Já quiseram comprar todo o verdelho dos Biscoitos e os produtores não quiseram para que a ilha não ficasse sem o vinho

Desde 2010 que Francisco Maduro Dias é o Grão-Mestre da Confraria do Vinho Verdelho dos Biscoitos e tem vindo, junto com os restantes confrades, a tentar levar cada vez mais gente a provar, a gostar e até a produzir o vinho Verdelho. Um vinho que nem sempre foi apreciado, principalmente devido ao seu sabor, mas que agora tem vindo a ganhar mais apreciadores. “O Verdelho é uma casta que tem uma uva com uma película muito fina. É cultivado muito ao pé da água do mar, o que quer dizer que basta haver um bom temporal de ressalga, de Norte, e o Verdelho fica com alguma salinidade. Quando as pessoas vão à procura de vinho branco, estão habituadas a ter uma coisa leve, até adocicada e não um vinho que é tudo menos isso”, explica Francisco Maduro Dias. Por isso era muitas vezes misturado com o terrantez da Terceira e os produtores, ao fazerem essa mistura “ainda aguavam mais e a força e qualidade do Verdelho monocasta ficava diluída. Mas ia-se ao encontro do gosto não educado das pessoas, em vez de explicar às pessoas porque é que o vinho sabia assim”. 
O Grão-Mestre da Confraria do Verdelho acrescenta que “qualquer prato efectivamente forte, que muitas vezes passamos para o tinto porque é o tinto que se aguenta, o Verdelho acompanha” e dá o exemplo do bife de pimenta, da alcatra, do bife com malagueta ou um bacalhau com bastante alho. 
Neste sentido a Confraria começou a tentar passar às pessoas esses ensinamentos. “Se a nossa riqueza é o Verdelho, que pratos se arranjam para aquele vinho e não o contrário”, refere Francisco Maduro Dias que acrescenta que “temos de explicar como se bebe para não começarem a dizer mal, porque nós não gostamos que digam mal de uma coisa que gostamos”. 
Daí nasceu a junção do Verdelho com a carne de touro, que também “normalmente não é bem vista, tal como o Verdelho”. Recorda que em pequeno “quando aparecia um bife que era estupidamente duro que parecia sola, alguém dizia que era de algum touro”. No entanto, esclarece que a carne de touro até pode ser “mais limpa de atributos civilizacionais” já que o touro é um animal “muito menos estabulado, que é menos tratado a rações, é um animal que vive muito mais livre na pastagem selvagem e a carne é mais saudável, digamos”. 
A Confraria foi então procurar parcerias para esta “missão” e conseguiu junto do restaurante da Associação Agrícola da Ilha Terceira encontrar quem juntasse os dois elementos, tão típicos e tão culturalmente ligados à Terceira, e fez-se recentemente um almoço.
“Foi um almoço muito interessante. Com um fillet mignon que estava a derreter na boca, com bifes que estavam fantásticos e toda a gente que foi para lá um pouco a medo, a pensar que era sola de sapato. Efectivamente tivemos uma carne que se desfazia, grelhada, apenas com sal, em que o Verdelho se aguentou perfeitamente porque a carne tem um sabor forte, o Verdelho também um sabor forte e casaram perfeitamente. E toda a gente no fim disse que era uma experiência para repetir”, recorda.
Mas a Confraria “não é um restaurante”, mas sim uma “organização que tenta abrir janelas e salientar valores. Mas gostávamos que um ou dois restaurantes começassem a pensar que o touro não é só para a tourada à corda nem para a tourada de praça, que também serve para ser comido. É de uma injustiça ter um touro e não o enquadrar devidamente na nossa gastronomia”.
O objectivo, daqui para a frente, passa por abrir as ditas janelas e tentar arranjar mais restaurantes que possam ver potencial na carne de touro. “Chegámo-nos à frente, divulgámos a possibilidade, tentámos por as pessoas a falar umas com as outras para seguirem e agora vamos tentar outra vez encontrar outro lugar onde se possa por vinho Verdelho na mesa e diante dos olhos das pessoas”.

Vinho com mais qualidade
Esta experiência gastronómica também só foi possível, garante Francisco Maduro Dias, porque o vinho Verdelho também está a ser produzido com mais qualidade. “O vinho tem muito mais qualidade agora do que quando a Confraria começou”, avança Maduro Dias que refere que “há mais gente a produzir com mais higiene, mais gente a cuidar mais do bago de uva que recolhe, isto também melhorou. Se gostamos de vinho, o vinho também tem de ser bom. Não basta dizer “bebam”, adianta.
E essa qualidade também se reflecte no interesse de outros mercados no Verdelho. “Há mais gente a conhecer o Verdelho, o preço das garrafas tem subido, para mal dos nossos pecados”, diz entre sorrisos já que houve casos de produtores que “tiveram de se segurar porque houve alguém que queria comprar a produção toda, e a ilha deixava de ter vinho. E o vinho ia para Boston, Toronto, Porto ou Paris. Mas a Confraria também tem de ter um bocadinho de orgulho desta terra e os produtores lá se seguraram um bocadinho”. Para Francisco Maduro Dias “é interessante saber que há gente a querer estes vinhos. E provavelmente a mesma coisa acontece noutros casos. Mas temos tido muito boas surpresas de alguns produtores de referência a serem contactados e arriscávamo-nos a não ver um rotulozinho de Verdelho todo o ano por aqui. E é bom que isso seja dito, para quem tenha alguma terra volte outra vez a olhar para aquilo, não como uma coisa penosa, mas como uma coisa que dá trabalho e custo mas que é muito saboroso”.
E isso tem vindo a acontecer. Têm havido alguns novos produtores, mas “sobretudo acrescentando Verdelho, embora haja um ou outro que tem feito umas tentativas diferentes”. São geralmente produtores que querem acrescentar produção àquela que já têm “e temos tido alguns produtores que claramente estão a apostar no Verdelho e o vinho tem melhor qualidade”. 
Mas Francisco Maduro Dias alerta que a Confraria de Vinha Verdelho dos Biscoitos não é representante dos produtores, “é um grupo de gente que gosta e procuramos manter uma relação intermédia com todos porque nós gostamos. