3 de setembro de 2019

A Frase, a Geringonça e a Palavra

A frase  “ O PS só não forma governo se não quiser”. Frase do secretário-geral do PCP Jerónimo de Sousa, após a derrota do PS de António Costa nas eleições de 4 de Outubro de 2015.
 O Primeiro-Ministro de Portugal Doutor António Luís dos Santos Costa, não a esquece, tanto assim é que, para as eleições de Outubro de 2019, não poupa nas palavras em elogios aos camaradas comunistas.
Estes é que não apreciaram lá muito os “elogios”, recordados que estão ao que aconteceu aos seus congéneres por essa Europa fora, nomeadamente não esquecem os camaradas franceses do Marchais, após o “cigarro do condenado à morte” seguido do “abraço fraternal” do socialista Mitterrand, que conseguiu o feito de os trazer para a área do poder, dando assim o pontapé de saída para o quase desaparecimento do PCF.
Bem sabemos que o Jerónimo tomou tal decisão, por uma boa causa, pelos reformados, pelas classes trabalhadoras, pelos pequenos e médios empresários etc… mas como deve saber o camarada, as eleições ganham-se ao “centro”, do qual determinada classe social não abdica, a tal que não é de direita nem de esquerda. Deixemos o génio de Orwell enquadrar a “espécie”.
As eleições de Outubro de 2015 são ganhas pela coligação “Portugal à Frente” dos partidos PSD/CDS, não obstante ter governado Portugal de 2011 a 2015 e imposto severas medidas de austeridade e indo além da troika. A tal classe social, atrás referida, apesar de abanada não tinha caído.
Consegue superar em número de deputados eleitos, o Partido Socialista que tinha apostado todos os seus “notáveis” na campanha eleitoral, inclusive o ex-Presidente César dos Açores, que como ninguém, sabia e sabe como se ganham eleições, “ao centro”, ao centro meus senhores. Sim, porque nisso de eleições, e como as ganhar, sabe bem ele.
 Mas, aqui uma pausa, se me é permitido, para um “aviso à navegação”, é que essa “coisa” de pescarem todos ao “centro”, tem os seus perigos, um dia, não é que o peixe acabe, resolve é escolher outras correntes.
Na política as palavras, como as frases, têm muito “peso”. Bastou a palavra “poucochinho” para que o antecessor do Costa, o Seguro, levar sumiço, tinha ganho eleições, mas a margem era pouca. Costa perdendo, governa, respondendo, afirmativamente, ao repto comunista.
 O PS minoritário é poder. Os deputados à “esquerda encostada” do PS, supostamente à “voz de comando” do partido mais antigo de Portugal, o PCP, apoiam-no. Afinal, somados todos os votos e os consequentes deputados “gerados”, a esquerda “unida jamais sairia vencida”. Por momentos, até parece que o “demónio” esconjurado do PREC de 1975, havia regressado. Em Belém o Presidente Cavaco e o primeiro-ministro Passos, entretanto empossado, têm de fazer “passo atrás”. Então ganhamos e não governamos?
Têm a palavra eminentes constitucionalistas, de vários quadrantes e até membros do Conselho de Estado, que lembram que nas eleições legislativas se vota para eleger deputados e não governos.
Em menos de dois meses, Costa forma governo com o apoio das “esquerdas encostadas”. Outra frase, atribuída, tempos depois, à líder do CDS Cristas, que entretanto havia substituído na chefia dos democratas- cristãos o jovem criativo e empreendedor, Paulo Portas, esse sim o autor da famosa palavra “Geringonça”.
 Aqui chegados, podemos sempre afirmar que o camarada metalúrgico e deputado Jerónimo, está para a frase, como o agora comentador e gestor Portas, está para a palavra.
No que vou escrever a seguir, se calhar, a palavra que mais se ajuste seja a ingratidão. Já ouvi e li, comentadores credenciados sublinharem que em política não há gratidão, mas sim ingratidão, e é “normal”. Não concordo. Ou será ingenuidade minha? Se há palavra que prezo ela é a palavra Política, que associo a pensamentos e expressões positivas da vida em sociedade. E, também porque tenho dos políticos a melhor das referências, para aqueles que as merecem, e são muitos, que têm da actividade política uma missão e não um “modo de vida”..
Gostaria que os pensamentos reproduzidos abaixo, de Alexis de Tocqueville, não fossem aplicáveis ao momento político presente, vivido em Portugal e nos Açores:
“Há muitos homens de princípios nos partidos políticos, mas não há nenhum partido de princípios”
“Mais que as ideias, são os interesses que separam as pessoas”.
Vem este desabafo a propósito do que António Costa e alguns dos seus mais fiéis seguidores, têm proferido, neste período de pré-campanha eleitoral, em relação aos partidos da esquerda, nomeadamente ao BE e à sua líder Catarina Martins, apenas porque nalgumas sondagens o BE está a ter uma subida nas intenções de voto. Diga-se que a Catarina tem respondido com serenidade e maturidade. Esta postura da coordenadora do BE tem merecido elogios de vários quadrantes e surpreendido os analistas.
Surpreende que, tanto António Costa como Carlos César, não tenham assumido semelhante atitude, conhecidas que são as respectivas e inegáveis qualidades de sagacidade e habilidade políticas. Como diria um conhecido humorista “não havia necessidade”, até porque as sondagens e as opiniões de insuspeitos jornais como o “Financial Times”, têm tecido rasgados elogios ao António Costa e ao seu governo, da chamada geringonça, só possível porque teve no Parlamento, durante os quatro anos da legislatura o apoio leal tanto do BE, PCP e PEV.
Em política, as frases e as palavras, “valem”, e têm o desígnio de a engrandecer e confirmar ser a mais sublime missão, que alguma vez o ser humano pode almejar. Até lá, boas, salutares e construtivas frases e palavras.
Troca de ideias sim, ingratidão dispensável. Vamos procurar “trocar as voltas” ao Tocqueville.
Sabe-se. Sabemos todos, que os partidos são fundamentais em democracia e que procuram um dia ser poder, para porem em acção as suas ideias. Óptimo. Contudo, por vezes, o cidadão comum apercebe-se que alguns protagonistas, como que se transcendem, deixando de “ser eles próprios”, transformam-se em “seres possessivos”, duma ambição obsessiva pelo poder, onde tudo vale. Dramatizam, traem, vislumbram crises e tempos difíceis, arrogam-se de qualidades sobre humanas e providenciais, ou eles ou o caos.
Como o leitor já deve ter concluído, o perfil atrás traçado “encaixa” mais num ditador ou num candidato a tal e, em Portugal e nos Açores, estamos longe da existência de políticos no activo com aquelas características, pese todas as criticas que se lhes possam ser feitas. Mas… Talvez sim, talvez não. Existem, ocasionalmente “tiques”. Nada que um “calmante” não resolva.

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Categorias: Opinião

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