29 de setembro de 2019

Arquitectura LXVIX

...”O “alindar” das cidades, hoje, passa ainda pela moda de encomendar objectos arquitectónicos-ícone a arquitectos do star-system; mas aqui, o modelo já não parece ser tão económico e a maioria das cidades deita mão a valores locais que não se podem fazer rogados. Nascem, então, objectos abstrusos que não ensaiam, nem por um instante, observar e ver o que a cidade por perto precisa, necessita ou exige.”...
Manuel Graça Dias (1953-2019), arquitecto, in “Arte Arquitectura e Cidade: A propósito de Lisboa Monumental de Fialho de Almeida”.

Há dias numa feira, via de longe um vídeo, que me parecia tratar de futebol, aliás como tudo agora.
Uma grande bola branca chamava de longe a atenção. Intrigado, aproximei-me e percebi então de que não se tratava de futebol, mas de um objecto inserido num plano também branco, como se fosse a bola ao centro no inicio de qualquer jogo de futebol, razão da minha primeira percepção. O desafio ia começar!
Sem quaisquer referências que lhe conferissem escala, assemelhava-se também à posição de partida no golfe, quando a bola se posiciona sobre um pequeno taco (tee) que a levanta do chão, ou ainda, ao radome, protecção esférica de certos radares, como o da Graciosa afecto à investigação.
Agora, mais próximo, eram estas as imagens que recolhia num primeiro momento.
Esta possibilidade que a peça formalmente nos confere, de lhe atribuir diferentes imagens, leituras e semelhanças com outros objectos do nosso imaginário, no fundo diversas interpretações, retiram-lhe dignidade e a identidade que deveria assumir.
Afinal era uma apresentação tridimensional de uma praça pública que a Câmara Municipal da Ribeira Grande, quer construir em terreno a norte do Arquipélago Centro de Artes Contemporâneas.
É reconhecida a qualidade que o Arquipélago encerra, quer nos conteúdos, quer na forma exemplar da reabilitação que lhe assistiu.
Edifício outrora fabril, de grande dimensão, todo revestido a pedra, que lhe confere enorme presença, esteve fechado durante largos anos, até ser adquirido e reabilitado pelo Governo Regional mediante projecto de arquitectura objecto de Concurso de Ideias exemplar, razão da qualidade que hoje ostenta.
Conhecido o destempero urbano vigente, na defesa do edifício, a Secretaria Regional de Cultura adquiriu o lote existente a norte entre aquele e a Estrada Regional, aí projectando uma ampla praça pública, que o complementa e que no seu silêncio o deixa respirar.
Daí para norte, atravessada a estrada regional, e na continuação daquele, em faixa que se prolonga até ao muro que limita a falésia, localiza-se a nova praça denominada “Praça do Emigrante”, que na sua manifesta dissonância, pelo ruído que ali introduz, rompe o silêncio, o desejável equilíbrio e continuidade, que a unidade de linguagem nos ofereceria.
No desenho urbano, tal como na arquitectura, não basta juntar boas intenções, e cimentar um conjunto de técnicos e “artistas” para daí advir, o que se possa pensar ser um projecto.
Até no futebol se percebe que a equipa, não é um amontoado de jogadores, mas uma escolha criteriosa de onze e que se constrói ao longo do campeonato, e tantas vezes deitando alguns deles fora, sob orientação férrea do treinador.
Ora aqui, não foi o que aconteceu:
- Um arquitecto (coitado!), para “tecnicamente” colocar na bandeja o amontoado de ideias exteriores, não nascidas em equipa, nem à sua mesa de dentro para fora, porque lhe foi retirada a coordenação e impostos os jogadores.
- Um “coordenador”, que será apenas um coleccionador de ideias soltas, mal feitas, mas deslumbrado com uma qualquer influência.
- Um “escultor”, escolhido pelo desempenho anterior daquela peça algures, noutro contexto, que eventualmente, fará toda a diferença, vista e assumida pelo coordenador como boa para também aqui ser aplicada.
- Um “designer” para o desenho de pavimentos que confessa, que aquele não era ser o seu desenho, mas que foi o que recolheu melhores boas vontades... consenso comum (de quem?).
- E um “mealheiro” que se enche com dádivas que suportarão a construção, mas que tolhem movimentos. 
Não podia dar certo!
Esta ideia da divisão estanque do trabalho, da segmentação das especialidades, tão actual, associada à imposta falta de coordenação e de tempo para o projecto, que não gera a articulação das ideias e a sua sedimentação, tem facilmente originado um pouco por todo o lado os objectos abstrusos a que Manuel Graça Dias se referia.
A solução, ausente de ruído, passaria por um concurso de ideias de arquitectura, tal como o do Arquipélago, assumindo no seu programa a conveniente continuidade e conferindo-lhe tempo para a gestação.
Mas não se quer, porque exige ideias, tempo e saberes de parte a parte:
- Um Programa adequado ao sítio, que encerre os objectivos da Câmara Municipal da Ribeira Grande.
- A qualidade do Projecto, fruto da equipa projectista, do tempo de maturação, e perfeito entendimento do Programa.
- A qualidade da execução construtiva do Projecto.
O horizonte pedia silêncio, que o Arquipélago agradecia, e nós apreciaríamos, e nunca a bola branca no tabuleiro branco!

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Categorias: Opinião

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