Face a Face...! com Telma Silva, Directora do Museu de Vila Franca do Campo

Os alunos em dificuldade nos Açores podem beneficiar dos museus

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Telma Silva (Directora do Museu de Vila Franca do Campo) - Tenho 36 anos, sou natural do Porto e vim para São Miguel há 10 anos.

Fale-nos do seu percurso de vida no campo académico, profissional e social?
O meu percurso académico esteve sempre ligado às artes e à cultura. Ingressei no ensino secundário na Escola Secundária Soares dos Reis, especializada em ensino artístico – equivalente à António Arroio, em Lisboa, – onde contactei com diversas áreas artísticas, tais como, a história da arte, a cerâmica, o teatro, o desenho, entre outras. As minhas verdadeiras amizades começaram a firmar-se nesta escola, sendo que as minhas amigas do peito, que conto pelos dedos das mãos, ainda são destas andanças, já lá vão 20 anos. Depois, sem saber exactamente qual o curso que queria, acabei por fazer a licenciatura na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, em Artes Plásticas – Escultura, sendo que, durante os cinco anos em que lá estive, sabia perfeitamente que não havia de ser escultora. Como me achava e acho bastante polivalente, não conseguia definir uma só paixão profissional. Gostei muito do que lá aprendi (e do que vivi!) nomeadamente na área da cerâmica, antropologia cultural, sociologia da arte, etc., mas tinha noção que findos esses cinco anos, tinha de prosseguir os estudos afinando e seleccionando um caminho em que me imaginasse a desenvolver uma carreira.
Um pouco cansada do ensino artístico e de artistas (risos), encontrei na Faculdade de Letras da Universidade do Porto um Curso Integrado de Estudos Pós-Graduados em Museologia. Nesse momento senti aquele “estalar”, este curso proporcionava-me a possibilidade de trabalhar em várias frentes, a cultura e o património, a comunicação, a sociologia e ainda, continuar com muita da bagagem que tinha trazido das Belas Artes. Esses dois anos do curso foram muito importantes para mim, porque já com outra maturidade, foquei-me em estudar e aproveitar ao máximo esta aprendizagem. O segundo ano do curso possibilitava escolher entre estágio (curricular) ou mestrado (tese). Nesta fase, eu optei por estágio porque queria muito trabalhar na minha área. Desde o terceiro ano da faculdade que fui trabalhadora estudante e queria muito conseguir uma oportunidade de entrar no mercado de trabalho dirigido para o meu perfil. Assim, a vontade era tanta, que acabei por fazer dois estágios curriculares, no Museu de Serralves e nas Reservas Municipais da Câmara Municipal do Porto. Acabado o curso, através do meu marido (açoriano) surgiu a oportunidade de vir fazer um estágio profissional em São Miguel, no Museu Carlos Machado, e assim aqui cheguei, cheia de vontade de trabalhar! Em São Miguel, realizei o Curso de Mestrado em Museologia, com um trabalho dedicado ao pintor micaelense Domingos Rebelo.

Como se define a nível profissional?
Essa questão é dúbia, porque eu posso dizer o que eu considero que me define e não corresponder exactamente à realidade, mas na minha óptica, penso que sou uma pessoa esforçada, responsável, criativa e perfeccionista. 

Quais as suas responsabilidades?
Actualmente, dirijo o Museu Municipal de Vila Franca do Campo, que para quem não sabe, é formado por diversos núcleos museológicos, dispersos pelo concelho, o que dificulta a minha gestão. No entanto, tenho sempre em atenção as prioridades. Neste momento, realizamos um inventário retrospectivo de todo o espólio do museu e tentámos criar uma base de dados digital, melhoramos os espaços expositivos com linguagem acessível e bilingue, conservamos e acomodámos os objectos em reserva com o material e equipamento que dispomos, tentando preservá-los da melhor forma. Temos dinamizado o museu com diversas actividades no âmbito do Serviço Educativo. As visitas às exposições são sempre orientadas por colaboradoras do museu. Temos também ateliers e workshops com regularidade, promovendo e divulgando o museu, o património e as tradições do concelho. Lembro-me do exemplo, alusivo ao São João da Vila, onde realizamos este ano, um dia comemorativo com diversos grupos de visitantes, que envolveu a comunidade e instituições da Vila, resultando numa dinâmica muito boa e original. 
Também realizo, com a regularidade que me é possível, trabalho de campo junto da comunidade, as recolhas sobre o Património Cultural Imaterial. Sendo um Museu Municipal, esta comunidade através da sua história, cultura e tradição, é o meu objecto de estudo e também, a ser verdade, para quem se dirige o meu trabalho. Recebemos muitos turistas, mas a minha preocupação é que os vila-franquenses se revejam no museu, porque o que aqui se faz é uma interpretação deles mesmos.
O Roteiro das Olarias, também é trabalhado no âmbito do museu e, por isso, tenho desenvolvido muito trabalho de investigação e de dinamização nesta temática, o que para mim é fantástico, porque sou aficionada por esta arte. Organizo projectos pontuais, em que são convidados artistas que vêm desenvolver workshops no museu – Cristina Borges, Emília Guimarans e João Carqueijeiro – e projectos regulares, como a “Olaria Aberta” que decorre semanalmente e a “Roda Gira”, para grupos com marcação prévia.
Tenho muitos projetcos em andamento, mas com algumas pontas soltas até que fiquem no ponto de serem apreciados pelos públicos. 

