Fernando Neves, Delegado nos Açores da Associação de Hotelaria de Portugal

“Acredito que a Delta vai continuar a operar para os Açores mas o que aconteceu é um bom exemplo do que não deve ser feito”

 Correio dos Açores - Qual o balanço que faz deste Verão 2019, em termos turísticos?
Penso que o resultado final pode ser considerado positivo. Nós continuamos a ter algum crescimento e a consolidar. A procura continua bem. A nossa imagem continua boa e penso que, a nível de Verão, os resultados foram muito positivos.

As unidades hoteleiras tiveram ocupações de que ordem? Uma média de 70%?
Durante a época alta, as ocupações ultrapassaram os 70%. Isto nos meses de Julho, Agosto e Setembro.

O que correu menos bem neste Verão?
A nível de oferta, se calhar, o facto de não conseguirmos elevar a sua qualidade. Esta é uma área em que temos que ter alguma preocupação e algum objectivo de melhorar nas várias áreas, quer na restauração, como no serviço de hotelaria. Devem ser criadas novas experiências e novos serviços junto dos clientes. Penso que este é o caminho que nós temos de percorrer.

Tem esperança de que isso vai acontecer, de que vamos ter mais qualidade?
Se nós conseguirmos resolver alguns problemas básicos, como ter mais recursos humanos, se houver uma atenção especial na formação, teremos possibilidade de lá chegar. Nós temos, efectivamente, potencial nos Açores para ter serviços de qualidade e alguma diferenciação.
Temos que ter possibilidade de melhorar e não estar só satisfeitos com a quantidade. Temos que ter alguma preocupação em qualificar a nossa oferta não só na restauração, nos serviços, nas infraestruturas turísticas, os miradouros, entre outros pontos. É muito importante que isso aconteça. 

É preciso ter mais cuidado com os nossos maiores pontos de interesse turístico…
Os nossos pontos turísticos estavam preparados para uma ocupação muito reduzida. Por exemplo, os nossos miradouros principais estavam preparados para receber poucos turistas. Com o ‘boom turístico’ a partir de 2015, as coisas não continuaram iguais. Passaram a ficar superlotados, passando a ter pouca qualidade. O caso das Furnas tem sido, ultimamente, muito falado. Não foram tomadas as devidas medidas para que houvesse condições para receber muitas mais pessoas do que se recebia no passado e, por isso, é que há todos aqueles atropelos, aquelas enchentes, muitos carros. O turismo é algo que se planeia a prazo. Tem que ser planeado, tem que ser perspectivado e nós temos que fazer as alterações necessárias com tempo.
Temos que fazer alterações e planear para mais turismo?
Se vamos e estamos a crescer, nós temos que nos preparar para isso. Antes que haja mais turistas, temos que estar preparados. Porque, senão, há sobrecargas, há falta de qualidade de produto, e há falta de condições nos nossos pontos de interesse turístico. Lembramo-nos bem de quantas pessoas iam à Lagoa do Fogo e agora vemos quantas lá vão. Multiplicou-se ‘n’ vezes o número de turistas nos pontos turísticos. Dá uma imagem de muita “mais carga” do que efectivamente existe.

A Delta vai voltar aos Açores

A situação da Delta fragilizou um pouco o nosso turismo?  
É um exemplo do que pode acontecer. É evidente que o mercado americano é um mercado importante, que está a crescer e muito. Neste momento, representa o segundo mercado estrangeiro que traz mais visitantes ao arquipélago. A curto prazo, passará até para primeiro mercado. E nós temos de nos preparamos melhor para receber estes mercados. Se não ficam satisfeitos, podem ter que procurar outros lugares porque hoje é tudo global. Essas grandes companhias vêm para os Açores e se não vierem para cá, têm outras alternativas onde as suas operações podem ser muito mais rentáveis. 
Temos que ser melhores para termos mercados como o mercado norte-americano?
Sim, temos que ser melhores a nível de serviços. Somos muito bons nos produtos, temos uma beleza exuberante, temos condições naturais únicas. Mas temos que associar isso a alguma qualidade que seja compatível a essa qualidade que temos de produto e que possamos oferecer aos turistas.

