Opinião de Paulo Enes da Silveira - membro da SKI Portugal

40 anos de Artes Marciais nos Açores: Tudo começou com espírito Soshinkai

A 10 de Setembro de 2019 aconteceu a primeira sessão de ensino e prática de Artes Marciais nos Açores, com a abertura da Academia Soshinkai de Artes Marciais de Ponta Delgada, iniciando-se assim a prática de Karate, VietVoDao, Aikido e Kobudo.
Neste 40.º aniversário, o signatário, então responsável pelo início do ensino e da prática de Artes Marciais que ministrou nesta Academia Soshinkai, assinala a efeméride nestas páginas do Correio dos Açores. Não há o intuito de tratar a história destes 40 anos, mas o de lembrar o contexto do começo desta prática e de transmitir a mensagem do verdadeiro espírito Soshinkai que muito contribui para a formação equilibrada do ser humano, em particular, dos jovens e das crianças. Na primeira parte, torna-se público um documento em dez pontos, de estudo essencial, escrito pelo autor, para a compreensão deste “espírito Soshinkai”; na segunda parte, o autor presta um tributo aos praticantes e eternos alunos das Artes Marciais e por último lança uma conclusão-apelo.

 

Parte I - Ter “espírito Soshinkai”
1. Ao receber o convite do Shihan Mário Águas – 8ºDan, presidente da SKI Portugal, Shotokan Karate International (Fig. 1) e vice-presidente da Yudansha para a Europa – para dar um contributo escrito na data da celebração dos 50 anos da Soshinkai, a Academia Soshinkai (1966) continuada pela Federação Soshinkai de Artes Marciais (1975), foi com enorme satisfação que, nesse contexto, aceitei esta responsável e subida incumbência.
Logo se fez luz sobre o tema que desejava abordar: O que é ter “espírito Soshinkai”? Resolvi, então, esclarecer esta questão, não de uma forma teórica e porventura saudosista, mas de uma forma pragmática que permita aos actuais praticantes de Artes Marciais, em particular, do Karate, assimilá-lo de forma a cultivarem os caminhos que perpetuem, através da sua acção, esse mesmo espírito Soshinkai.

2. Há um local que tem servido de veículo de difusão do espírito Soshinkai, a que importa dar o devido relevo e referenciação: O Dojo da Academia Soshinkai, a Academia-mãe (Hombu dojo), sita na Rua Pinto Bessa, no Porto.
Tive a felicidade de verdadeiramente iniciar a minha prática de Artes Marciais neste mítico Dojo, sobre a orientação do então Sensei Mário Águas, hoje nosso Shihan, e de alguns dos seus alunos instrutores.
A Academia-mãe Soshinkai permitiu-nos assimilar experiências e conhecimentos dos vários Mestres que por lá passaram, proporcionando a prática do Karate, VietVoDao, Aikido e Kobudo (Fig. 2 e 3). Sabemos que o Mestre TranHuu-Ha foi quem marcou indubitavelmente o primeiro ciclo da Academia Soshinkai, pois com ele pudemos aceder à prática do VeitVoDao e do Karate, até 1979.
É neste contexto que se foi construindo o espírito Soshinkai, através dos Dojos da Academia-mãe e das Academias-filhas que se criaram pelo País, sob a orientação dos praticantes mais avançados e do nosso mentor e director técnico, então Sensei Mário Águas.

3.Identificado o contexto do surgimento do espírito Soshinkai, vamos agora evidenciar quais as suas características.
Partindo do princípio de que a melhor maneira de se saber uma coisa é conhecê-la –de tal forma que se seja capaz de ensinar a outrem o conhecimento dessa mesma coisa–proponho-me partilhar convosco como fui capaz de transmitir este espírito Soshinkai que assimilei na Academia-mãe no decorrer da década de 70, na Academia Soshinkai de Ponta Delgada, a qual tive a oportunidade de fundar na cidade de Ponta Delgada, na Ilha de São Miguel (a minha terra natal), a 10 de Setembro de 1979, dando assim início ao ensino das Artes Marciais – com mais incidência no Karate e no VietVoDao– no Arquipélago dos Açores, onde anteriormente apenas se praticava o Judo.