Como descreve a família de hoje e que espaço lhe reserva?
A família de hoje? Ou a minha família? 
Por motivos geográficos, sinto-me muito distante das minhas origens, apesar da facilidade com que, actualmente, podemos ir ao Continente, nunca é suficiente. A minha família nuclear, a família que tenho criado, marido e filhos, além do trabalho, são as minhas ocupações. A partir do momento em que os filhos nascem, as saudades das nossas raízes aumentam, porque sabemos que a distância não permite os almoços de domingo em casa dos avós, o convívio regular com os primos e o apoio quando necessário. Felizmente, tenho um marido que é um pai incrível e que me dá espaço para me concentrar no trabalho e ficar em silêncio quando necessário.

Quais os impactos mais visíveis do desaparecimento da família tradicional?
Para mim esse impacto é inadiável e necessário. A família tradicional tem muito, ou pouco, que se lhe diga. Cada ser humano tem os mesmos direitos e deveres, nesse sentido, nem sequer me apetece prolongar sobre este assunto. Sofre-se muito em segredo e felizmente/finalmente as mentes estão a libertar-se do tradicionalismo/condicionalismo.  

Qual a sua opinião sobre a forma como a sociedade está a evoluir?
Ainda existe muita pobreza de espírito e enquanto assim for, teremos sempre uma sociedade em desarmonia. Enquanto não vivermos e remarmos todos para o mesmo bem COMUM, não me parece que esteja a evoluir num bom sentido. É difícil criar crianças, sabendo que lhes transmitimos bons valores, mas que na verdade, se querem sobreviver, não se podem guiar por eles.

Que importância têm os amigos na sua vida?
Muita importância! Estão longe, mas eu sei que estão lá e, por vezes, isso é suficiente, outras vezes não, e aí é chato…

Para além da profissão, que actividades gosta de desenvolver no seu dia-a-dia?
Quando é possível e o cartaz cumpre, gosto de ver um bom filme no cinema, de relaxar em esplanadas e ver uma boa série em casa. Tenho tentado ir ao ginásio, mas não é porque eu goste, é porque tem de ser.

Que sonhos alimentou em criança?
Achava que seria mais fácil “mudar o mundo” e acabar com as injustiças. Acreditava que era especial e poderia vir a fazer a diferença, depois passou-me isto tudo e a normalidade soou-me muito melhor e menos cansativa.

O que mais o incomoda nos outros?
A mentira.

Que características mais admira no sexo oposto?
A honestidade, o sentido de humor e a perseverança. 

Gosta de ler? 
Não leio tanto como devia, portanto, não ando muito actualizada. Recordo-me de ter gostado de “Se numa Noite de Inverno um Viajante” de Italo Calvino e “Mulheres” de Charles Bukowski.

Como se relaciona com o manancial de informação que inunda as redes sociais?
Ultimamente, tenho andado mais pelas redes sociais, mas também tenho bloqueado muitos conteúdos que me faziam indisposta! Eu lido normalmente bem com tudo o que me é imposto, porque o meu pragmatismo leva-me a ter sempre o bom senso de não pensar com a cabeça dos outros.

Conseguia viver hoje sem telemóvel e internet? Quer explicar?
Não conseguia, nem me parece necessário explicar. O telemóvel e a internet, actualmente, são uma continuação da nossa existência, é triste, mas é verdade.

Costuma ler jornais?
Em diagonal, excepto o que me pede atenção.

O que pensa da politica? Gostava de ser um participante activo?
Não tenho muita paciência. Acaso me envolvesse mais activamente, penso que ia andar sempre irritada. 

Gosta de viajar?  
Gosto sim, penso que qualquer pessoa gosta! Engraçado que já visitei alguns destinos muito interessantes em outros continentes, mas agora que pergunta, lembrei-me da viagem à Ilha de Santa Maria este ano, foi uma simbiose de trabalho e família, que muito me agradou e surpreendeu.

Quais são os seus gostos gastronómicos? E qual é o seu prato preferido?
Não tenho prato preferido, mas o bacalhau, nas suas variantes, é sempre muito bem-vindo.

Que notícia gostaria de encontrar amanhã no jornal?
Notícia de última hora: a partir deste momento as pessoas nascem e conservam até à morte o respeito ao próximo. Pronto, estavam metade dos problemas do mundo resolvidos.

Se desempenhasse um cargo governativo descreva uma das medidas que tomaria?
Esta questão é difícil, porque nunca me equacionei nessa função. Apesar de não ser do meu território, gostaria de intervir na justiça portuguesa. Vejo muita incoerência que necessita de destreza, firmeza e objectividade para diminuir o tempo, que se espera e desespera, até que a justiça aconteça. 

