Dupla de mergulhadores açorianos representa Portugal em campeonato mundial

Entre 17 e 22 de Setembro, Tenerife será o local escolhido para o desenrolar do Campeonato Mundial de Vídeo Subaquático, onde Portugal estará representado na modalidade de vídeo por dois açorianos rendidos por completo a esta actividade subaquática que os coloca em sintonia com o mar e com as espécies que nele habitam.
Assim sendo, Gui Costa e Paulo Correia irão partir rumo às águas cristalinas de Tenerife, onde irão colocar à prova os conhecimentos que adquiriram durante os vários anos em que mergulham juntos, Gui Costa na modalidade de vídeo e Paulo Correia na fotografia, tendo para isso dois mergulhos preparatórios e quatro mergulhos de competição à sua espera, onde devem ser respeitadas várias regras.
Apesar de partirem sem terem criado demasiadas expectativas, uma vez que se irão reunir com profissionais que têm experiências de mergulho de outros locais do mundo onde as exigências poderão ser diferentes, a realidade é que os vídeos submetidos à competição nacional por Gui Costa foram considerados os melhores, tendo sido por isso sagrado campeão nacional de vídeo subaquático.
“No ano passado houve a possibilidade de enviarmos vídeos para o Campeonato Nacional de Vídeo Subaquático, os meus vídeos venceram e por isso fui considerado o campeão nacional de vídeo com o direito automático de representar o país em todos os eventos desta natureza, sendo o primeiro desses eventos o campeonato do mundo a que vamos este mês”, explica Gui Costa, afirmando ainda que a escolha do parceiro de mergulho foi muito fácil “devido ao entendimento que temos debaixo de água”.
Mesmo não existindo uma relação directa entre a palavra “Açores” e a participação neste evento à escala mundial, uma vez que a equipa que estará a representar o país teve dificuldades em alcançar patrocínios para a viagem e que “não há um equipamento ou uma publicidade da Região para apresentar neste evento”, esta é uma oportunidade para “trocar experiências, conversar e mostrar o nosso trabalho a outras pessoas e equipas de outras localidades”, salienta Paulo Correia.
É neste contexto que, explica a dupla, será preciso ponderar a criação de uma associação dedicada ao mergulho nos Açores, que ao não existir coloca os entusiastas das modalidades associadas ao mergulho subaquático em posições difíceis, uma vez que isso torna as candidaturas a apoios em processos muito complexos e demorados por não serem actividades devidamente reconhecidas, obrigando por isso à angariação de patrocinadores como o Clube Naval de Vila Franca do Campo, a Câmara Municipal de Vila Franca do Campo, a Junta de Freguesia de São Pedro e a empresa Season Challenge.

Reservas de São Miguel marcadas
pela ausência de peixe

Das experiências de mergulho que guardam dos Açores confirmam, no entanto, a existência de sérios problemas no que diz respeito à quantidade de peixe que existe nas reservas naturais sobretudo da ilha de São Miguel, salientando que estas se encontram “limpas de peixe”.
“Em São Miguel, uma das coisas que vamos vendo nos sítios em que mergulhamos, que são sítios onde se pratica também a pesca, é que a ilha de São Miguel está completamente limpa de peixe, mesmo nas reservas naturais. O Ilhéu de Vila Franca do Campo, por exemplo, é considerado uma reserva natural mas em termos subaquáticos não se vê isso, a realidade é que com o passar dos anos vemos o peixe a desaparecer”, explicam.
Neste sentido, Gui Costa constata que estes problemas existem devido à generalizada falta de fiscalização destas reservas, uma vez que pelas características que o ilhéu possui, “não há reserva mais fácil de fiscalizar e de proteger do que o ilhéu porque é visível de terra e é fácil ver se há ali algum barco de pesca ou não, mas a realidade é que ao fazermos mergulho no ilhéu vemos que não há peixe”.
Uma realidade que, de acordo com Paulo Correia, dispensa a realização de demasiados estudos, uma vez que para quem pratica mergulho regularmente em São Miguel nos últimos cinco ou dez anos é fácil chegar a esta conclusão.
A importância da fiscalização e da
criação de mais reservas em São Miguel

Reforçam, por isso, a ideia de que São Miguel deveria aplicar os mesmos esforços que existem noutras ilhas do arquipélago, que por serem mais pequenas possuem também uma comunidade piscatória mais pequena, no sentido de sensibilizar essa mesma comunidade para a importância de reservas.
“Na Graciosa e em Santa Maria criaram reservas que são absolutamente extraordinárias. Santa Maria recuperou muito nos últimos dez anos e a Graciosa, nos sítios que são reserva, é absolutamente formidável neste aspecto”, indica Gui Costa.
Assim, de acordo com Paulo Correia, “estas reservas funcionam porque existe uma colaboração entre os pescadores, não pela fiscalização que não existe, mas sim porque foi explicado à comunidade piscatória que é realmente benéfico para todos que haja a reserva. (…) Já em São Miguel há muito egoísmo e ganância e há falta de vontade política para confrontar a comunidade piscatória e impor algumas regras”.
As reservas em causa, indicam os dois açorianos seleccionados para participar no Campeonato do Mundo de Vídeo Subaquático, permitiriam que os peixes estivessem protegidos “numa espécie de ninho” até extravasarem os limites, sujeitando assim as espécies a uma pesca mais sustentável e mantendo assim o equilíbrio dos ecossistemas.

O problema das redes de pesca colocadas
ao longo da costa

No entanto, outro problema que existe em São Miguel e que envolve igualmente a comunidade piscatória, tem a ver com a colocação de redes de pesca junto à costa que podem chegar a ter mais de cinco quilómetros de extensão, como acontece com a rede que existe desde a Praia da Vinha d’Areia até ao Farol da Ponta Garça.
Estas redes, adiantam os mergulhadores, estão alegadamente destinadas à apanha de isco para que se consiga pescar espécies maiores, no entanto “uma rede de pesca que tem dimensão para apanhar chicharro com certeza que apanha todos os outros espécimes pequenos que dali se aproximem”, adiantam, o que “para além de funcionar como uma barreira, prejudica também a renovação das espécies”.
Por outro lado, um dos casos com maior sucesso no que diz respeito às reservas açorianas onde é também permitido o mergulho – uma vez que é uma actividade limpa e que nada retira do meio subaquático – é o caso dos Ilhéus das Formigas, considerado como “um dos melhores sítios da Europa para fazer mergulho, por ser uma reserva efectiva onde há peixe e que melhora a cada ano que passa desde que foram lá montadas câmaras de vigilância”, diz Gui Costa.


“O peixe tem muito mais valor
quando está vivo”

Nos Açores, com o passar dos anos e também com o aumento do turismo, o mergulho acaba também por ser uma actividade cada vez mais procurada por aqueles que visitam os Açores, tornando-se por conseguinte numa actividade geradora de riqueza na Região.
Por esse motivo, a dupla de açorianos que irão em breve para Tenerife defende que “o peixe tem muito mais valor quando está vivo” do que depois de dar entrada na lota, uma vez que “há quem pague mais de 100 euros para estar com um Mero durante cinco minutos, e aquele Mero se for apanhado irá deixar na lota perto de 20 euros. Em vida um Mero pode render milhares de euros ao ser visitado por muitas pessoas, isto considerando que um peixe destes pode viver durante 20 ou 25 anos”.
Por esse motivo, Gui Costa salienta que “as reservas para mergulho são benéficas para todos, para quem mergulha e para os peixes que lá se criam e que depois saem de lá e podem ser apanhados pelos pescadores”, conclui.

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