Acredita que a Delta vai continuar nos Açores?
Nisso sou positivo. Acredito que Delta vai continuar. Mas isto deverá servir como exemplo para o futuro, para darmos uma boa resposta a outras situações. O que temos de fazer, seja a Delta ou outras companhias, é aumentar a sua vinda no arquipélago e tenho esperança que a Delta possa voar para cá no Inverno e temos que corresponder às expectativas para que os turistas voltem cá e que recomendem os Açores.

“Devemos corresponder
às expectativas de
todos os operadores”

Temos dezenas de operadores ligados ao destino Açores, tendo contratos com hoteleiros. Põe-se a hipótese de a hotelaria açoriana, nomeadamente a micaelense, sofrer com a falência de um ou dois destes operadores?
É evidente que isso tem sempre repercussões. Não será uma repercussão dramática porque nós (Açores), felizmente, não temos nenhum operador que tenha uma percentagem demasiadamente grande do mercado como aconteceu com a Thomas Cook no Algarve que faliu recentemente. 
Há operadores que trabalharam com os Açores e que já faliram. Tinham algum peso na Inglaterra e deixaram marcas, mas a situação é dinâmica e vai-se alterando. Penso que nós temos condições aqui para ultrapassar situações semelhantes. Claro que é preferível que não aconteçam e que possamos corresponder, sempre, às expectativas de todos os operadores e de quem nos visita. E é esse o trabalho que tem que ser feito: prepararmo-nos…

Não corremos o risco de algum desmoronamento no turismo?
Neste momento, não acredito nisso. Penso que os Açores são suficientemente conhecidos e há um índice que é muito válido e muito importante: a grande maioria, (mais de 70% dos turistas que nos visitam), vêem as suas expectativas iniciais ultrapassadas. As pessoas ficam surpreendidas pelo que encontram.

“Há turistas repetentes 
que vem cá com alguma 
regularidade…”

E há mais turistas a regressar?
Há turistas repetentes, que vem cá com alguma regularidade e visitam as outras ilhas e, por isso, é que houve um crescimento nessas ilhas, como o Pico e a Terceira. Este é um sinal de que há uma harmonia no crescimento turístico. Há uma ilha que, infelizmente, não tem crescido tanto como devia que é Santa Maria. Deve haver um plano muito especial de revitalização e também trabalhar as acessibilidades e a oferta de produto. Mas na generalidade, todas as outras ilhas tiveram um crescimento interessante e muitas delas cresceram mais do que São Miguel, e ainda bem. Santa Maria está ali um pouco ao lado e é a ilha que necessita que haja, efectivamente, um olhar muito especial e que se ataque o que tem limitado o seu crescimento. 
Santa Maria é uma ilha diferente, tem muito para oferecer em várias áreas, como o mergulho, a gastronomia, as praias. Tem potencialidades que é preciso aproveitar para que também possa beneficiar desse crescimento turístico que tem havido um pouco por todo o arquipélago. 
 
Tem uma ideia da percentagem de turistas que chegam aos Açores através da internet?
Nós temos, quer a nível de promoção, quer a nível de empresas, apostar mais mo mercado digital porque todos nós fazemos uma reserva rapidamente no nosso telemóvel quer seja para férias, hotéis ou viagens. O grande instrumento que cada um tem hoje em dia é o digital e é através do seu computador ou do seu telemóvel que faz as suas reservas. E nós, mesmo a nível de promoção, temos que começar a participar mais. Creio que essa adaptação de promoção já está a ser feita. A nova direcção da ATA – Associação de Turismo dos Açores está preocupada com esta área e tem os seus objectivos no sentido de que cada vez se aposte mais no digital. E, eventualmente, reduzindo muito as promoções em outras áreas mais tradicionais.

O plano que trava grandes hotéis

Foi um dos responsáveis pelas alterações ao Plano de Ordenamento Turístico nos Açores. O que muda neste plano?
O que está para ser aprovado agora é o POTRAA – Plano de Ordenamento Turístico da Região Autónoma dos Açores. Penso que é um bom instrumento que vai ser aprovado ainda este ano e implementado em finais de 2019, inícios de 2020. É um plano que tem a preocupação da sustentabilidade. É fundamental podermos manter, nos Açores, as condições que temos para a nossa oferta ter qualidade no futuro. 

