Açoriano que será o único especialista em Medicina Nuclear em Portugal centra a sua actividade a criar o melhor tratamento para o doente com cancro

É natural da Ribeira Grande, como foi o seu percurso escolar e porque decidiu seguir medicina?
A minha família foi viver para os Estados Unidos da América, mais concretamente, para o Estado de Idaho, quando eu tinha 6 anos de idade e frequentei a escola primária lá. Tenho boas recordações desse tempo e penso que a minha experiência fora dos Açores possibilitou uma visão mais abrangente do mundo já em criança. 
Após o regresso a São Miguel, à Ribeira Grande (de onde sou natural) aos 9 anos de idade, frequentei a Escola Básica Madre Teresa d’ Anunciada, na Ribeira Seca da Ribeira Grande e tive o privilégio de ter uma excelente professora da primária, tanto a nível pessoal como profissional, a professora Fátima Helena. Mais tarde, estudei na Escola Gaspar Frutuoso (segundo ciclo) e na Escola Secundária da Ribeira Grande (terceiro ciclo e ensino secundário), onde também tive experiências de grande aprendizagem e de estímulo para o estudo. 
Ao longo deste percurso, até ao décimo segundo ano de escolaridade, fui desenvolvendo maior interesse pelas disciplinas de matemática e de ciências naturais e, mais tarde, pela biologia, a física, a química e psicologia. Sempre fui um aluno muito bom em todas as disciplinas desde os primeiros anos na primária até ao décimo segundo ano, mas gostava mais de estudar as disciplinas que se dedicavam ao “pensamento científico”. 
O gosto pelas ciências da saúde e pela medicina começou a surgir logo desde a infância, com as primeiras lições sobre o funcionamento do corpo humano na escola primária. A compreensão da “máquina” do corpo humano fascinava-me. Este interesse cresceu ao longo dos anos e aprofundou-se numa fase mais complicada da minha vida, quando tive de encarar o falecimento da minha mãe, numa altura em que ainda era um adolescente. A morte prematura e completamente imprevisível da minha mãe fez com que tivesse ainda mais vontade de enveredar pela Medicina, para tentar ajudar a resolver situações de doença e de sofrimento. 
Portanto, estava decidido a seguir o caminho da Medicina. Terminei o ensino secundário com média de 19 valores na área científico-natural e obtive resultados muito bons nos exames nacionais. Entrei na minha primeira opção de candidatura ao ensino superior – Medicina na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa em 2003. 
O meu percurso no curso de Medicina correu muito bem. Adaptei-me rapidamente às novas rotinas na cidade de Lisboa e na vida académica na Universidade. Fui bolseiro da Região dos Açores, o que me ajudou muito a pagar as despesas. Devo salientar a importância enorme que estas bolsas de estudo têm para os alunos que vêm de famílias mais carenciadas e que estão a estudar longe da casa dos pais, como foi o meu caso. Na minha opinião, devem ser ainda mais incentivadas, pois contribuem como estímulo para o mérito académico.
Durante os seis anos de curso, fiquei alojado numa residência universitária no Lumiar, o que foi uma experiência muito positiva. Para além de poupar dinheiro para pagar as propinas, comprar material e outras despesas, o ambiente estudantil favorecia o estudo. Terminei o curso com uma média muito boa (17 valores) e tive uma excelente classificação no trabalho final do curso (Muito Bom com Distinção), que realizei na Clínica Universitária e Serviço de Dermatologia do Hospital de Santa Maria, sob orientação de Paulo Manuel Leal Filipe. A conclusão do curso de Medicina (mestrado integrado) permitiu obter o grau de mestre, que foi atribuído pela Universidade de Lisboa.
No final do curso realizei a prova de seriação para acesso à área de especialização e fiquei muito bem classificado (nota: 85%), o que permitiu que tivesse muitas opções de especialidades e de locais de formação no Internado Médico de Formação Específica no momento de decidir.

