Limitar entrada de turistas durante as celebrações litúrgicas sem vedar o acesso dos visitantes ao património religioso

O II Encontro “O turismo em diálogo com o património religioso”, que decorreu na Igreja Matriz da Lagoa na Segunda-feira à noite, quis dar resposta à questão que este ano esteve em debate: “Santuários de peregrinos ou de turistas?”.
Este encontro organizado pela Colecção Visitável da Matriz da Lagoa, contou com um painel de oradores com experiências distintas, nomeadamente o Reitor do Santuário da Esperança, cónego Adriano Borges, o padre Nemésio Medeiros, guia espiritual em peregrinações à Terra Santa, Raquel Lima, intérprete de língua gestual portuguesa no Santuário de Fátima e que normalmente acompanha a comunidade surda dos Açores em visitas ao Santuário de Fátima, bem como Graça Machado, peregrina dos Caminhos de Santiago de Compostela e que pertence à Associação Espaços Jacobeus.
O Reitor do Santuário da Esperança, cónego Adriano Borges, salientou que os Santuários não são espaços sagrados apenas da Igreja Católica, uma vez que também existem noutras religiões, e muito menos espaços que existem por causa dos turistas. São espaços que existem para peregrinos e “enquanto o peregrino é chamado e sai ao encontro de, o turista chama-se a si mesmo e vai conhecer um lugar”.
Para Adriano Borges, o peregrino deve estar sempre em primeiro lugar, por isso considera necessário limitar as entradas durante o tempo das celebrações litúrgicas para respeitar realmente os que são devotos. Uma vez que o património religioso é um importante instrumento de catequese, Adriano Borges considera que “seria grave se vetássemos a entrada de turistas, pois o património deve ser visto, no entanto há espaços e horários apropriados para a sua contemplação”. Durante a sua intervenção, o Reitor do Santuário da Esperança talvez um dos monumentos religiosos mais visitados nos Açores, deu conta que as jóias que integram o tesouro do Senhor Santo Cristo dos Milagres deveriam estar expostas, no entanto admite que actualmente o Santuário não reúne meios para tal mas que no futuro “fará todo o sentido”, que assim seja. 
Já o Padre Nemésio Medeiros, que interveio enquanto guia espiritual em peregrinações à terra Santa desde 1986, contou um pouco da sua experiência e referiu que é guia espiritual por amor, revelando que “peregrinar é ir ao encontro do sagrado, permitindo ao peregrino envolver-se com o sagrado”. Neste sentido, fazer uma peregrinação à Terra Santa “é muito mais do que ver, por exemplo o lugar onde Jesus Nasceu. É uma experiência religiosa/espiritual”.
A propósito das peregrinações que acompanha, Nemésio Medeiros revelou que normalmente os grupos integram maioritariamente pessoas com mais idade, “atendendo que são as que estão mais disponíveis”, embora se verifique nos últimos tempos a integração de gente mais nova. 
Por seu lado Graça Machado, peregrina dos Caminhos de Santiago de Compostela há cerca de 7 anos, falou sobre o que a leva a percorrer o Caminho dos peregrinos e as motivações que encontra. Começou esta caminhada quando encontrou uma aluna que lhe disse que tinha acabado de fazer o Caminho de Santiago e ficou muito entusiasmada. Reconhece que “inicialmente não foi por motivações religiosas, mas sim de aventura, para testar os seus limites” que decidiu percorrer o Caminho de Santiago.
Destacou a sua experiência como peregrina, o ambiente que se vive durante a peregrinação, sobretudo da partilha, relatando que ao longo dos diversos Caminhos se encontram muitos peregrinos de várias nacionalidades. Graça Machado relatou que ficou impressionada com a presença de muitos peregrinos coreanos.
Sem conseguir descrever propriamente o Caminho, Graça Machado descreve a sua experiência com algum misticismo e garante que aquela caminhada “é uma forma do peregrino descobrir a sua missão”.
A peregrina falou sobre os diversos Caminhos existentes e os símbolos associados à peregrinação a Santiago de Compostela, como por exemplo, a vieira, as setas, a credencial de peregrino (uma espécie de passaporte que deve ser carimbado em cada etapa do itinerário), a Compostela (certificado outorgado pelas autoridades eclesiásticas, que certifica ter completado pelo menos 100 quilómetros a pé ). Aqui, explicou que o próprio Santuário de Santiago de Compostela reconhece a diferença entre turista e peregrino. É que o Santuário apenas passa a Compostela a peregrinos que fazem o Caminho por motivações religiosas, enquanto aos turistas passa um documento que refere o número de quilómetros percorridos nas várias etapas.
Graça Machado falou ainda de uma espécie de guerra comercial ao longo do Caminho, dando o exemplo de uma localidade onde os comerciantes colocaram setas noutra direcção, para os peregrinos passarem pela zona da restauração. E destacou, igualmente, que ao longo do Caminho verifica-se que há pessoas que fazem o caminho em modo “turista”.
Graça Machado falou ainda da sua experiência enquanto membro da Associação Espaço dos Jacobeus, uma associação católica que auxilia os peregrinos na sua deslocação a Santiago de Compostela, e que tem uma delegação nos Açores, e que tem por missão apoiar e orientar todos os que querem fazer um dos Caminhos.
Por último foi a vez da intervenção de Raquel Lima, guia-intérprete de língua gestual portuguesa, que deu conta que ingressou na licenciatura em Língua Gestual Portuguesa a propósito da sua experiência enquanto fazia uma peregrinação a Fátima e questionava como é que as minorias se inseriam numa peregrinação.
A intérprete de língua gestual portuguesa no Santuário de Fátima, e que normalmente acompanha a comunidade surda dos Açores em visitas àquele Santuário, referiu que a Igreja Católica teve um papel preponderante junto da comunidade surda. Neste sentido, em 2011 o Santuário passou a organizar uma peregrinação de pessoas surdas a Fátima. Além disso, desde 2014 que o Santuário de Fátima tem uma vez por semana uma missa com interpretação em língua gestual portuguesa.
Raquel Lima destacou que em cinco peregrinações organizadas pelo Santuário de Fátima, a Paróquia de Santa Cruz esteve representada nas últimas duas. A Paróquia de Santa Cruz é responsável pelo projecto Diana, um projecto que tem desenvolvido junto de pessoas surdas, cujo objectivo é inseri-las nas diversas actividades da comunidade, sendo a actividade central a interpretação da Eucaristia Dominical, às 11h30, em Língua Gestual Portuguesa.
Para a mesma, as peregrinações das pessoas surdas são o ponto alto, porque as pessoas “identificam-se, sentem-se integradas, porque falam a mesma língua, não se sentem “estrangeiros”, grande parte identifica-se com a parte espiritual, enquanto outras vão à procura desse lado”. 
Raquel Lima destacou no entanto alguns desafios ao nível destas peregrinações, nomeadamente a heterogeneidade dos grupos quer ao nível do conhecimento linguístico, quer como encaram a espiritualidade. No entanto, referiu que o Santuário de Fátima está cada vez mais acessível e mais próximo das pessoas surdas, mas “ainda há muito por fazer”. 
O II Encontro “O turismo em diálogo com o património religioso”, moderado pela jornalista Sara Sousa Oliveira, terminou com um debate onde foram levantadas algumas questões, nomeadamente, preocupações ao nível da acessibilidade dos turistas às Eucaristias. Neste sentido, entendeu a plateia que se devia iniciar em Ponta Delgada, pelo menos no Verão ao Sábado ou ao Domingo, uma missa celebrada em inglês.                  

C.D.

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Autor: CA

Categorias: Regional

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