É um plano que trava os grandes hotéis?  
Penso que o Plano se adapta às nossas necessidades, à nossa dimensão e às nossas características. Nós não temos aqui na região grandes características nem condições para ter grandes hotéis. Não é isso que quer o nosso turismo de natureza. As ofertas que estamos a fazer para mercados que têm preocupações ambientais e de preservação não se concretiza com grandes unidades hoteleiras. E o POTRAA define isso, claramente, quer nos grandes centros, quer nos meios rurais.
Estão definidas as capacidades de cargas, os índices de crescimento turístico. Nas alterações, estão previstas intervenções quando esses índices forem demasiadamente alterados. Portanto, penso que temos em mão um instrumento válido para podermos contar que o turismo vai continuar, no futuro, a ter as boas condições que tem neste momento.

O PROTA aponta para hotéis até 150 camas…
Sim, hotéis de 150 quartos nos meios rurais e admite hotéis de 300 quartos nas cidades.
Vê o crescimento do turismo nos Açores sem a STA Internacional/Azores Airlines? 
Como uma pessoa positiva e como acredito muito no turismo dos Açores, penso que não deve haver nada que impeça o desenvolvimento e o crescimento do arquipélago. E a SATA, no seu todo, é um instrumento fundamental na acessibilidade para todas as ilhas. Mas Santa Maria sofre um pouco no que se refere na acessibilidade interna, ou seja, as ligações inter-ilhas. 
É evidente que o turismo nos Açores sem a Azores Airlines não seria a mesma coisa e entendo que é fundamental que a SATA se organizasse e criasse condições para cumprir os seus objectivos que é também viabilizar e reforçar a oferta turística dos Açores.

Quais as previsões para este Inverno, ou seja, para a época baixa?
Não estou muito positivo. Penso que vamos ter algumas dificuldades neste Inverno.

Porque diz isso?
Se calhar por causa da oferta, do mercado. Possivelmente, teremos algumas estagnações. Espero que não haja algum retrocesso. Os preços, se calhar, vão baixar um bocado.

E isso deve-se a quê?
Talvez por uma falta de dinâmica na oferta, na promoção do Inverno. Também nesta fase que decresce a oferta de acessibilidades e, portanto, quando estas diminuem, aumenta a sazonalidade. 

Utilizando um dito popular, ainda não se “agarrou o touro pelos cornos”?
Nós ainda estamos numa fase de crescimento e aprendizagem. Mas há que haver mais investimento na promoção. O turismo, hoje, já representa uma grande base na nossa economia, muitas centenas de milhões de euros, muitos postos de emprego. Tem que ser olhado nessa importância. Não direi que o turismo será o principal sector da economia. Mas para lá caminha e ainda bem. O turismo dinamiza todos os outros sectores, é transversal. 

O seu amigo Jorge Rita (Presidente da Federação Agrícola dos Açores) não vai gostar muito de o ouvir dizer isso…
Ele devia gostar que eu diga isso porque o turismo também é uma forma de aumentar o consumo dos produtos hortícolas e dos lacticínios. O turismo dinamiza o comércio, os serviços e, naturalmente, por maioria da razão, os produtos da agricultura e os lacticínios. É notório que todos os turistas gostam de levar ananás consigo e, por esta via, o ananás atingiu preços inimagináveis, como 10€ ao quilo. Sabemos a procura que o queijo tem e toda a gente quer levar um queijinho. Com o turismo, temos estas vantagens. Não é só o facto de as pessoas levarem. É também o hábito e se calhar vão promover os produtos que consumiram na exportação, nas grandes superfícies e no pequeno comércio, em Portugal Continental e no estrangeiro e começa a habituação e a procura dos produtos dos Açores. Temos essa vantagem: o consumo imediato dos nossos produtos e também a promoção destes produtos nos locais onde os turistas residem.
Por natureza, é um optimista embora tenha admitido que a época baixa não vai ser boa para os Açores.
É uma questão de condições. Não é uma questão de positivismo ou negativismo. O positivismo é válido quando trabalhamos no sentido de se concretizar as perspectivas positivas. E estou com algum receio. Espero estar enganado, mas creio que este Inverno não vai ser dos melhores dos últimos anos.

Contudo, a tendência do turismo nos Açores é para crescer de ano para ano.
Temos muita capacidade de crescimento. O índice turístico é muito baixo se compararmos os Açores com outras regiões.
                                                  
                                   

João Paz/Rita Frias
 

Print
Autor: CA

Categorias: Regional

Tags:

x
Revista Pub açorianissima