Porque optou pela especialização em medicina nuclear?
No percurso dos seis anos do curso do Medicina ganhei maior interesse pelas áreas da Medicina dedicadas à fisiopatolologia, à bioquímica fisiológica, a endocrinologia, a oncologia, bem como as relacionadas com a imagem e tecnologias associadas à saúde. 
O meu primeiro contacto com esta especialidade ocorreu no meu terceiro ano de curso, como opção de disciplina optativa, sob a direcção de Guilhermina Cantinho. Embora esta disciplina tenha tido uma curta duração (duas semanas de aulas), consegui ter uma noção daquilo que se faz em Medicina Nuclear e fiquei interessado em aprender mais.
Vi na Medicina Nuclear a possibilidade de aplicar conhecimentos em praticamente todas as dimensões da Medicina, já que é uma especialidade médica com intervenção transversal a praticamente todas as áreas da Medicina. É uma especialidade que assenta a sua actuação ao nível dos mecanismos fisiológicos e fisiopatológicos. 
É uma área de diagnóstico e de terapêutica e que possibilita ao médico de Medicina Nuclear um contacto estreito com o doente com forte relação médico-doente. É também uma área em expansão e crescente inovação em tecnologia e fármacos que utilizamos (designados de radiofármacos) na prática clínica e na investigação. 
A Medicina Nuclear tem um impacto cada vez mais relevante na vida dos doentes e o contributo que oferece na definição do diagnóstico e no tratamento de várias patologias é de extrema importância, tanto na oncologia como noutras áreas (por exemplo, na endocrinologia, cardiologia, neurologia, pediatria...).
Escolhi a vaga de Medicina Nuclear no Serviço de Medicina Nuclear no Instituto Português de Oncologia de Lisboa Francisco Gentil (IPOLFG), que foi a minha primeira opção. Na altura não havia a possibilidade de fazer esta especialidade nos Açores por não haver um serviço de Medicina Nuclear na Região (e continua a não existir nenhum com idoneidade formativa).
Até à data estou muito satisfeito com a escolha que fiz! Como curiosidade, fui o único médico açoriano a especializar-me em Medicina Nuclear e penso que continuo sendo o único açoriano especialista nesta área.

Trabalhou no Hospital de Ponta Delgada quanto tempo? Depois desse período começou logo a trabalhar na Fundação Champalimaud?
Após a conclusão do curso de Medicina, fiz o Internato do Ano Comum na Região Autónoma dos Açores em 2010. Escolhi como primeira opção o Hospital do Divino Espírito Santo (HDES), em Ponta Delgada, para realizar esta formação médica de prática clínica tutelada. Trata-se de um ano obrigatório de prática clínica generalista antes de entrar na área de especialização. 
Durante este ano, fui integrado nos Serviços de Medicina Interna, Cirurgia Geral, Pediatria e Ginecologia e Obstetrícia do HDES, bem como no Centro de Saúde da Lagoa, onde estagiei em Medicina Geral e Familiar e Saúde Pública. Trabalhei, também, no Serviço de Urgências do HDES, integrando as equipas médicas nas diferentes valências. 
Este ano foi muito enriquecedor em termos de experiências profissionais. Fiquei com uma boa impressão do funcionamento dos serviços na Região, embora existissem algumas dificuldades na altura, por exemplo, no que diz respeito a escassez de recursos tecnológicos e humanos em algumas áreas. 
Só mais tarde, em 2011, é que entrei na área de especialização em Medicina Nuclear na vaga que escolhi no Serviço de Medicina Nuclear do IPOLFG, sob a direcção de Serviço de Lucília Salgado e a orientação de Ana Daniel. A duração desta área de formação específica é de quatro anos e foi uma formação muito exigente. 
Durante o último ano do Internato Médico realizei dois estágios opcionais com duração de um mês cada, um no Serviço de Medicina Nuclear dos Hospitais da Universidade de Coimbra e outro no Serviço de Medicina Nuclear do Hospital Vall d’Hebron, em Barcelona. Estas experiências fora do IPOLFG ajudaram-me a aprender outras formas de trabalhar em Medicina Nuclear, o que é uma mais-valia para o desenvolvimento profissional de um médico.
Fiz o exame final da especialidade no Serviço de Medicina Nuclear do Hospital de S. João em Abril de 2015 e passei com nota de 19,2 valores. Assim, obtive o grau de especialista em Medicina Nuclear, que me permitiu a inscrição no Colégio da Especialidade. 
Antes de começar a trabalhar na Fundação Champalimaud, trabalhei algumas horas por semana numa clínica privada de Medicina Nuclear, em Lisboa (Atomedical, Laboratório de Medicina Nuclear, SA), sob a direcção de Serviço de Guilhermina Cantinho. 
Em Agosto de 2015, comecei a trabalhar no Serviço de Medicina Nuclear -Radiofarmacologia do Centro Clínico da Fundação Champalimaud em Lisboa, sob a direcção de Durval C. Costa, onde estou até à presente data. 

