1 de outubro de 2019

Paradoxos eleitorais madeirenses

São deveras paradoxais os resultados das eleições para a Assembleia Legislativa da Região Autónoma da Madeira, realizadas no Domingo 22 de Setembro. 
O PSD Madeira foi o partido mais votado e portanto reconhecidamente vencedor; no entanto, perdeu a maioria absoluta, que foi seu timbre durante 43 anos. O PS alcançou o melhor resultado de sempre e varreu para fora do Parlamento Regional uns quantos partidos, incluindo o Bloco de Esquerda, que lá tinha representação há várias legislaturas; apesar disso, perdeu as eleições, porque não conseguiu destronar o PSD e essa era a sua aposta decisiva. O CDS perdeu mais de metade do seu Grupo Parlamentar, ficando reduzido a 3 Deputados; mas, como está a caminho de finalmente chegar ao poder, em coligação com o PSD, festejou o resultado obtido como se de um verdadeiro triunfo se tratasse. O PCP elegeu um só Deputado  e, tendo percebido a força do apelo ao voto útil no PS no eleitorado tradicional da esquerda extremista, deu-se por satisfeito.
Alberto João Jardim, forte das suas sucessivas vitórias com maioria absoluta, não foi nada meigo nos comentários ao resultado eleitoral do PSD Madeira. Resta-lhe agora assistir às negociações, para a celebração de um acordo de coligação, do partido que liderou durante décadas com o seu histórico rival, representante da” Madeira Velha”, como ele dizia. Mas é possível que as circunstâncias tenham levado os actuais dirigentes regionais do CDS a mudarem de posição em matérias fundamentais.
Vai ser uma experiência interessante de observar, a negociação do acordo, a formação do Governo Regional e sobretudo a prática posterior da governação.  O PSD Madeira está habituado ao exercício de um poder maioritário e agora tem de provar a sua capacidade de adaptação a um quadro bem diferente. Não conheço os programas eleitorais de governo dos dois partidos, mas é natural que tenham conteúdos divergentes, que agora vai ser preciso harmonizar, com cedências de um lado e doutro.
Irá o CDS fazer-se caro e exigir muito para viabilizar a coligação? Não me parece, tanta é a sua vontade de chegar finalmente ao exercício do poder regional. Corre já que reclama as pastas da Agricultura e do Turismo no próximo Executivo. É natural que Miguel Albuquerque consinta em fazer-lhe a vontade.
O grande problema de uma coligação deste tipo é os dois partidos começarem a estimar-se tanto que se tornem parecidos um com o outro. Foi o que aconteceu com a ex-PAF. O PSD e os seus dirigentes ao tempo ficaram como que magnetizados pelas inegáveis qualidades políticas e pelo charme pessoal do líder do CDS. Em pouco tempo ambos já dificilmente se distinguiam e até para muitos o PSD passou a ser a Direita, o que contraria a matriz ideológica do partido e o legado fundacional de Francisco Sá Carneiro.
É de esperar que os social-democratas madeirenses estejam atentos a tal risco e mantenham bem viva a identidade própria do PSD, de resto tão vincada pela longa liderança de Alberto João Jardim. Tal preocupação é muito oportuna, especialmente quando se generaliza a adesão à Social-Democracia, que agora é até proclamada por dirigentes do Bloco de Esquerda, para não falar do PS, que começou por a rejeitar expressamente, em nome do preferido socialismo democrático, considerando-a mesmo, nas palavras do seu líder parlamentar na Assembleia Constituinte, a “ante-câmara do fascismo”… É caso para dizer aos novos entusiastas: Bem-vindos, finalmente, à Social-Democracia, à sua razoabilidade e equilíbrio, à testada eficácia das suas propostas programáticas!
O caso da Madeira ainda vai dar que falar, mais ainda se correr mal, isto é, se os dois partidos coligados se desentenderem, não assegurando, como lhes compete, a estabilidade governativa. O CDS podia ter optado por facilitar o sonho alternativo, juntando-se ao PS e ao partido Juntos pelo Povo. Ao aproximar-se do PSD Madeira assumiu responsabilidades, que tem de levar até ao fim.
Quem também ficou mal colocado com os resultados das eleições regionais madeirenses foi o líder nacional do PS António Costa. Ele tudo fez para que o PS ganhasse as eleições e afinal perdeu. Em alguns aspectos talvez tenham sido mesmo ultrapassados limites no envolvimento do próprio Governo da República na promoção da candidatura socialista. Se com a desejada vitória na Madeira se esperava um empurrão para a obtenção da tão desejada maioria absoluta nas eleições legislativas nacionais, a dinâmica criada afinal é de sentido contrário. E isso quando ainda nem se sonhava que iria rebentar a bomba do processo do roubo das armas dos paióis de Tancos, que é claramente um caso de relevância política e eleitoral, e da mais alta!

(Por convicção pessoal, o Autor 
não respeita o assim chamado
 Acordo Ortográfico.)   
 

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Categorias: Opinião

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