Contas da transportadora aérea açoriana e o seu papel na mobilidade dos açorianos com visões partidárias diferentes no parlamento

Paulo Estevão, deputado do PPM/Açores, interpelou o Governo regional sobre a SATA. A interpelação foi feita ontem na Assembleia Legislativa Regional dos Açores.
Paulo Estevão disse temer um “novo desastre nas contas do segundo trimestre” da transportadora aérea SATA, com o Governo Regional a responder que há trabalho diário rumo a um “percurso de estabilização da empresa e da sua operação”.
Em interpelação do PPM na Assembleia Legislativa dos Açores, o parlamentar monárquico Paulo Estêvão lembrou que o grupo SATA “somou, entre 2014 e o primeiro trimestre de 2019, mais de 200 milhões de euros de prejuízos”, um “desastre de enorme dimensão”.
Para o deputado, o problema da gestão da empresa reside “no controlo e na tutela que o PS exerce” sobre a mesma, pelo que é necessária uma “solução política” que passa “pela urgente remoção do PS/Açores” do poder na região.
Na resposta ao deputado do PPM, a secretária regional com a tutela dos Transportes, Ana Cunha, assumiu o compromisso de “dotar o Grupo SATA dos instrumentos necessários ao cumprimento do seu objecto social de servir cada vez mais e melhor os Açorianos”, salientando este tem sido “um dos grandes desafios desta legislatura”.
Ana Cunha assegurou que o Governo dos Açores e a SATA trabalham diariamente para “conseguir um percurso de estabilização da empresa e da sua operação, perante adversidades de várias origens e natureza”.
Nesse trabalho, frisou Ana Cunha, “a SATA conta com a enorme mais valia que são os seus colaboradores, que, em terra e no ar, continuam, com empenho, dedicação e, muitas vezes, com o seu voluntarismo, a dar o seu melhor a favor da nossa companhia aérea”, acrescentando que “o que é importante é que a SATA continua a voar para os Açorianos”.
 Na sua intervenção em plenário, a titular da pasta dos Transportes revelou que, de janeiro a agosto deste ano, foram realizados pela SATA Air Açores mais 376 voos do que em período homólogo do ano passado, foram oferecidos pela SATA Air Açores mais 132.340 lugares e utilizados mais de 28.900, adiantando ainda que, no que se refere à SATA Internacional, no mesmo período, foram efetuados mais 12 voos no total.
“Não menosprezemos a SATA. Não sejamos indiferentes ao seu serviço a favor da Região. Não desconsideremos, nem sejamos indiferentes, noutro nível, aos constrangimentos que afetam a acessibilidade de todos os Açorianos”, apelou a Secretária Regional.
“Preocupam-nos, sobremaneira, as dificuldades sentidas pelos residentes açorianos para sair das suas ilhas, quer seja nos voos interilhas, quer seja nos voos de ligação ao continente, em que a oferta de cinco ‘gateways’ e a operação de várias companhias aéreas em duas delas por vezes parecem insuficientes. Preocupam-nos e ditam a nossa ação”, afirmou Ana Cunha.
A Secretária Regional recordou, a propósito, que o transporte aéreo “sofreu uma revolução nos últimos anos, em particular e com caraterísticas muito próprias nos Açores, com um crescimento sem precedentes da procura e uma nova realidade de fluxos de tráfego”.
“Para além da aposta na realização de investimentos estruturantes nas infraestruturas aeroportuárias por parte do Governo dos Açores, a nossa transportadora é forçada a adaptar-se e é esta a realidade, é este o desafio e é esta a visão que temos para o Grupo SATA, com todas as particularidades que tornam esta companhia única no mundo na actualidade: uma companhia pequena, regional, com frota reduzida, com uma dependência extrema de serviços externos, mas com os melhores clientes do mundo, os Açorianos”, afirmou.
 Na adequação a esta nova realidade, Ana Cunha destacou, “pela importância que reveste, o início do processo de revisão das obrigações de serviço público interilhas, que sustentam o contrato de concessão dos serviços de transporte regular de passageiros no interior da Região, em vigor até outubro do próximo ano, e que se pretende que traga mais capacidade, mais disponibilidade aos Açorianos de todas as ilhas”.
Para Ana Cunha, é importante ter em conta o facto de que “a SATA Air Açores tem seis aeronaves e a Internacional (Azores Airlines) tem outras seis”, salientando que “em agosto de cada ano há cerca de cinco vezes mais passageiros transportados do que em janeiro”.

