22 de setembro de 2019

Entre o passado e o futuro

Eleições, maioria absoluta e outros detalhes

Estamos rodeados de eleições por todos os lados.
Depois das eleições para o Parlamento Europeu, cujos efeitos ainda se sentem, e que primaram pela significativa abstenção, o mais temido concorrente, realiza-se hoje o ato eleitoral para o parlamento da Região Autónoma da Madeira. Não é assim tão despiciendo para o todo nacional como parece. 
Se o PS ganhar o parlamento da Madeira, governando os Açores há 23 anos, e admitindo-se que logo a seguir domine em número de deputados o parlamento nacional, governará o Continente e as Regiões Autónomas sozinho. Enorme feito. Todavia, nada de novo nem de grave. Quando o PSD ganhou por maioria absoluta e por duas vezes o parlamento nacional, na Madeira e nos Açores o governava o PSD. Contudo, as circunstâncias políticas eram outras. Tanto nos Açores como na Madeira, o PSD governava desde os primórdios da autonomia. Se o PS, hoje, ganhar o Parlamento madeirense ou acabar com a maioria absoluta que sempre governou a Madeira estaremos em presença de um facto político relevante e de um feito assinalável pelo seu significado concreto: o fim de um domínio político partidário solitário e ininterrupto há mais de 4 décadas. Vitória que naturalmente fortalecerá a imagem do PS e fará crescer o número de seguidores ocasionais como recuperará estáveis desaparecidos em combate. O que quer dizer, outrossim, que, pela primeira vez, as eleições realizadas numa região autónoma poderão ter influência nas nacionais, designadamente, nas do dia 6 de outubro. Uma vitória do PS na Madeira originará, inelutavelmente, ondas telúricas sequenciais emotivadoras do eleitorado do PS nacional, já vencedor das europeias, assim como dos indecisos que o são por gostarem de votar em favoritos seguros. Uma sondagem eleitoral na Madeira divulgada quinta-feira passada, assente em significativa base de inquiridos, mostrava o PS já muito próximo do PSD.
Também a situação política em Espanha, conhecida pela expressão o impasse espanhol, poderá de algum modo favorecer o PS. O presidente do PS e candidato a primeiro ministro não perdeu a oportunidade de sublinhar o mau exemplo do País do outro lado da fronteira, umas vezes inimigo, outras vezes “irmão”, outras ainda simplesmente vizinho, para dele extrair valiosos ensinamentos: Portugal não pode cair no impasse espanhol, seria desastroso em todos os domínios, alertou por várias vezes. Querendo obviamente com o aviso sobre a instabilidade vizinha obter uma votação expressiva. Disse-o, e usando terminologia bem portuguesa, socorreu-se de um dos seus melhores “jogadores”, como classifica os seus ministros - na terça-feira passada considerou o ministro das finanças e o da economia, bons pontas de lança, o da segurança social, ótimo “organizador de jogo” – para criticar o impasse espanhol e acrescentar que o PS preferia uma governação futura sem veredas nem escolhos, pedindo, assim, subliminarmente, a maioria absoluta. Porventura, estará cansado das performances do Bloco de Esquerda, cada vez mais o partido de uma só mulher que deseja o poder, com os seus ou sem os seus, e do desconcertante sentido de Estado do PC que, ao contrário do Bloco de Esquerda, prefere ficar apenas com o que tem a ter de deixar de ser o que é. 
Começa hoje mesmo a campanha eleitoral, formalmente apenas, porquanto a promoção partidária e pessoal, sem regulação específica, decorre há vários meses. Agora é o tempo para “comissão nacional de eleições” ver… e abrir a “caixa das queixas” permitindo que os portugueses façam aquilo que tanto apreciam: queixarem-se. Quinze dias de absurdas restrições e condicionamentos inapropriados politicamente. Até hoje valeu quase tudo, mas a partir de hoje o que a ética (política) permitir: uma espécie de período de jejum e abstinência. Haverá um vigilante para detetar as irregularidades e ilegalidades. Quinze dias de verdade e transparência na política. Será verdade?
A maioria absoluta é uma solução governativa democrática, mas em desuso: na Itália, na Alemanha, em Espanha, no Reino Unido… até em Israel, país da guerra eterna. Perdeu a maioria absoluta no domingo passado. Em Portugal poderá reaparecer, qual Fénix renascida das suas próprias cinzas.

Print

Categorias: Opinião

Tags:

Theme picker

Revista Pub açorianissima