3 de outubro de 2019

O Estado Pródigo

Por muito que os responsáveis políticos venham com eufemismos, a realidade é que o Brexit não só vai ter impactos gravíssimos, como a integridade da União Europeia está inteiramente dependente dessa mesma severidade.
Esta saída é irreversível. Não só por uma questão de coerência do sistema, mas também porque tem por base uma vontade popular, expressa por um referendo. E esvaziar o valor do referendo é assumir, por inerência, que certos mecanismos dos sistemas democráticos, alegadamente materializadores da livre vontade popular, são fachadas. Perigoso.
Os países europeus estão a virar para os extremos. Aliás não só os europeus. Basta verificar o status quo do outro lado do Atlântico. Os extremos, quer para a direita como para a esquerda, aproveitam-se destes episódios de fragilidade, para se fortalecerem, e afirmarem, perante a opinião pública, que se vai fartando da escassez de soluções.
Com acordo ou sem acordo, o Reino Unido vai passar pela porta de saída e o impacto não só vai ser desastroso para todos nós, como na verdade é impreterível que seja, sob pena de muitos países tomarem também essa via de futuro. 
Mesmo que o desastre económico não ocorra naturalmente, irá desenrolar-se artificialmente. Ninguém está muito preocupado em evitar uma crise, porque na verdade ela é entendida como desejável. Uma crise moderadamente esmagadora é o dissuasor perfeito para os que ficam e ponderam sair. E não são tão poucos quanto isso. E os responsáveis europeus têm essa noção.
Se não houver consequências negativas da invocação do Art.º 50º do Tratado de Lisboa, quer para os estados-membros individualmente como para a União Europeia em geral, nada evita que aqueles saiam nem esta de os convencer do contrário. Porque se não for melhor estar dentro que estar fora, a existência de uniões, confederações ou federações, não se justifica.
Muitos falam da repetição do referendo, que é, na verdade, o início da única forma de reversão da situação - mas não da saída. Há de facto uma irreversibilidade, pelo que deve haver uma reflexão exclusivamente sobre os passos seguintes.
Um novo referendo é a única opção viável. Mas o ato só poderá ser realizado após o processo de saída, e sofridas as consequências. Se não, porá em causa a democracia, abrindo mais um caminho para os radicalismos.
Novo referendo para quê? Para viabilizar uma futura, nova, aliás renovada, adesão do Reino Unido à União Europeia. Algo tão sem precedentes como o Brexit. O Reino Unido sai. Assiste e reage, com a Europa do outro lado, ao que der e vier. Perceciona na prática, como já percecionou na teoria, que sair foi um erro. E finalmente procede a um novo referendo, repetindo o pedido de adesão à União, com a mesma legitimidade democrática com que se consumou a saída. E a União, se não quiser implodir, não só o acolhe como o celebra.
Tal como na parábola do “Filho Pródigo” (Lc 15: 11-32), aquela em que um filho pede a sua parte da herança ao pai, abandona a casa, desbarata a sua fortuna, mas depois retorna e é acolhido, ainda que com alguma renitência dos irmãos que se mantiveram em casa, a ressurreição do Reino Unido e a salvação da Europa estão numa saída com consequências e um regresso para braços abertos. 
Portanto, a ser um inferno, ironia do destino, muito provavelmente, a solução terá que ser bíblica.
 

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Categorias: Opinião

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