28 de setembro de 2019

A Graça dentro da própria desgraça


Que um indivíduo escreva muito ou pouco, que esteja vivo ou morto, é indiferente.
A vida continua o seu curso, os rios continuam a correr para o mar, a criança continua a ir à escola, a foice à seara, o cântaro à fonte.
E todos têm o mesmo fim, grandes e pequenos, bons e maus, sábios e ignorantes.
É injusta a morte como é injusta a vida, tornada para poucos céu aberto

sábios que escrevem e falam
coisas que honras merecem
morrem e também se calam
como os que nada conhecem

O tempo tudo reduz a pó, cinza e nada.
Cristo, no golgota, onde exalou o seu último suspiro na cruz, teve sede e pediu água e em vez de água os esbirros deram-lhe vinagre.
Assim continua a humanidade a fazer aos Cristos deste mundo.
Há tanta fome e tanta sede, tanto vinho que se transforma em vinagre.
Esta reflexão que aqui partilho com os leitores foi inspirada na leitura recente de Santo Agostinho, particularmente do seu livro “A cidade de Deus e a cidade dos homens”.
Já conhecia a sua doutrina, a sua vida e pensamento, mas ao ler de novo este santo achei que valia a pena por escrito os pensamentos que me foram acudindo ao espírito após a sua re(leitura).
O Torga dizia e bem que “lá de vez em quando Deus faz ou encontra homens à sua altura”.
O Diógenes Laércio na Grécia Antiga andava a procura em pleno dia com uma lanterna, de um homem digno desse nome; os ventos, actualmente sopram mais para os bárbaros do que para os homens, como se fosse uma queda nova cada avanço que a humanidade faz no campo da ciência ou da tecnologia.
A vida de hoje não se faz conversando como ensinava o professor Agostinho da Silva nem tão pouco conversava, tal a confusão que se instalou na face da terra.
Quanto a leituras estamos a abarrotar de livros e de autores mas os livros hoje estão condenados a serem esquecidos logo após serem lidos e o que é pior, os melhores, nem sequer são lidos.
O mundo hoje está a rebentar com palavras que nada valem sem palavra e está órfão de sentimentos profundos e de pensamentos elevados.
Mas voltemos a Agostinho, bispo de Hipona, estrela maior, a par de S.Tomás, do pensamento cristão, grande sábio que pela abrangência e profundidade do seu intelecto é transversal a toda a historia do pensamento teológico e como tal, plenamente actual.
Agostinho defendia (e decerto que hoje defenderia com razão acrescida) que o Estado, enquanto tal, é a personificação do mal; o Estado é o diabo.
Porque o Estado nunca se pode fundamentar na justiça.
“Quod non es in legibus non es in mundo”, o que não está na lei não está no mundo.
Ora, o Estado fundamenta-se na lei (o Estado de Direito pelo menos).
Agostinho recorre a uma pequena historia para melhor ilustrar a sua convição:
Agostinho inventou um dialogo entre o grande Alexandre Magno e um pérfido pirata.
A breve trecho, Alexandre Magno perguntou ao corsário o que é que ele pensava de ter inquietado e perturbado os mares.
O pirata respondeu por sua vez com uma pergunta:
E tu que inquietas-te e perturbas-te o mundo inteiro?
Mas porque eu faço as minhas piratarias num pequeno batel chamam-me ladrão e a ti, porque as fazes com exércitos formidáveis chamam-te Rei.
Nas democracias actuais as leis são feitas nos parlamentos nacionais.
Porque são aprovadas por maioria proclamam que essas leis são legítimas, mas serem legitímas não quer dizer que sejam boas; para serem boas e preciso que sejam justas, que encarnem a justiça verdadeira, o que muitas vezes não acontece.
O berço da nossa civilização é greco-romano; depois o cristianismo também passou a informar a concepção antropológica do humanismo ocidental.
Ora Cristo na cruz prometeu a salvação eterna da alma de um ladrão que se arrependera do seu latrocínio.
Ora hoje, por exemplo, um juiz se for cristão português tem, por dever de ofício, de aplicar a lei penal em vigor que diz que em certos crimes a pena de multa aplicável pode ser convertida em pena de prisão efectiva se a multa não for paga num certo prazo pelo arguido.
Sendo a pena de multa pecuniária (uma herança recebida dos romanos para os quais a condenação era sempre pecuniária) quem não tem dinheiro para pagar a multa é enviado para os curros escuros e escusos do ultrajante cativeiro enquanto que um que pode pagar fica em liberdade e em plena luz do dia.
O sol nasce na mesma no dia seguinte, mas enquanto para uns a luz do sol é como grades, para outros a luz do sol compra-se com o vil metal.
Nenhum homem fica igual de pois de sofrer numa masmorra porque a negação da liberdade é a negação da dignidade humana.
Santo Agostinho advogava que nenhum cidadão cristão de lealdade e obediência incondicional ao Estado, que ele designa por Babilónia.
Não diz que o cidadão indignado se deve abster ou deixar correr o marfim: diz precisamente o contrario: que o cidadão deve trabalhar na sociedade organizada, mas manter vivo o espírito critico e recusar obediência a leis que vão contra as leis mais santas escritas no coração do homem (Antigona).
Só Deus é rei.
O homem existe porque deus existe; se é concebível um Deus sem homem, não é concebível o homem sem Deus.
O homem não é autocriado e desconhece por isso o mistério da sua condição. O homem pode ser tudo menos Deus.
Ao nascer cada homem embarca numa viagem rumo a cidade celestial, ao encontro com Deus,
Deus fala ao homem no silencio e só no silencio se pode estabelecer comunicação com o transcendente.
Mas é possível já na terra construir a cidade celestial, é esse o vero fundamento de qualquer esperança digna desse nome.
Mas primeiro e indispensável destruir a cidade da Babilónia para que haja uma aproximação entre deus e as almas.
A questão essencial que se coloca ao homem durante o seu trânsito mudano é a questão da salvação da sua alma.
No mundo que ai temos as almas preocupam-se quase tudo com ele e nada com a salvação.
Foram capturadas por um mundo que e uma Babilónia, uma geringonça gigantesca onde, como na Torre de Babel, cada um fala uma língua que o vizinho do lado não entende.
O mundo está apagado, às escuras, porque lhe falta a luz do amor: o mundo está frio porque o calor do amor se derramou e se esvaiu num baixo mar enganador de espuma.
Tudo se desfaz em espuma como quando acordamos de um sonho.
Onde estão aquelas conversas que são um encontro profundo das almas, onde não há fingimentos ou cálculos de qualquer espécie? Daí a necessidade da conversão, como defende Agostinho.
A conversão é um movimento da alma sobre si própria, um movimento para dentro, que possibilita uma libertação do mundo exterior, alterando quase sempre as prioridades da vida da pessoa.
Esta alteração é o correlato de a pessoa mudar a visão da vida.
Não há mais separação entre pensamento e acção, tudo passa a comunicar com tudo como num sistema de vasos comunicantes.
Santo Agostinho é justamente designado como o doutor da graça. Isto porque, como eu creio a conversão implica a intervenção da graça divina.
Mas a graça só é eficaz nas almas preparadas como a terra e lavrada antes de receber as sementes.. Isto é, é preciso uma purificação interior da alma; a purificação não se atinge sem dor.
O homem sofre; o sofrimento e a cruz que transporta no caminho da vida.
Esta vida é uma caminhada onde não há descanso, não e uma estalagem para passar ferias.

Pedro Paulo Carvalho da Silva
 

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Autor: CA

Categorias: Opinião

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