Propinas leva a que a maior parte dos novos alunos da Universidade dos Açores recorra a apoios sociais

Mais um ano lectivo está perto de começar na Universidade dos Açores, trazendo assim centenas de novos alunos àquela instituição que através dos cursos escolhidos se preparam para, no fim desta jornada, ingressar no mundo do trabalho.
Assim, ontem decorreram no campus de Ponta Delgada as matrículas para os alunos do curso de Relações Públicas e Comunicação, com quem tivemos a oportunidade de conversar, com o objectivo de perceber de que forma o preço das propinas e os apoios sociais que são atribuídos através de bolsas se tornam importantes para que estes possam frequentar o ensino superior.
Apesar de não ter sido a sua primeira opção na hora de escolher o curso a que se dedicaria nos próximos três anos, Joana Sousa, com 19 anos de idade, foi uma das alunas seleccionadas para fazer parte da turma do primeiro ano do curso de Relações Públicas e Comunicação da Universidade dos Açores.
De acordo com a jovem, na sua lista de opções – onde psicologia ocupava o primeiro lugar – apenas existiam cursos leccionados na universidade açoriana, uma vez que não se vê a viver fora da ilha de São Miguel ou fora dos Açores, optando assim por entrar nesta fase da sua vida junto dos pais.
Tendo em conta esta escolha, a jovem estudante não precisou de procurar alojamento em Ponta Delgada e arredores, o que acredita que ajudará a família a suportar as despesas do curso superior que se prepara para iniciar em breve.
Apesar da proposta de lei do Orçamento do Estado para 2019, que incluiu a redução do valor das propinas aplicadas pelas universidades em Portugal, e que a partir deste ano lectivo entra em vigor, Joana Sousa considera que “os valores acabam por ser um pouco altos, e por isso eu vou concorrer à bolsa”.
Por outro lado, salienta que o preço das propinas nunca afectou o seu ingresso numa universidade, afirmando que os pais sempre a incentivaram a continuar os estudos após concluir o secundário, embora reconheça que no caso de outras famílias, este factor “acabe por prejudicar outras pessoas que não têm possibilidades de vir para a universidade”.

“Os benefícios de continuar na casa
dos pais são muitos”

Já no caso de Maria Salvador, com 18 anos de idade, ingressar no ensino superior nunca esteve fora de questão, no entanto, afirma que durante anos se dedicou a poupar grande parte do dinheiro de que agora irá necessitar, o que irá tornar a sua passagem pela universidade mais confortável no que diz respeito às despesas que tendem a acumular-se, salientando ainda que não coloca de parte a ideia de se candidatar à bolsa de estudo atribuída pela Direcção-Geral do Ensino Superior (DGES).
“O valor das propinas nunca colocou em causa a minha entrada na universidade porque tenho vindo a preparar-me para isto há vários anos. Fui poupando dinheiro ao longo dos anos para poder aplicar aqui na universidade”, diz a jovem natural do concelho da Ribeira Grande que, também pela proximidade, irá optar por continuar a viver com a família.
“Os benefícios de continuar na casa dos pais são muitos. Não temos que ser tão independentes como se vivêssemos num alojamento sozinhos, temos sempre o apoio deles para o que poderá surgir e é, sem dúvida, mais cómodo”, conta a estudante, salientando que nunca ponderou a opção de se candidatar a instituições localizadas noutras regiões do país.
Também Sofia Pereira, com 19 anos de idade, afirma sentir-se “mais confortável com a ideia de ficar em São Miguel durante mais alguns anos”, levando assim a que optasse pela Universidade dos Açores como segunda casa durante, pelo menos, os próximos três anos.
“Este curso foi a minha primeira opção. Sentia-me mais confortável com a ideia de ficar cá durante mais alguns anos e como conheço imensas pessoas desta universidade senti que seria bem recebida e que iria ter uma boa vida universitária sem precisar de ultrapassar a dificuldade por que passam outros estudantes que têm que mudar de ilha ou ir para fora”, explica.
Considerando que, também esta jovem, vive relativamente perto do centro de Ponta Delgada, não se justificou a procura de alojamento, nem é este um objectivo que pretende alcançar durante o seu percurso no ensino superior: “Sou de uma freguesia que faz parte do concelho de Ponta Delgada, são apenas 10 minutos de viagem (…), e não faz parte dos meus objectivos viver mais perto da universidade, acho que estou num bom sítio, e os meus pais agradecem”.
No que diz respeito aos valores praticados nas propinas, Sofia Pereira considera que, “infelizmente, nem todos podem fazer o esforço para as pagar e é para isso que existem os apoios que existem. Mas considero que é um preço suportável, até porque há diversas formas de pagamento”, diz.
Face a este “esforço”, a jovem estudante adianta que “não entrar na universidade nunca foi uma hipótese nem na cabeça dos meus pais nem na minha, por isso as propinas era algo com que se contava. No entanto vou concorrer a bolsa porque se a conseguir é sempre uma ajuda”, adianta.
Apesar do “conflito de ideias” que tinha inicialmente, Hugo Barbosa, com 18 anos de idade, optou por colocar em primeiro lugar o curso de Relações Públicas e Comunicação, onde acabou por ficar colocado.
Ao longo dos anos, conta o jovem, sempre se sentiu incentivado pela família para prosseguir estudos após concluir o ensino secundário, família com quem ainda hoje vive, a 10 minutos a pé da universidade, excluindo por isso a necessidade de procurar um alojamento até ao término dos semestres.
No que às propinas diz respeito, Hugo Barbosa acredita que “os valores poderiam ser mais baratos”, salientando que uma das condições para que possa permanecer no ensino superior será a de ter acesso à bolsa de estudo atribuída pela DGES e/ou pelo prémio a que se candidatou no valor de 500 euros: “Porque se não fosse isso acredito que o meu pai não conseguisse pagar o meu curso”, refere.

