22 de setembro de 2019

Crónica da Madeira

Amália

Lisboa estava luminosa naquela tarde, era primavera. Encontrei por acaso um antigo aluno meu que estava fixado na América. Convidou-me para tomar café. Repliquei-lhe que não podia, pois estava atrasado para o meu encontro com Amália, uma deusa com uma voz única que se espalhou no mundo inteiro, enfeitiçando, conquistando povos que, mesmo sem conhecerem a língua portuguesa, sentiram-na com a força e a expressividade que ela ponha no seu cantar. Renderam-lhe todas as homenagens; levaram-na aos ombros, como uma santa. Os sicilianos diziam: “ela não canta, reza”. Os franceses cognominaram-na de “Cisne Negro de Paris”. 
    Convidei o meu antigo aluno luso-americano a visitar comigo Amália. Ele respondeu-me que o fado não era o género de música de que gostava. Insisti, dizendo-lhe que não ia ouvir o fado, mas sim conhecer a Amália – a deusa. Mediante a minha insistência, ele aceitou o meu convite. Dirigimo-nos à Casa de São Bento e, na sala nobre, estava Amália, com um vestido colorido comprido, sentada num dos sofás. Ela perguntou-me, de imediato, como estava o Presidente Jardim, pois uns meses antes, ela, a Maluda e eu tínhamos jantado na Quinta Vigia. Uma noite inesquecível. A Amália, com a sua inteligência brilhante, falou de tudo, fazendo comentários oportunos e acertados. Uma conversa de quem estava bem informada e consciente das várias questões que assombravam o mundo e a humanidade. Ao apresentar-lhe o meu antigo aluno, perguntou-lhe em inglês, com uma pronúncia corretíssima: How do you do? Depois continuou, falando-lhe em inglês sobre a América, com muito conhecimento. Conversámos de Portugal, sobre a Lucília do Carmo, que ela muito admirava, referiu-se aos poetas portugueses com carinho e alguns estrangeiros. Falou-se de um amigo comum, David Mourão Ferreira. A determinada altura interrompi-a, dizendo-lhe que estava muito orgulhoso, pois tinha lido numa revista francesa um comentário sobre a Amália, que considerava a sua voz mágica e única. Destacava que as vozes mais marcantes do mundo eram a dela, da Callas, da Piaf e do Frank Sinatra. Neste momento ela disse-me: “vá àquela mesa, por favor”, apontando com o dedo, “e tire aquele volume”. Era o dicionário em francês da música e lá estavam as maiores vozes do mundo: Maria Callas, Amália e Piaf. Falámos, ainda, das cantoras espanholas. Com muito humor, caricaturou algumas delas, salientando o aspeto de gritarem um pouco demais. Outras louvou-as, enaltecendo-as pelas suas vozes e interpretações. Ela perguntou ao meu amigo se queria tomar algo: um uísque, um gin. (Ao contrário do que se dizia, Amália não bebia, a não ser um pouco de champanhe). Ele agradeceu, estava completamente rendido ao fascínio da Amália, à sua inteligência e cultura. Quando, à saída, chegou à porta, abraçou-me e, com os olhos rasos de água, agradeceu-me por ter-lhe proporcionado um encontro que o marcou de sobremodo: “jamais esquecerei esta mulher fantástica. Tens razão, é uma deusa!”.

***
    Aquando da realização do Congresso do PEN Internacional, que se realizou na Madeira, o maior de todos, pois reuniu 600 congressistas de todo o mundo, convidei a Amália a vir cantar. O sucesso foi de tal ordem que os poetas e escritores reunidos, grandes nomes da literatura mundial, aplaudiram-na durante longos minutos. A sua atuação enriqueceu extraordinariamente o referido Congresso, ao qual, ainda hoje, alguns escritores se referem.
    Quando fui pôr a Amália ao aeroporto, ia comigo o Embaixador Seabra que nessa ocasião pertencia à UNESCO. Na sala VIP do aeroporto assisti a um diálogo muito interessante entre o Embaixador Seabra e a Amália. Devo esclarecer que o Dr. Seabra era um Pessoano ferrenho. Foi um dos intelectuais que muito ajudou a divulgar a obra de Fernando Pessoa em França.
Embaixador Seabra: – Sr.ª D. Amália canta mais Camões do que Pessoa, qual a razão?
Amália: – Na verdade, admiro Pessoa não só como grande poeta que é, mas também como um pensador (um filósofo) extraordinário. Porém, prefiro cantar Camões, sinto-o muito mais. É um poeta que me faz vibrar. Vem bem de dentro. É um poeta do povo.
Embaixador Seabra: – Mas, Sr.ª D. Amália, Pessoa…
Amália interrompe-o e diz-lhe: “Sabe, Sr. Embaixador Seabra, Camões é puro. Pessoa, sendo grande, sem dúvida, está ligeiramente poluído. Viveu na África do Sul, experimentou outra língua…”.
O Embaixador sorriu e nada acrescentou…

