Brexit não terá grandes consequências nos Açores mas há que acautelar as empresas exportadoras para todos os cenários possíveis

Que consequências pode ter o Brexit para as empresas portuguesas e consequentemente para as açorianas. Esta é uma questão para  a qual não há uma resposta evidente, uma vez que ainda decorre vários cenários na relação entre o Reino Unido e a União Europeia. Contudo, mesmo estando tudo em aberto, a discussão faz-se pela preocupação de que uma saída de um Estado-membro com o peso que este representa no conjunto dos estados a nível comercial, surgem receios de que se não houver uma preparação adequada os riscos podem ser agravados. Ontem, a AICEP, Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal em colaboração com a Câmara de Comércio e Indústria dos Açores, Confedereção Empresarial de Portugal e Direcção Geral das Actividades Económicas do Ministério da Economia, debateu “Brexit: Oportunidades e Desafios para as PME”.
De acordo com o Presidente da AICEP, Pedro Patrício, o papel da Agência tem sido de acompanhamento no que se está a passar no Brexit. “É uma grande incerteza e o nosso papel é nas áreas de captação da AICEP, ou seja, no investimento estrangeiro e no apoio à internacionalização das nossas empresas. O que nos compete fazer é preparar as empresas para os possíveis cenários que possam advir de um Brexit, quer seja um Hard Brexit ou um Soft Brexit”, sendo um dos principais objectivos do evento visto que o Reino Unido constitui-se como um dos principais mercados para as empresas portuguesas. 
Fazendo parte do Ministério dos Negócios Estrangeiros, a AICEP está envolvida em tudo o que envolva apoio às empresas portuguesas. No entanto, apesar de a AICEP não trabalhar activamente no sector turístico, Pedro Patrício sublinha a importância de se estar atento em relação ao turismo. “O Turismo de Portugal está muito activo nas campanhas que tem feito no Reino Unido, mas é algo que tem que ser visto com mais cuidado.” As empresas portuguesas que exportam para o mercado britânico deverão tomar precauções para estarem preparadas conforme o cenário que advir do Brexit. “. As empresas portuguesas não estão à espera de um momento de catástrofe. Antes pelo contrário. Estamos à espera para ver o que pode acontecer. Há uma grande incerteza tanto para as empresas portuguesas como para as empresas dos outros países”, explica o Director da AICEP.
Para Mário Fortuna, da Câmara do Comércio e Indústria dos Açores, “as consequências de um Brexit para o arquipélago dos Açores não são consequências directas. Mas a economia açoriana estando integrada na economia nacional e esta tendo relações económicas com o Reino Unido, o que acontece a nível nacional, influencia-nos.” Acrescenta ser importante saber quais são os possíveis impactos, mas que as empresas não se irão preparar “de forma específica para o Brexit. O importante é que as empresas percebam de onde podem vir os riscos potenciais, para estarem atentas, e reagirem a esses mesmos riscos.” 
A nível turístico, os Açores não tem que recear directamente, “mas se falhar algum mercado inglês em Portugal continental e na Madeira, evidentemente que as unidades hoteleiras de lá vão perder clientes e naturalmente que vão fazer uma política comercial mais agressiva. Vai acabar por haver sempre algum efeito para o arquipélago.” Admite estar apreensivo, mas que também é preciso perceber como se ameniza um eventual efeito negativo que advenha do Brexit: “não é bom sermos apanhados de surpresa”. O Governo Regional devia ter uma reflexão profunda sobre as potenciais implicações do Brexit nos Açores. Não é um plano de emergência porque não temos uma influência marcante aqui do Reino Unido. Mas é bom sempre precaver” realça Mário Fortuna. “Iniciativas como esta são sempre uma forma de preparar a economia e deveriam ser feitas mais vezes.”
Mário Fortuna realçou a importância de se “debater uma alteração estrutural importante na Europa e como tal muito importante para o mundo, os Açores inclusive. Pois há perigos que espreitam nos mais diversos quadrantes, razão pela qual melhor é estarmos precavidos. É neste contexto que se insere este seminário no sentido de nos esclarecermos relativamente a esta questão um pouco confusa, de certa forma estranha e incompreensível, mas que é uma realidade dos nossos dias e a única coisa que podemos fazer é tentar compreender para mitigar ou contornos os riscos que elas nos possa trazer. Espera-nos uma viagem pelos perigos do Brexit. É necessário estarmos atentos a todas estas mudanças que nos afectam, mas que estão para além da nossa vontade.”
Carla Grijó, Directora da Direcção Geral dos Assuntos Europeus explica existirem várias razões para se proceder de forma cautelosa perante a situação do Brexit, sendo uma delas a situação política do Reino Unido que não tem sido consistente nos últimos temos. “Existem diferenças na estratégia do actual governo britânico quando comparamos com a actuação do Governo anterior, de Theresa May. Theresa May tinha claramente o objectivo de fazer um acordo, um Soft Brexit. Negociou esse acordo com a União Europeia e levou-o por três vezes à Câmara dos Comuns para ter a aprovação do Parlamento Britânico, tendo sido sempre rejeitado. Ao contrário o actual Primeiro-ministro, Boris Johnson disse claramente que o seu objectivo é fazer com que o Reino Unido saia da União Europeia a 31 de Outubro deste ano com ou sem acordo”.
Delegado da AICEP em Londres, Rui Boavista Marques encontra-se a residir no Reino Unido desde 2016. “Estamos a fazer este evento para as empresas, como um género de workshop sobre o Brexit. É preciso perceber o impacto do Brexit para as empresas. As exportações portuguesas, nestes dois anos de incerteza, continuaram a seguir para o Reino Unido. Nós (Portugal) temos uma posição muito relevante para o mercado britânico” explicou. Desde o referendo do Brexit que se observa um decréscimo económico, a própria desvalorização da libra. No entanto, este ano, registou-se o desemprego mais baixo dos últimos 45 anos no Reino Unido, algo contraditório como referiu Rui Boavista Marques. “Havendo Brexit, Portugal não é um dos países que sofrerá mais.” A emigração também tem sido um tema debatido, trazendo incerteza para quem lá vive. No Reino Unido, existe uma grande comunidade portuguesa que também já demonstrou receios devido ao Brexit.
Os impactos aduaneiros e regulamentares, o comércio de serviços e os impactos sectoriais foram também abordados neste evento que teve a presença do Secretário Regional Adjunto da Presidência para as Relações Externas, Rui Bettencourt. A iniciativa pretende ser uma mais-valia para as empresas e agente económicos que se encontrem reticentes em relação ao Brexit, um processo que já dura há mais de 3 anos.

                          

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Autor: Rita Frias

Categorias: Regional

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