24 de setembro de 2019

Os populismos e as elites. Que elites?

O populismo caracteriza-se por extremismo, ser anti-elites e anti-política e políticos, não ser de direita nem de esquerda, falar directamente ao povo, desprezo pelas instituições democráticas, pese embora servir-se da democracia como “rampa de lançamento”, além de ter um discurso para os mais desfavorecidos, desempregados oriundos duma classe média  baixa, impreparados para apanharem o comboio da novas tecnologias e do digital.
Quando rotulado de xenófobo, racista, fascista, nazi, não enjeita o epíteto. A que elites se refere Steve Bannon, o “pregador”, do século XXI dessa nova versão actualizada do “ideal da raça pura” ou do “nós e eles” que em meados do século XX, conduziu à 2.ª guerra mundial, ao holocausto e à barbárie?
Que elites? O cidadão comum relaciona  as elites como os detentores do poder ou de poderes, logo associando “àqueles que têm dinheiro”, que tudo podem e que tudo controlam, até governos.
Como explicar o “fenómeno” Donald Trump na América, um milionário, cujo discurso para a sua eleição, se baseava no estribilho de estar “ao lado do povo contra as elites”? Recorde-se que o acompanharam outros milionários, o que não terá sido inocente, a promessa de campanha de reduzir para metade os impostos sobre os mais ricos. Trump teve como seu  “guru ideológico” o já mencionado Bannon.
Vou-me socorrer da expressão, simples mas elucidativa dum escritor “ o ódio às elites, não eram as entendidas como as que têm dinheiro, mas as que lêem livros”. Trata-se duma citação simples e simbólica. Porque se sabe de gente com muito dinheiro e vasta cultura, que corajosamente enfrenta e dá combate ao populismo.
Mas o que não deixa de ser menos verdade é que, ontem como hoje, são as elites intelectuais e académicas os principais alvos do populismo, a par da comunicação social e os jornalistas. Recorda-se a expressão que nos deixou o poeta Eugénio de Andrade “ Foi sempre pelos olhos dos nossos poetas que se viu mais longe e mais fundo”.
Trump já se desenvencilhou do Steve, enviando-lhe “ em missão” para a Europa, onde teve bom acolhimento nalguns países, espalhando o “caos” como ideologia, que alguém já sintetizou, nesta outra expressão “ideias cheias de nada e vazias de coisa nenhuma”.
O Bannon encontrou no inglês Dominic Cummings, o seu “irmão gémeo”, que segundo alguns comentadores terá sido o mentor de Boris Johnson. E de ter mergulhado o Reino Unido, a mais velha democracia da Europa, no dramático dilema em que se encontra.
Embora se possam localizar populismos nos extremos do espectro político, na Europa não teremos dificuldade em os situar, maioritariamente, na extrema direita, não só no fervor nacionalista irracional, como na escolha dos refugiados ou imigrantes ilegais como inimigos  e causadores de todos os males. Como exemplos mais recentes, temos o Salvini na Itália, o Abascal na Espanha ou a Le Pen em França, etc.
O projecto da União Europeia, com o seu, por vezes, percurso errático, com o cada vez maior poder dos neoliberais, tem constituído, em algumas circunstâncias, lastro para os populistas fazerem o seu caminho.
Apesar de tudo, se a União Europeia reencontrar o rumo traçado pelos pais fundadores, constituirá o porto seguro para a Democracia continuar a solidificar-se e ser obstáculo eficaz ao avanço do populismo.
“ A Democracia está em risco?”. Foi este o mote e o pretexto encontrado para um prestigiado grupo de concidadãos, se reunirem e sem “tabus” ou constrangimentos ideológicos ou de interesses, discutirem o tema em agenda. Os participantes, assim como o painel de oradores convidados, com opinião plural, convergiram na necessidade de renovar a democracia, porque não sendo o regime perfeito, é o que possibilita encontrar alternativas de governo, combater a corrupção, a partidocracia, as desigualdades, as alterações climáticas, os radicalismos fundamentalistas, discutir ideias… para se evitarem os regimes populistas autocráticos e autoritários. Haja esperança. A Democracia vencerá. Os nossos vindouros merecem. Saibamos ser consequentes e coerentes nas convicções. Os populistas ficaram a saber que esta elite açoriana saída desta reunião lhes dará  luta para os derrotar.
Seria inevitável que o populismo, não viesse enquadrar a Igreja Católica, no seu cardápio de “elites” a combater, na pessoa de S. S. o Papa Francisco, não obstante alguns dos seus protagonistas, duma forma hipócrita, invocarem Deus, sempre que lhes dá jeito. A resposta de Francisco, para além de se manter fiel à mensagem de Paz  e Amor, foi ter nomeado Cardeais, padres das mais diversas origens geográficas e com percursos de vida feitos de missão junto dos mais vulneráveis, como aqueles que não só “lêem livros”, como os fazem. Neste último grupo vamos encontrar o professor, o padre e o poeta José Tolentino Mendonça, que com apenas 53 anos será, a partir do dia 5 de Outubro, Cardeal. Curioso foi constatar-se, que ainda não há muito tempo, muitos daqueles que o criticavam, em virtude das suas posições contrárias a bastos e abastados interesses, se apressaram a tecer-lhe os mais rasgados elogios, falando até na sua fulgurante carreira, como ser-se apóstolo de Cristo, se pudesse confundir com vedetismo.
É esta nova elite, que deve ter deixado os populistas mais enraivecidos. A esses, Francisco ou Tolentino, responderiam apenas com uma palavra, convertam-se, ou iniciem um PCEC- processo de conversão em curso, e não hesitariam em citar Gandhi “ Dar o exemplo não é a melhor forma de convencer. É a única.”

 

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Categorias: Opinião

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