4.Os primeiros treinos são importantes para transmitir a parte técnica e a disciplina física e mental necessária para se evoluir. Todavia e em paralelo é importante, desde o início, que a prática do Karate, bem como de outras Artes Marciais, seja feita com cortesia e respeito para com os Mestres, para com os Instrutores e para com os Companheiros de treino.
Vamos a exemplos concretos desta simbiose do treino técnico, da cortesia e do respeito. O Dojo (espaço de treino) tem o seu Tatemi (tapete, a área destinada ao treino). Mesmo que o Dojo decorra num ginásio ou num pavilhão desportivo, a área destinada ao treino deve ser considerada como um espaço especial, no qual se deve cultivar o silêncio, o respeito pelos Mestres presentes e pelos Mestres que, no passado, nos legaram sucessivamente a sua experiência e o seu saber, aquele que hoje nos é transmitido. O facto de alinharmos rápida e disciplinadamente para o início do treino é, já em si, uma prova desse respeito pelo Mestre ou Instrutor responsável e pelos nossos companheiros. Durante o treino, a cortesia para com os outros praticantes e o respeito pela sua integridade física são fundamentais.
Estas condições são essenciais para que a prática dos aspectos técnicos seja feita nas
melhores condições, seguindo não apenas um caminho de humildade e de paciência, mas também de persistência e dedicação, a fim de que a superação das dificuldades seja conseguida, passo a passo, seja nas técnicas de postura de base, de defesa, de ataque ou na combinação de todas elas.
A prática destes princípios no Tatemi deve ser extensiva à nossa postura diária na vida, sendo esta a conduta exemplar de um verdadeiro Karateca (ou, em geral, de um praticante de Artes Marciais).
Foi imbuída deste espírito Soshinkai que a Academia Soshinkai de Ponta Delgada iniciou a sua actividade, reunindo no primeiro ano cerca de meia centena de praticantes.

5. É parte integrante deste espírito Soshinkai um conjunto de actividades, para além dos regulares treinos semanais, em algumas das quais me habituei a participar durante a minha prática na Academia-mãe (Porto). Assim, na Academia de Ponta Delgada, desde o primeiro ano, desenvolvemos as seguintes actividades:
- Encontros ao fim de semana para correr e treinar ao ar livre;
- Sarau-convívio dedicado aos praticantes, aos seus familiares e amigos, com treino de conjunto, demonstrações e convívio (Fig.4e 5);
- Projecção de filmes de temática Artes Marciais, seguida de debate;
- Conversas sobre Artes Marciais, Saúde e Boa Alimentação;
- Acampamento de treinos (fim de semana nas lagoas das Sete Cidades) (Fig. 6 e 7).
Estas actividades permitem, como é por demais evidente, criar um ambiente colectivo de camaradagem salutar, como uma família que partilha o acesso ao conhecimento e o contacto com a Natureza, proporcionando uma melhor evolução técnica e mental, desejável na prática do Karate e de outras Artes Marciais.

6. A prática do Karate é possível em todas as idades? Diria que ela é salutar e adaptável a todas as idades. No entanto, dada a estrutura de desenvolvimento das crianças, não será aconselhável a prática colectiva do Karate a crianças com menos de 6 a 7 anos. Da experiência da Academia de Ponta Delgada, durante o primeiro ano, reunimos praticantes de idades muito distintas, com pais, filhos e irmãos a treinar em conjunto. Neste contexto, é fundamental o instrutor ter uma pedagogia adequada, de modo a que os treinos possam ser eficazes, mas adequados às idades presentes.
Lembro-me, em concreto, de um caso de dois praticantes: um pai e um filho, ainda criança, que sofria de um certo tipo de asma. A prática continuada nos treinos, especificamente orientados, neste caso, fizeram com que a asma fosse desaparecendo ao longo do tempo. O enquadramento reconfortante do pai, enquanto praticante, e o entusiasmo manifestado pelo filho, particularmente orientado nos treinos, foi a chave para este sucesso.
É entre os 7 e os 11 anos que as crianças começam a raciocinar abstractamente e é nesta idade que o pensamento infantil começa a ser lógico e faz a conquista do espaço e do tempo. Em particular, as crianças têm tendência a copiar fielmente o seu professor (Fig. 8).
Podemos constatar testemunhos de crianças praticantes, publicados na revista SOSHINKAI da Federação Soshinkai de Artes Marciais (1978/79 – uma importante publicação então dedicada aos praticantes da Soshinkai).
Um praticante de 9 anos escreve: “A mentalidade do Karate é: combater a agressividade, ajudar os mais fracos e não criticar os outros. Ser disciplinados tanto no Dojo como no exterior. Ter a noção da modéstia, de modo a nunca nos considerarmos os melhores, agradecendo todos os ensinamentos que nos sejam dados, revela também perfeita mentalidade do Karateca. Eu pratico Karate para conseguir estas qualidades”.
Uma praticante com dez anos, fez um desenho onde apresenta cinco praticantes de VietVoDao e de Karate nas mais variadas posturas, realizando várias técnicas com as mãos e os pés, revelando uma extraordinária capacidade de observação e de reprodução, tendo inserido a legenda “O verdadeiro Karateca só tem medo de si próprio”.
Transmitir o espírito Soshinkai às crianças e jovens praticantes de Karate é uma responsabilidade fundamental do instrutor.

