a petição que foi colocada a circular na internet e que reivindica obras urgentes no porto de Santa Iria, contando já com muitos signatários e endereçada ao Governo Regional, possa constituir um alerta para a dinamização daquele espaço.

Print

Categorias: Opinião

Tags:

Theme picker

Revista Pub açorianissima