Ele fugiu para a América num trem de aterragem e foi devolvido à ilha

Naquele dia, Carlos Hilário encontrou-se com um dos melhores amigos, que morava junto ao campo de basebol dos americanos, na Base das Lajes. Tinha havido um sarilho lá em casa. Acusaram-no de algo que ele não tinha feito. Tomou uma decisão: Fugir para América, no trem de aterragem de um avião militar.
Carlos Hilário tinha 13 anos. Natural da Graciosa, a mãe morreu quando ele tinha ainda três anos. Foi criado por uma tia. Quando a prima e o marido, carpinteiro, tomaram a decisão de se mudarem para a Terceira- ela trabalhou como empregada doméstica, ele, na construção de casas para os americanos- levaram-no com eles.
“Aquilo era a minha América”, recorda Carlos Hilário, hoje com 72 anos. “A Base, praticamente, tinha tudo. Para nós, ali não faltava nada”, conta.
Carlos Hilário ficou a viver no chamado bairro da lata. Nenhuma vedação separava a base militar onde estavam estacionadas as forças norte-americanas do mundo exterior. Os rapazes do bairro entravam e saiam, conforme lhes apetecia. “Algum dizia: Vamos para a América? E lá íamos nós”.
O “tudo” que a base tinha eram os perus, quase só com as pernas e o peito comidos, que chegavam às casas do bairro e, “bem desfiadinhos”, davam várias refeições. Eram também as “donetes” que, em vez de acabarem no lixo, no final dos turnos, iam num saco na mão de Carlos Hilário e dos outros miúdos do grupo. E havia os hambúrgueres, os outros doces e até as caixinhas com comida que a “canalha” do bairro tinha a lata de roubar do interior dos aviões militares, quando estes ficavam, abertos, na pista transversal, à espera da equipa de limpeza. Os rapazes corriam pelos cerrados, a boca cheia de riso e de “candins”.
A prima trabalhava em casa de dois americanos. Trazia restos de comida e outras coisas que pedia lá dentro para lhe comprarem. “Os americanos davam muita coisa. Se sabiam que a família tinha um filho, então, até entregavam roupas”, recorda.
O bairro era feito de casas forradas com o “papel de alcatrão” que usavam os americanos e que não deixava a chuva entrar. Tinham água e luz, fornecida pela base. Juntava-se ali gente de quase todas as ilhas, que chegava à Terceira guiada pela promessa de uma vida melhor do que um trabalho duro e os pés descalços.
Carlos Hilário, que contou a sua história no programa “Grande Entrevista”, da RDP Açores, conduzido pelo jornalista Armando Mendes, é claro ao dizer que as pessoas do bairro tinham “uma vantagem” sobre quem estava “lá fora”, sem ligação à Base das Lajes.
A base era a América. Nela, a abundância era tanta que chegava ao bairro. Quando a prima e o marido regressaram à Graciosa, Carlos Hilário ficou uns tempos na casa do padrinho, onde trabalhava a tia que o criara. Ia à escola, no Alto das Covas. À tarde, ajudava a madrinha na loja. Um dia, rebentou a discussão. O espírito rebelde não ajudou e Carlos Hilário tomou uma decisão. O amigo deu-lhe um casacão e dois pães-de-leite. Ele dirigiu-se para a pista.