7. Ao fazer o balanço do primeiro ano da Academia Soshinkai de Ponta Delgada, o autor da presente reflexão, escreveu no jornal “Açoriano Oriental” de 10 de Outubro de 1980:
 “… ser sério em Karate, implica ser sério na vida e ter um comportamento digno no tapete (Tatemi) implica ter dignidade na vida.” … “a prática do Karate permite desenvolver no ser humano todas as potencialidades de que é portador e que permanecem esquecidas, senão por vezes ignoradas, e visa o desenvolvimento harmonioso do físico e da mente, tornando possível um maior conhecimento interior e da realidade.” (Fig. 9 e 10) “Qualquer homem pode não só apreender os conhecimentos existentes, como igualmente chegar a conhecimentos novos” … “conhecer é um processo” … “O Karate não convida a assumir um papel passivo através de uma transferência e aceitação mecânica de conhecimentos técnicos e filosóficos, antes convida a reflectir na verdadeira possibilidade de criação de conhecimentos, o que é fonte de progresso. Assim o Karate constitui um incentivo ao poder de reflectir.”
Passados cerca de quarenta anos sobre estas afirmações, observa-se que o Karate evolui, com novos conhecimentos e práticas, mas o espírito Soshinkai permanece e deve ser passado de geração em geração, como um precioso e valoroso testemunho.

8. Após os anos 80, começou um novo ciclo da FSAM - Federação Soshinkai de Artes Marciais, com o Mestre Hirokazu Kanazawa, hoje Soke Kanazawa (10º Dan, SKIF- Shotokan Karatedo International Federation), tendo sido criada a SKKP-Shotokan Kokusai Karate Do Portugal (1988) e posteriormente a FPKS - Federação Portuguesa de Karate Shotokan (2002), hoje “depositária e herdeira de todo o património da Soshinkai”, sobre a presidência de Shihan Mário Águas.
Sobre estes dois ciclos da Soshinkai, antes e depois dos anos 80, destaco aqui uma significativa publicação de Shihan Mário Águas, comentando duas fotografias com posturas idênticas: “Ao fim de mais de 50 anos de prática de Karate, consegui juntar os dois Mestres que tive até hoje: TranHuuHa e HirokazuKanazawa. Tanto quanto sei, nunca se conheceram. No entanto, permito-me afirmar que, no que respeita ao entendimento do Karate, os conceitos fundamentais que me transmitiram são praticamente coincidentes.”
Melhor testemunho não poderíamos desejar para se poder constatar e afirmar que o espírito Soshinkai permanece, ao longo do tempo, mas necessita que os responsáveis da FPKS e dos seus Dojos deem, permanentemente, continuidade a esta missão.

9. Estas reflexões não são conclusivas, são antes contributos para que entendamos o espírito Soshinkai, o qual devemos continuar a preservar e a transmitir, na prática do Karate ou outras Artes Marciais. Deixo algumas palavras-chave que abordei nos pontos anteriores, às quais podeis juntar outras, nas vossas reflexões sobre este tema: Academia-mãe Soshinkai; disciplina; cortesia; respeito; dojo; tatemi; mestre; praticante; técnica; mente; treino; família; conhecimento; agradecimento.

10. Por último, não podia fechar este meu escrito, sem deixar um profundo agradecimento a todos os que contribuíram para o meu enriquecimento na vida, através do Karate e outras Artes Marciais -os meus Mestres, os meus Companheiros e os meus Alunos, com especial ênfase para os da Academia Shoshinkai de Artes Marciais de Ponta Delgada. Por uma questão de espaço, apenas nomeio os Mestres com quem mais aprendi – Mário Águas, Tran-Huu-Ha e Hirokazu Kanazawa – bem como outros de quem recebi importante legado: Armand, Toshihiko Tsutsimi, Murakami, Koga, Muira, Kawasoe, Nagai e Wong Kiew Kit (de quem recebi ensinamentos de Chi Kung).
À guisa de finalização, deixo apenas formulados os meus votos de que possa haver cada vez mais praticantes imbuídos do espírito Soshinkai! OOS!    
                (Continua na próxima edição)

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Autor: CA

Categorias: Opinião

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