Governo “culpa sempre terceiros”
 por 220 milhões de prejuízos

O deputado do PSD/Açores António Vasco Viveiros afirmou que o Governo Regional socialista “culpa sempre terceiros” e recusa responsabilidades pelos 220 milhões de prejuízos que a SATA sofreu nos últimos dez anos.
 “Com estes resultados negativos, brutais para a nossa pequena dimensão populacional e chocantes para os problemas da nossa Região, perder tanto dinheiro por incompetência e ineficácia é seguramente motivo para que neste Parlamento se debata repetidamente o tema. É que este Governo socialista apenas reage aos acontecimentos, vitimizando-se perante os insucessos, e, com hipocrisia, culpando sempre terceiros”, disse o social-democrata, na Assembleia Legislativa dos Açores.
O parlamentar, que falava durante a  interpelação ao executivo sobre a situação financeira da SATA, salientou que a situação da companhia aérea regional “é, desde há muitos anos, motivo de preocupação crescente e generalizada” para os açorianos.
 “A situação é preocupante pelos prejuízos que, só na atual legislatura e até ao final do primeiro trimestre de 2019, ultrapassam os 130 milhões e que, desde 2008, totalizam 220 milhões de euros. A situação é preocupante pelos prejuízos do primeiro trimestre de 2019, que ultrapassam os 23 milhões, desmentido as previsões do conselho de administração da SATA e subscritas pelo Governo”, frisou.
António Vasco Viveiros acrescentou que a situação da SATA é igualmente preocupante “por questões operacionais, sendo que a época alta, que ainda decorre, foi mais uma vez, um absoluto fracasso”.
 “Esta época alta tem sido marcada por inúmeros cancelamentos, adiamentos, alterações de horários e falta de entrega de bagagem, comprometendo a mobilidade inter-ilhas e dos Açores com o exterior, manchando o nome da nossa Região”, sublinhou.
O Bloco de Esquerda, por seu lado, acusa o Governo Regional de tudo fazer para criar uma imagem pública negativa da SATA para arranjar um falso motivo para a sua privatização. “Não é a SATA que apresenta contas negativas, são antes os Governos Regional e da República que têm uma dívida cada vez maior para com a Autonomia” por não compensarem devidamente o importante serviço público prestado pela SATA, explicou o deputado Paulo Mendes.

BE defende capitalização pública

Por isso mesmo, o BE defende a capitalização pública da SATA para salvar a companhia aérea regional e garantir o direito à mobilidade de todos os açorianos.
Paulo Mendes considera que é uma ilusão achar que “a entrada de capital privado e a consequente gestão privada operará milagres e salvaguardará o direito à mobilidade tão essencial numa região tão condicionada geograficamente”.
“Desenganem-se os mais ingénuos: qualquer futuro parceiro privado não terá qualquer dúvida sobre a opção a tomar, se o que estiver em causa for a obtenção de mais lucro ou a consecução do interesse público. Escolherá o lucro, como é óbvio”, salienta.
“Continuamos a defender a recapitalização da SATA, a negociação de um verdadeiro plano de reestruturação da dívida com a banca, a atribuição de uma gestão competente à empresa e a elaboração de um plano estratégico que priorize o direito à mobilidade dos açorianos”, sintetizou o deputado do Bloco de Esquerda.
Paulo Mendes recorda ainda que o plano estratégico que a administração da SATA prometeu apresentar até maio ainda não é conhecido, e levantou algumas preocupações sobre os impactos que esta plano terá, nomeadamente sobre a possibilidade de haver despedimentos.

 

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Autor: CA

Categorias: Regional

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Revista Pub açorianissima