Face a Face - Madalena San-Bento

“O desafio é continuar a fazer tudo sem os meios suficientes” na Biblioteca Pública de Ponta Delgada

Correio dos Açores: Descreva os dados que o identificam perante os leitores!
Madalena San-Bento: Nascida nos Açores, onde também vivi, pelo menos a maior parte da minha vida; tenho três filhos.

 Fale-nos do seu percurso de vida no campo académico, profissional e social?
Tenho o curso de História, vertente científica, fui professora do segundo ciclo até há dois anos atrás, leccionando várias disciplinas do currículo, ligadas à minha formação.
Paralelamente sempre desenvolvi actividade literária e colaboração cultural com instituições, colóquios e periódicos.

Como se define a nível profissional?
Sou uma pessoa bastante activa, essencialmente pelo imenso prazer de aprender coisas de temática variada e pela curiosidade que me leva sempre ao envolvimento. O meu motor profissional sempre foi, de facto os desafios.

Quais as suas responsabilidades?
Todas as que qualquer ser humano deve aceitar para si mesmo: respeito pela integridade em si e nos outros, absoluto empenho e esforço para a competência. O que pode resumir-se em justificar a oportunidade de vida que lhe foi dada.

 O que pensa sobre a família de hoje?
A família de hoje é uma entidade que, apesar de tudo, nos identifica. Ela terá o valor que sempre teve se soubermos adaptar a realidade do mundo actual a ela e não o contrário; é tanto uma realidade como também uma escolha, portanto.

 Quais os impactos mais visíveis do desaparecimento da família tradicional?
Esta é uma questão demasiado complexa para ser tratada aqui, onde é forçosa uma síntese, mas eu diria que o impacto mais negativo é quando se transformam em famílias de coabitação e o mais positivo quando se transformam em famílias de identificação.

Qual a sua opinião sobre a forma como a sociedade está a evoluir?
O aspecto mais dramático é a constatação de que o ser humano seja a única espécie capaz de trabalhar para a sua destruição, de forma tão afincada quanto a que coloca na sua sobrevivência. Nenhuma outra espécie faz tal coisa.

Que importância têm os amigos na sua vida?
Uma importância capital, já que, por um lado, são os únicos seres em relação a quem podemos escolher construir relacionamento, intimidade e, por outro, porque é com o relacionamento que nos completamos, aprendemos e nos realizamos.

Para além da profissão que actividades gosta de desenvolver no seu dia-a-dia?
Todas as que contribuam para uma experiência forte a diversos níveis; todas as que sirvam para descobrir coisas que surpreendam de forma positiva o meu corpo e o meu espírito. Têm muito a ver com sair, conviver, saborear o mundo mental e sensorial.

Que sonhos alimentou em criança?
Ser uma princesa dos contos de fadas e estar sempre rodeada de magias.

O que mais o incomoda nos outros?
A falta de humildade e de empatia.

Que características mais admira no sexo oposto?
A capacidade de se emocionar genuinamente e de ser autêntico.

Gosta de ler? Diga o nome de um livro de eleição?
Gosto tanto de ler que jamais terei um único livro de eleição – o mais fantástico da literatura é ser uma fonte diversa e inesgotável que espelha a riqueza do trajecto humano, interno e externo.

Como se relaciona com o manancial de informação que inunda as redes sociais?
Da única forma que julgo sensata: selecciono o que me possa servir e não compactuo com exposições desnecessárias, nem para mim nem sobre os outros.

 Conseguia viver hoje sem telemóvel e internet? Quer explicar?
Hoje não conseguiria, se estivermos a falar no conjunto onde me tenho de inserir, profissional e socialmente, são utensílios imprescindíveis para operarmos em nível de igualdade com os outros; mas seria algo perfeitamente possível se todos nos víssemos privados deles.

Costuma ler jornais?
Sempre, primeiro por necessidade profissional, depois por curiosidade natural.

O que pensa da politica? Gostava de ser um participante activo?
Já fui o que julgo considerar esta pergunta um participante activo, se bem que eu considere, nas sociedades actuais, sermos todos inerentemente participantes activos. No fundo, tudo é política, quer se goste quer não: políticas económicas, sociais e culturais, são o modo como o poder instituído ou a massa pensante aborda determinados aspectos da realidade em determinados contextos. Aspectos que é imprescindível discutir.
Neste sentido a política é natural e necessária; enquanto manobra de grupos ou indivíduos é vazia e supérflua. Às vezes torna-se mesmo nociva.

Gosta de viajar? Que viagem mais gostou de fazer?
Gosto de viajar, pela tal dimensão experiencial e de reconhecimento do que é diverso, de que falava, embora não tenha muitas oportunidades de explorá-la; gostei muito, por exemplo, de ir ao Brasil, cuja abordagem física e humana é muito mais diferente da nossa do que poderíamos supor à primeira vista, mas precisaria de mais tempo para absorvê-lo. África, por qualquer motivo, sempre foi para mim uma miragem…

 Quais são os seus gostos gastronómicos? E qual é o seu prato preferido?
(Isto interessa a alguém?)… Gosto de várias coisas. Muito mais salgados do que doces. E sou fanática por pão…

Que notícia gostaria de encontrar amanhã no jornal?
Que por um sucesso inexplicável o poder e a riqueza no mundo haviam amanhecido redistribuídos de forma absolutamente equitativa… e assim teriam de permanecer.