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O Teatro de Macau abarrotava de público. Amália cantava naquela noite. Um público elegantíssimo. Tinha conseguido, a muito custo, um bilhete para assistir ao seu espetáculo. Fazia questão de estar ali. Amália entrou em palco e o público rompeu em aplausos. Caiu-lhe no chão um enorme alfinete brilhante que trazia preso à cintura, num vestido preto lindíssimo. O Fontes Rocha, um dos seus músicos, afastou-o com o pé. Sentia-a muito nervosa. Chegou ao intervalo. Fui ao seu camarim para saudá-la. A Estrela disse-me que a Sr.ª D. Amália pediu para não ser incomodada. Vim embora. A Estrela vai a dentro, volta e chama-me: “a Sr.ª D.ª Amália vai recebê-lo, quer falar consigo”. “Entre”, diz-me ela que descansava os pés em cima de uma cadeira e logo me perguntou como é que estava o som. Respondi-lhe: “ótimo”. Ela diz: “Nada me correu bem”. Retorqui-lhe: “Não é verdade, Amália. Estava tudo muito bem”. Deixei-a para assistir à segunda parte do espetáculo. Quando Amália entrou em palco, com um larguíssimo vestido branco (nunca antes a vira de branco), o público enlouqueceu, levantou-se aos gritos e aplausos e atirou para o palco centenas de rosas vermelhas. Era como se Amália tivesse magnetismo e os enfeitiçasse. Um movimento de centenas de espetadores em uníssono a aplaudir freneticamente a deusa que encheu de luz o palco. Tudo era luminoso. Ela, como uma verdadeira deusa, deslocava-se no palco, enchendo-o com a sua figura e beleza, com a sua voz inconfundível que se repercutia na sala e arrepiava-nos… Ouvimo-la nas várias interpretações excelentes. Tinha já conquistado por completo o público, na maioria chineses.
Muitos anos mais tarde perguntei à Estrela qual a razão de todo aquele nervosismo da Amália. Ela explicou-me que naquela noite estavam no teatro empresários de Taiwan que deveriam contratá-la para ali se exibir. Está claro que a Amália, depois daquele sucesso estrondoso, deixou Macau com rumo a Taiwan, onde, de novo, com a sua voz, conquistou o público. É porque só a sua voz era entendível, entrava na alma dos asiáticos.

***
Vivia-se uma época em que a euforia revolucionária estava ao rubro, por consequente, era fácil apelidar de fascista todos aqueles que não estavam de acordo com algumas atitudes menos corretas. A Amália não tinha partidos, nem nunca foi política, embora, por vezes, quisessem servir-se do seu talento e do seu nome, mas ela sempre se distanciou. Amália conquistou o mundo com a sua voz inigualável e com os seus quatro guitarristas, em tempos em que Portugal não tinha aceitação internacional pelo facto de se ter uma ditadura. Ela entrou em todos os países, cantando os grandes poetas portugueses. Quem, como eu, viajou, sabe que em algumas fronteiras, quando mostrávamos os passaportes portugueses, diziam: “País de Amália e de Eusébio”. Para eles, Portugal era Amália e Eusébio. Mas entenderam alguns vira-casacas, logo após a revolução, de considerar Amália fascista. Uns tantos cavalheiros mal formados, mal-agradecidos, frustrados e reles. Amália, como grande senhora que era, ignorou-os, porque conhecia-os a todos.
Acontece que veio à Madeira cantar. No dia do seu regresso a Lisboa, estava no porto um barco de guerra francês cujo Comandante, sabendo da sua presença no Funchal, pediu-lhe insistentemente que ela fosse a bordo, pois isso seria, para ele, oficiais e marinheiros, uma grande honra e uma felicidade. Amália acedeu. Ela sabia que o povo francês a venerava, tanto que a determinada altura queriam dar-lhe a nacionalidade francesa, mas ela rejeitou “porque só podia ser portuguesa”. Eu avisei o aeroporto de que Amália ia chegar sobre a hora, porquanto não tinha podido recusar o convite do Comandante do barco de guerra. Chegámos ao aeroporto, fizemos o check-ine, quando a Amália se dirigia para o avião, o Comandante mandou retirar a escada. Depois de voltar à aerogare, Amália disse-me que daí a dois dias devia partir para o Brasil e, portanto, a situação causava-lhe um grande transtorno. Porque compreendeu perfeitamente a má vontade do piloto (devia ser um revolucionário), olhou para mim e disse: “sabe, meu querido amigo, o que fica de tudo isto são os verdadeiros amigos. O resto vale nada…”.
 

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Categorias: Opinião

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