A construção de um sonho
O sociólogo e investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, José Manuel Mendes, produziu, em 1991, quando ainda estava na Universidade dos Açores, um estudo sobre o sonho americano, que se debruçou sobre “A Mudança e Estratégias de Reprodução Social em Duas Freguesias da Ilha Terceira”.
Ao telefone, a partir de Coimbra, afirma que a história de Carlos Hilário é um “caso extremo”, mas que se enquadra na referência dos Estados Unidos da América como uma terra prometida.
“Esta ideia de que existem uns Estados Unidos da América dentro dos Açores é muito visível na Praia da Vitória e nas freguesias envolventes, no consumo, nos bens, nas referências desportivas, culturais”, sublinha.
Nos anos 50 e 60, assinala, a população da ilha não tinha acesso a coisas que hoje são simples, como manteiga empacotada, por exemplo, ou calças de ganga Levis e televisores. “Neste último caso, era uma dupla referência. As pessoas tinham o exemplo da base e também a emissão da tv norte-americana, que lhes mostrava todo um estilo de vida”, enquadra.
A América continua a ser, assegura, uma força de atracção para os terceirenses e açorianos. “Tivemos o 25 de abril, o processo de desenvolvimento dos Açores, com alguns empregos bons na função pública e mais rendimentos na lavoura. Mas, se não houvesse regras tão rigorosas, a emigração para os EUA teria outra força”, reflecte.
Para Carlos Hilário, em 1961, a América era a terra de todos os sonhos. Quase não tinha família na ilha, estava magoado, revoltado. Enquanto se dirigia para a pista, pensava: “Também, se eu morrer, não se perde nada”.
Encontrou um avião que estava a ser carregado e entrou pelo trem de aterragem traseiro, do lado direito. Ouvia os americanos a falaram lá fora. “Ok”, “yes”. Ele, ao contrário de outros companheiros do bairro da lata, não falava quase nenhum inglês.
“A viagem foi terrível”, conta. Nunca tinha passado tanto frio, batia os dentes. Quando o avião aterrou, na costa leste dos EUA, esperou e saiu. Ficou ali, na pista, de boca aberta, sem saber o que fazer. Viu um carro da polícia e largou a correr.
Apanharam-no, claro. Quando viram que não falava inglês, chamaram um sargento, que tinha estado colocado na Base das Lajes e fora depois transferido. “Foi uma pessoa espectacular. Perguntou-me: Tens família aqui? Eu respondi que sim, mas que não sabia onde estavam naquele momento”.
Naquele momento, com 13 anos, estava “em pânico”. Chorava e chorava. O sargento explicou-lhe que, se tivesse família lá, podiam contactá-la e tentar que ficasse na América. Como não era possível, informou-o que o governo português, de Salazar, tinha criado uma lei que ditava que quem fugisse do país era preso. “Disse para mim: ‘Caramba’. Só pensava, com medo, na casa de correcção, em Lisboa”, recorda.
“Tem calma, não chores”, disse-lhe o sargento. “A gente vai fazer uma coisa, se fores capaz. Vais ir para a tua terra e um colega meu vai-te buscar ao avião. Dizes que andavas de roda dos aviões e que foste apanhado”, aconselhou-o.
Regressou à ilha num avião de “três caudas”. Quando aterrou nas Lajes, tinha um polícia à sua espera, que lhe perguntou se tinha alguma coisa para ele. Entregou-lhe uma carta, do outro sargento. “Também me perguntou se me recordava bem do que o sargento me tinha dito e eu disse-lhe que sim”.
Foi para a esquadra da polícia da Praia, depois para a de Angra. O “pai dos menores”, o juiz, acabou por decidir aplicar-lhe três anos no orfanato. Escapara à casa de correcção.
No orfanato, ofereceu-se para ir para as terras, onde trabalhou sem receber nada durante três anos. Dedicou-se, depois, à restauração e especializou-se nos casamentos, que acumulava com um emprego na Caixa de Previdência.
A fuga para a América ainda é um trauma. Outros tempos maus foram os da tropa, em Cabinda, Angola, “um dos piores sítios”, onde se repetiam os ataques e as doenças e escasseava a comida.
“Éramos rapazes... Imaginávamos a terra deles, dos americanos. Mas nunca mais quis voltar à América. A experiência foi má. Durante aqueles dois dias, não fazia outra coisa senão chorar. Quando me meteram no avião, pensei: Estou quase na minha terra, se Deus quiser”.
Outro rapaz, com quem se cruzou no orfanato, tinha tentado fugir para a América, mas também foi apanhado. Garantiu-lhe que ia voltar a testar o plano. Quando o deixaram ir ter com a família, no fim-de-semana, meteu-se noutro avião. Nunca mais ninguém o viu.

                

CA/DI

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Autor: CA

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