Se desempenhasse um cargo governativo descreva uma das medidas que tomaria?
 Esclarecer a população de forma verdadeira. e simples acerca das questões que mais directamente a afectam. Privilegiar  medidas que reforçassem o nível cultural geral.

Qual a máxima que o/a inspira?
 O amor incondicional pelos seres e pela vida, não conhece doses máximas recomendadas, excepto para o amor próprio, que só é necessário, o quanto baste….

 Em que Época histórica gostaria de ter vivido?
O que eu gostaria mesmo era de poder viajar por quase todas as épocas, excepto pela Idade da Pedra…

 Que responsabilidades tem a Directora da Biblioteca Pública e Arquivo de Ponta Delgada. Qual é o seu dia a dia?
Mais uma vez, não é possível descrevê-los aqui – são quase todos os dias trabalhosos e alguns a abeirar o caótico, porque se trata de uma Biblioteca e Arquivo Regionais, com inúmeras valências… há serviço burocrático, necessidade de planeamento, acompanhamento aos funcionários e ao público, decisões e criatividade… Porém considero que a nossa missão, para além de preservar da melhor forma possível o património da população, é também a de a aproximar afectivamente deste património, procurando abordagens apelativas. É ainda a de contribuir para o nível cultural geral da população que serve, com acções objectivas de esclarecimento e aproximação para todos os grupos sociais e etários.

A Biblioteca Pública e Arquivo de Ponta Delgada tem vindo em crescendo a surgir com novas actividades para atrair públicos. Estão a vencer este desafio de abertura à sociedade? Gostaria de ver uma maior conexão da sociedade com a Biblioteca?
Estamos a vencê-lo, sim, até porque não esperamos resultados estrondosos e imediatos, uma vez que quando se fala de mentalidades e hábitos sociais e culturais isso não existe. Mas sentimos uma resposta mais participativa que é estímulo para insistir na abordagem que escolhemos.
É óbvio que o meu desejo, o da BPARPD em si, aquilo que um dia a realizará por completo, será uma ligação estreita e quotidiana entre a população integral e o ambiente que lhe podemos proporcionar. Já vemos um vislumbre disso, mas há mais a fazer para que a população responda em conjunto com hábitos bastante participativos.

São várias as colecções de obras que tem na Biblioteca. Aponte as que queira distinguir e porquê?
Não quero distinguir nenhuma: a riqueza desta instituição reside na variedade, quantidade e qualidade do seu material; pretendo, como já referi, torná-lo cada vez mais conhecido daqueles a quem pertence -  o povo dos Açores, e até dos estrangeiros que beneficiarão em conhecê-lo. Temos proveniências de livrarias particulares assim cedidas, colecções Históricas, aquisições do governo para a Região, testemunhos familiares, institucionais e comerciais, assim como livros de toda a sorte, raros ou simplesmente actuais e importantes, tal como uma colecção arquivística de documentos que constituem a nossa caminhada, a nossa identidade.

Que colecções de obras mais significativas gostaria de ter na Biblioteca Pública e Arquivo de Ponta Delgada e ainda não tem?
Gostaria de sensibilizar todos aqueles que detêm, por acaso ou conscientemente, pedaços importantes da nossa cultura e História conjuntas que uma instituição como a BPARPD é a-política e intemporal: ela existe com a função de servir o património comum e portanto está completamente preparada para esta função, algo que nos ultrapassa a todos nós.

Quem mais procura o espaço de leitura da Biblioteca?
Jovens em época de estudo, investigadores, leitores assíduos de jornais, crianças e famílias em actividades alternativas. Já há, felizmente, um mundo bastante extenso de frequentadores habituais, mas gostaria que as escolas, sobretudo a partir do terceiro ciclo e secundário, aproveitassem melhor as oportunidades que lhes oferecemos; temos actividades, exposições e iniciativas que poderiam ser muito mais formativas do que uma simples aula, que por vezes não têm resposta.

Existe uma zona da Biblioteca, com novas tecnologias, para públicos jovens e menos jovens. Qual a adesão da sociedade a este espaço? E o que mais procuram?
Nesta zona em específico, procuram a visualização de filmes, a internet ou actividades em geral nos computadores.

 Quase todos os serviços estatais se queixam de falta de meios humanos e de mais recursos financeiros. E, no caso da Biblioteca Pública e Arquivo de Ponta Delgada, necessitaria de mais meios humanos e mais financiamento?
Há sempre necessidade de recursos humanos e materiais numa instituição que preserva a memória secular do arquipélago, o que se traduz em metros e metros de prateleiras, depósitos de livros e arquivos, um património que está sempre a crescer e que está sempre a ser descrito e tratado; um local onde se atende quotidianamente leitores, se apoia a investigação, se cede e coordena espaços para eventos externos e se organizam intervenções, exposições e actividades para um diálogo constante que anime o público a usufruir e intervir.  
No entanto o desafio é continuar a fazer tudo isso sem os meios suficientes.- nós lutaremos sempre por atingi-los, mas no entretanto continuamos com total empenho.                                  

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Autor: João Paz

Categorias: Regional

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