29 de setembro de 2019

Entre o passado e o futuro

Vida e morte das empresas

Quando a sua morte foi anunciada, já sem fármaco nem tratamento possível, tinha quase duzentos anos, atravessara 3 séculos e era, provavelmente, a mais antiga empresa do Mundo no seu ramo de atividade. Um verdadeiro colosso empresarial. Conseguira integrar toda a cadeia de valor da área de negócios que desenvolvia: operador turístico, gestor de uma frota de mais de uma centena de aviões, de resorts espalhados pelo Mundo inteiro, com sucursais em vários continentes. Vinte e dois mil trabalhadores, cerca de dezanove milhões de clientes. Revolucionara as viagens, inventara o “pacote de férias”, industrializara a operação turística. De seu nome, Thomas Cook. Foi vítima precisamente do que a tornara grande: a inovação nas viagens. Ironia do destino… aconteceu com ela tinha demonstrado que a inovar se crescia.
No momento em que fechou a portas, seiscentos mil clientes estavam a iniciar ou completar programas turísticos com ela contratados. A todos apanhou de surpresa. Ficaram desamparados, sem saber como regressar a casa e a expensas de quem. Só ingleses eram cerca de cento e trinta mil, muitos deles ainda esperam meio de transporte que os reconduza ao local de origem, governo e companhia de seguros que os conforte. Um membro do governo inglês disse que era a maior operação de repatriamento jamais feita em tempo de paz. Um número muito elevado de operadores turísticos, em Portugal - no Algarve e na Madeira -como noutros países fazem agora contas sobre o volume dos prejuízos e de lucros cessantes decorrentes.
Era uma grande empresa. Mas já não suficientemente relevante para que governo ou Estado lhe quisesse deitar a mão, impulsionasse o seu equilíbrio financeiro e lhe permitisse perspetivar um futuro melhor. Ninguém se mostrou interessado no seu resgate nem os credores financeiros que lhe recusaram o empréstimo necessário nem os acionistas entre os quais se encontra a Fosun, investidor chinês que em Portugal participa expressivamente em setores tão importantes como a saúde, a banca e os seguros. Todavia, os efeitos negativos que a sua queda produzirá na economia são extensos, mas não tão preocupantes como os que desencadearia a insolvência de um banco de grande porte. 
Thomas Cook não acompanhou a evolução tecnológica nem cuidou suficientemente das decorrentes consequências sociais e económicas, que a atingiriam e acabariam por a conduzir à falência.  Foi vítima das plataformas eletrónicas. Desvalorizou a “internet”,o uso que dela faz a nova geração o qual tende a ser cada vez mais amplo e exclusivo, designadamente quando pretende viajar e passar férias. Desprezou igualmente a concorrência muito agressiva dos emergentes operadores “low-cost” que não comercializavam “pacotes de férias”, mas respondiam pelo expressivo e rápido crescimento do transporte aéreo de passageiros. Segundo o Centre for European Policy Studies (CEPS), as companhias “low-cost”, como a Ryanair e a Easyjet praticam preços mais baixos do que as operadoras tradicionais, em média 40% menos nos percursos internacionais e cerca de 20% nos domésticos. 
Em minha opinião, terá ainda sido, porventura, a primeira grande vítima do Brexit: quem arriscaria a assumir a responsabilidade desse grande operador turístico inglês em tempo de afastamento da União Europeia com todas as incertezas e todos os constrangimentos que o rompimento europeu desencadeará: a reposição das fronteiras terrestres, a forte redução da liberdade de movimento de capitais, os condicionalismos repostos ao estabelecimento de empresas estrangeiras, ao exercício de profissões liberais e à circulação de pessoas. O Reino Unido irá enfrentar tempos muito difíceis. Atrás deste sinal negativo, que já é muito forte, outros virão e outros mais a seguir.
Tudo à face da Terra, mesmo os elementos que compõem o universo celeste em que ela se integra, cumpre um ciclo de vida, mais ou menos longo, mas inexorável: nascimento, crescimento, consolidação, declínio e perecimento.  
 

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Categorias: Opinião

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