24 de setembro de 2019

Consequências do próximo Sínodo

O Papa Francisco há 2 anos convocou um Sínodo da Igreja Católica sobre a Amazónia, cuja realização, curiosamente, vem a coincidir com os incêndios descontrolados e do avanço recorde do desmatamento daquela imensa mancha florestal. Para uns, só a Divina Providência poderia prever que um encontro internacional sobre a Amazónia aconteceria com o atual momento em que se vive naquela região.
A explicação que é dada pelos vaticanistas é de que se trata de “um exemplo da sagacidade política do Papa Francisco, que, responsável por pautar o evento no final de 2017, desde o início de seu pontificado, há seis anos, elencou a defesa do meio ambiente como ponto central de sua agenda”.
Como se sabe no próximo mês, durante três semanas, mais de 250 Bispos e Cardeais da Igreja Católica, além de indígenas e cientistas de nove países que fazem parte daquela floresta, irão reunir-se no Vaticano para o Sínodo, num evento que poderá vir a apelidar o Papa como um como porta-voz da causa ecológica.
No entanto, o setor conservador do Vaticano está a arrebanhar adeptos para considerar este Sínodo como herético, o que poderá constituir uma ameaça à unidade da Igreja Católica que não vê com bons olhos o trabalho e as declarações do Papa Francisco.
Um Sínodo é uma espécie de reunião magna realizada de três em três anos, que muitos apelidam de “Parlamento dos Bispos”. Ele foi instituído após o Concílio Vaticano II, um longo debate que, no início dos anos 1960, modernizou a estrutura da Igreja em diversas frentes.
A atual edição, dedicada à Amazónia, pode classificar-se como um sínodo especial, como já ocorreu antes em discussões específicas sobre continentes como Europa e África. A novidade, agora, é o evento ser dedicado a uma região geográfica.
O objetivo não é somente discutir novas formas de evangelização na região, que tem cada vez menos influência católica, mas principalmente debater propostas e estratégias para a preservação de sua mancha florestal, das comunidades tradicionais e como desenvolver um modelo económico sustentável.
Como tem sido sobejamente difundindo, no outro lado da barricada estão o Cardeal Burke e Mons. Athanasius Schneider que publicaram um documento onde pedem orações para que “durante a assembleia sinodal, os erros teológicos e heresias incluídos no Instrumentum Laboris não sejam aprovados. Especificamente apelam para que o Papa Francisco, no exercício do ministério petrino, confirme os seus irmãos na fé, com uma clara recusa dos erros do Instrumentum Laboris e não consinta a abolição do celibato sacerdotal na Igreja Latina, com a introdução da prática de ordenação de homens casados, os chamados “viri probati”. Para o setor tradicionalista, o documento publicado destaca 6 erros graves e heresias contidos no Instrumentum Laboris.
De recordar que no fim do mês de agosto, alguns grupos conservadores ligados à Igreja declararam publicamente uma grande insatisfação com o tom adotado pelos organizadores do controverso Sínodo da Amazónia, questionando o que classificam como tentativas de interferência em “soberanias nacionais” e criticam qualquer tipo de apoio a políticas ambientais que privariam a população da Amazónia do desenvolvimento.
No entanto, e na verdade, importa acrescentar que o que pretende a Igreja Católica não é formular e promover novos modelos de desenvolvimento na Amazónia, mas o que ela espera é denunciar os males provocados pelo atual modelo económico, posicionando-se simbolicamente contra uma situação que considera de caos ambiental e social e coloca em risco a área com a maior biodiversidade do mundo.
Face a estas controvérsias, que estão a abalar o catolicismo, urge perceber se a Igreja Católica está em risco de entrar num cisma. Este gravíssimo problema foi posto diretamente ao Papa Francisco no regresso a Roma, depois da sua última viagem apostólica a África, e este respondeu que existe sempre essa possibilidade, afirmando que não teme um cisma mas que aceita de bom grado as críticas que lhe são feitas, desde que sejam feitas de forma aberta e não pelas costas.
A “barca” há-de resistir a esta grave tempestade, cujas ondas estão a sacudir a Igreja Católica, sob o comando do Papa Francisco.

 

Print

Categorias: Opinião

Tags:

Theme picker

Revista Pub açorianissima