Ali dedica-se mais à investigação ou ao contacto/tratamento com os doentes? 
No Serviço onde trabalho actualmente, dedico-me mais à clínica (contacto/ tratamento) do que à investigação. 
A prática clínica da Medicina Nuclear inclui a realização de variados exames de diagnóstico, com recurso a radiofármacos que são administrados aos doentes e, na grande maioria dos casos, são realizadas imagens do doente nos nossos equipamentos (câmara-gama ou PET/CT) após a administração dos radiofármacos. Para além do diagnóstico, o papel do médico de Medicina Nuclear passa pelo tratamento de várias situações clínicas, como doenças da tiróide (exemplo, hipertiroidismo) e doenças oncológicas (como no caso de alguns tumores neuroendócrinos e de metástases ósseas de cancro da próstata, entre muitos outros exemplos). Outras actividades clínicas que desempenho incluem a participação em reuniões multidisciplinares (essenciais em oncologia) para decisão da terapêutica e abordagem clínica multifacetada dos doentes, onde a nossa intervenção é muito importante. 
A Fundação Champalimaud é uma instituição com grande actividade em investigação e pesquisa, existindo variados projectos e ensaios clínicos, que incluem a colaboração da Medicina Nuclear ou são mesmo desenvolvidos pela nossa equipa. Portanto, para além da prática clínica, também passo algumas horas por semana do meu tempo no Serviço dedicado à investigação. 
Para além disso, tenho actividades formativas em diferentes âmbitos da intervenção da Medicina Nuclear, que são fundamentais para a constante actualização dos conhecimentos. Estão sempre a acontecer novidades (desenvolvimento de radiofármacos novos, melhorias nos equipamentos de detecção e imagem e implementação de protocolos de avaliação dos doentes) e inovação frequente na Medicina, de que temos de estar permanentemente a par, caso contrário, não praticamos uma medicina de qualidade. 
A Formação Médica Continuada é muito importante e nesta especialidade ainda mais. Nas actividades clínicas do dia-a-dia a terapêutica com radiofármacos tem sido alvo de desenvolvimentos cada vez mais marcantes. Por isso, na Fundação Champalimaud temos investido nesta área. O Director do Serviço, Durval C. Costa, incumbiu-me da supervisão da actividade terapêutica em doentes com patologia neuroendócrina.

Para além das actividades formativas na medicina, também tem formações noutras áreas?
O meu gosto pelos estudos mantém-se vivo. Gosto muito de aprender! Para além de adorar estudar medicina, achei importante aprender gestão e inscrevi-me o ano lectivo passado num curso em regime pós-laboral dedicado à gestão aplicada à saúde. 
Terminei, recentemente, o curso de Executive Master em Gestão de Serviços de Saúde, no INDEG-ISCTE em Lisboa, também com uma média alta (17,25 valores). Esta formação pós-graduada permitiu-me ganhar conhecimentos e competências em gestão, que são essenciais para uma boa prática da medicina. Tive um conjunto de disciplinas que me deram ferramentas para saber gerir bem e compreendi a importância de uma gestão eficiente na saúde. Destas disciplinas, destaco algumas como Liderança de Equipas e Gestão de Conflitos, Gestão de Unidade de Saúde, Política e Economia da Saúde, Finanças Empresariais, Gestão de Recursos Humanos, Ética, Deontologia e Direito em saúde, Governança Clínica, Estratégia de Organizações de Saúde. São áreas diferentes daquilo que estava habituado a estudar em Medicina, o que me cativou bastante. 
Para além de gestão, interesso-me por outras áreas diferentes. Agora estou focado em aperfeiçoar o meu inglês. Esta motivação advém, em parte, pelo facto da Fundação Champalimaud ter uma dimensão internacional. 
Conto, também, com a possibilidade de desenvolver, no futuro próximo, um projecto de doutoramento, mas ainda não decidi quanto ao campo de actuação. Ainda tenho de reflectir melhor acerca deste assunto.