Apesar dos valores mais baixos,
continua a ser difícil pagar propinas para algumas famílias

Também Kenya Pavão vai integrar a turma de Relações Públicas e Comunicação, porém, apesar de considerar que “os preços das propinas são um bocadinho elevados para quem tem dificuldades económicas, estão um pouco mais razoáveis”, tendo em conta a diminuição de preços agora aplicada, afirmando que não irá recorrer à bolsa atribuída pela DGES.
A jovem, natural do Pilar da Bretanha, irá também continuar a viver em casa dos pais, uma vez que lhe é fácil movimentar-se entre aquela freguesia e o centro de Ponta Delgada, preparando-se assim para se dedicar a um curso superior que, embora não traduza o seu desejo inicial de estudar em Coimbra, lhe irá permitir “aprender bastante”.
Ana Torres, com 19 anos de idade, salienta que se irá candidatar à bolsa atribuída pela Direcção-Geral do Ensino Superior, uma vez que apesar de “achar o valor das propinas mais ajustado, e mesmo apesar de ter baixado, continua a não ser assim tão fácil (…), embora nunca tenha ficado em causa eu deixar de vir para a universidade por causa disso”, conta.
De momento, apesar do seu desejo de viver mais perto da universidade, a jovem irá permanecer com a família com quem vive, no concelho da Ribeira Grande, uma vez que o transporte entre as duas localidades é facilitado.

Alunos de Erasmus com dificuldades
em encontrar alojamento fora da
residência universitária

Neste dia de matrículas estava também presente no campus Pedro Gonzáles Mantilla, com 32 anos de idade, um aluno de doutoramento proveniente da Universidade de las Palmas de Gran Canaria, que se encontra actualmente na ilha de São Miguel para fazer pesquisa sobre o mergulho com tubarões nas ilhas da Macaronésia.
Enquanto faz o trabalho de campo de que necessita, irá passar três meses em São Miguel, onde há boas referências desta actividade, salienta. Inicialmente o plano passava por permanecer na residência universitária, no entanto não conseguiu a vaga necessária, obrigando-se por isso a encontrar uma alternativa num alojamento em Ponta Delgada.
“De qualquer das formas, estou numa fase diferente, num doutoramento, por isso até agradeço um pouco mais de tranquilidade e também de privacidade. Consegui através de uma menina que esteve aqui a fazer Erasmus, que me passou o contacto de uma amiga que tinha outra amiga, e assim consegui um quarto numa casa partilhada, e a verdade é que corre tudo muito bem até agora”, explica.
Porém, apesar de considerar que paga um montante razoável pelo espaço que alugou, conhece “um grupo de pessoas que ainda estão por chegar a São Miguel para fazer Erasmus, e que tem tido muitos problemas para conseguir alugar um quarto. Está tudo muito caro e não há muita oferta”, refere.
Quanto ao pagamento de propinas, Pedro Gonzáles Mantilla salienta que o contrato pré-doutoral das Canárias, financiado em parte pela União Europeia e a bolsa concedida pela universidade em que estuda para o programa Erasmus são o financiamento que sustentam esta sua estadia nos Açores.

 

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