Qual a máxima que o/a inspira?
“Quem nós somos não pode ser separado de onde viemos”, de Malcolm Gladwell.

Em que Época histórica gostaria de ter vivido?
Não gostaria de trocar, mas a ser obrigada, escolhia os incríveis e revolucionários anos sessenta.

Que responsabilidades tem a Directora do Museu de Vila Franca do Campo? Como é o seu dia-a-dia?
Nunca tenho uma rotina definida no museu. Normalmente, quando chego, passo os olhos pelos emails que carecem de resposta, se não tiver nenhuma reunião, fico no meu gabinete a organizar as actividades e os projectos que tenho em mãos. Posso estar a fazer investigação sobre objectos do espólio do museu, que precisam de informações para serem expostos, posso elaborar desenhos para museografias ou cartazes, produzir conteúdos informativos, estabelecer contactos e pedir orçamentos para desenvolver determinado projeto, entre tantas outras coisas, como ir a casa de alguém analisar peças que pretendem ser doadas ao museu. Num dia calmo e bom, tento ir à olaria pôr as mãos na massa, para explorar ideias que mais tarde possam ser recriadas em ateliers destinados às crianças, orientadas pelas colaboradoras do museu.

Quem visita o Museu de Vila Franca do Campo? Gostaria de ver uma maior conexão da sociedade com o Museu?  
Tratando-se de um Museu Municipal, tem de partilhar a tutela com todos os outros serviços camarários. Dessa forma, é relativamente normal que ainda não tenha os recursos ideais, necessários para conseguir realizar tudo o que se gostaria, ou o que se pretende de um museu contemporâneo. Inúmeros projectos existem, em que os museus saem às ruas e vão ao encontro da sua população. Ainda assim, dentro das nossas limitações, temos conseguido, cada vez mais, aproximar os públicos ao museu, percebemos isso através das redes sociais e da comunicação social, cada vez mais interessadas em nos conhecer. Esta crescente procura é perfeitamente observável nas estatísticas mensais, onde registamos o número dos visitantes.
O que mais atrai os visitantes no Museu de Vila Franca do Campo? Aponte três aspectos do Museu que queira distinguir?
Actualmente, temos muitos visitantes que vêm, propositadamente, à Vila Franca todos sábados, para participar e conhecer o projecto Olaria Aberta, que funciona na Olaria Museu (antiga tenda do mestre António Batata) e é um dos nossos núcleos museológicos mais visitados. Penso que também devemos distinguir e sublinhar a importância dos achados arqueológicos do nosso museu, que materializam a história do terramoto de 1522, a Subversão da Vila e dos Açores como ponto estratégico no comércio transatlântico dos séculos XV e XVI. Para finalizar, distingo o espaço sede do museu, importante Património Cultural Imóvel, é característico pela sua arquitectura referente ao Ciclo (ou economia) da Laranja. Designa-se por Solar Viscondes do Botelho, tem um torreão com vista panorâmica sobre a Vila e provém da linhagem de Gonçalo Vaz Botelho, fundador de Vila Franca do Campo, a primeira capital micaelense.

Que obras mais significativas gostaria de ter no Museu e ainda não tem? Pode explicar?
Estamos em processo de concretização do Roteiro das Olarias, que irá ser dinamizado por nós. Estou confiante que este irá trazer muitos benefícios ao museu e ao concelho. O que gostaria de ter no museu e ainda não tenho, é a reabilitação do edifício em frente ao solar. A Casa Botelho de Gusmão, antigo edifício do Museu Municipal, está degradada e, por isso, diminui substancialmente o espaço expositivo que disponho. Revalorizando este espaço, iremos também criar reservas museológicas apropriadas.

O Museu de Vila Franca do Campo tem todos os meios de que necessita para estar aberto e ser atractivo para os visitantes? O que falta?
Ainda não consegui chegar a todos os núcleos.A minha gestão, como expliquei anteriormente, não se centra num espaço único. Actualmente, tenho-me dedicado mais ao edifício sede, onde estão patentes as exposições permanentes e às olarias. Tenho em andamento um projeto para a Hidroelétrica da Ribeira da Praia, e depois, a seu tempo, a Moagem São José, na Ribeira Seca, que tem estado abaixo na lista das prioridades urgentes. 

A Secretaria Regional da Educação e Cultura deveria dar mais atenção a museus como o de Vila Franca do Campo? 
Ora bem, toda a atenção é e seria positiva! Porque nos museus pratica-se uma educação não formal, que em muito poderia beneficiar o ensino regular e os alunos com dificuldades em se enquadrarem na metodologia standard. No entanto, face ao imbróglio que está o ensino, não tenho ilusões. Talvez num futuro longínquo e perfeito, existam de facto resultados concretos em benefício de ambas as partes, sem títulos pretensiosos de jornais e números em estatísticas. Apenas com pessoas/crianças que levam dos museus ferramentas e aprendizagens que lhes permitam ser e estar melhor em, e com a sociedade.

Tem algo mais que queira acrescentar no âmbito desta entrevista?
Penso que já muito foi dito. Agradeço o convite.

                                                          

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Autor: João Paz

Categorias: Regional

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