Como define o seu trabalho no dia-a-dia numa organização que é reconhecida mundialmente pelos tratamentos/investigação inovadores que faz ao nível do cancro? É ao nível do cancro que dirige o seu trabalho?
Vejo o meu trabalho como muito estimulante e relevante. A minha prática visa contribuir para o melhor tratamento e o diagnóstico mais acertado da situação clínica do doente, permitindo ajudar frequentemente ao colega que nos solicita um exame a definir a melhor abordagem de tratamento. A nossa preocupação primeira é o doente. Ele é o centro da nossa atenção. Procuro desempenhar sempre o melhor trabalho possível para satisfazer as necessidades clínicas do doente e responder às solicitações dos colegas das diferentes áreas.
A minha actividade centra-se, em grande parte, ao nível do doente com cancro, já que é a área de intervenção de eleição da Fundação Champalimaud. No entanto, a Medicina Nuclear é uma especialidade muito mais abrangente e temos solicitações de exames e tratamentos de doentes com outras patologias para além da oncológica. Lembro que existe na Fundação Champalimaud um centro de excelência na investigação das neurociências.

Como tem vindo a medicina nuclear a ajudar quem sofre da doença que “não escolhe idades nem classes sociais”?
A Medicina Nuclear ajuda a fazer o diagnóstico do cancro em muitas situações, ajuda a estadiar/ mapear a extensão da doença, a avaliar a resposta aos tratamentos, a planear de forma mais precisa determinados tratamentos, bem como ajuda no tratamento eficaz de doentes com certos tumores. 
Todas estas intervenções da Medicina Nuclear traduzem-se em benefícios/ ganhos de saúde, que pode ser em termos de melhor qualidade de vida, maior sobrevida, menor número de tratamentos desnecessários (que muitas vezes têm efeitos adversos e elevado custo).

Depois de trabalhar no Hospital do Divino Espírito Santo, tem acompanhado o que se passa na Região ao nível da saúde? 
Depois de trabalhar em São Miguel, não tenho estado muito a par daquilo que se passa na Região dos Açores no que diz respeito à Saúde. 
O meu conhecimento da situação da Região a nível do sector da saúde advém de algumas notícias que vejo na televisão e de algumas informações que a minha família me transmite. Por exemplo, sei que em certas áreas tem havido alguns desenvolvimentos, como os casos da Radioterapia em Ponta Delgada e da Medicina Nuclear em Angra do Heroísmo. 

Como vê a saúde na Região e o facto de já se poderem fazer, pelo menos em São Miguel, exames/tratamentos que evitam a deslocação de doentes para fora dos Açores?
Penso que é muito positivo para os doentes açorianos terem acesso mais próximo a exames e tratamentos “inovadores”, preferencialmente, na Região onde vivem. 
A deslocação dos doentes para fora dos Açores traz grande transtorno e ansiedade para os doentes e suas famílias, para além dos aspectos financeiros obviamente implicados. No entanto, considero que é fundamental que seja mantida a qualidade da prestação destes cuidados “inovadores” de saúde na Região. Só assim se justificam os investimentos que são feitos.

Vê-se a regressar aos Açores para exercer medicina?
Nesta fase da minha vida profissional, tenho desenvolvido um trabalho muito estimulante e gratificante de grande prática clínica e investigação na Fundação Champalimaud. Tem sido uma experiência muito enriquecedora e que tem permitido um grande desenvolvimento profissional. 
Portanto, tenciono continuar a trabalhar na Fundação Champalimaud. No entanto, não excluo completamente a hipótese de regressar um dia aos Açores para exercer Medicina Nuclear no futuro, dependendo das condições que me forem oferecidas para desempenhar um trabalho de qualidade.

Costuma regressar à Região frequentemente? Como vê o desenvolvimento que as ilhas têm sofrido, em parte devido ao turismo?
Todos os anos reservo uns dias de férias para regressar à Região para visitar e estar com a família, em São Miguel. São sempre dias óptimos para recuperar energias, de grande tranquilidade fora do stress do dia-a-dia de Lisboa e que permitem o contacto com o “verde” e o mar dos Açores, que tanto aprecio. Sempre que regresso de férias aos Açores denoto um crescendo de desenvolvimento e de turismo na Região e classifico esta evolução como positiva para o desenvolvimento económico da Região, contribuindo para mais empregos e mais oportunidades de negócio para os açorianos. No entanto, penso que não se deve deixar que a pureza natural dos Açores possa um dia vir a ser destruída devido a esse desenvolvimento.                                          
                                                       

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Autor: Carla Dias

Categorias: Regional

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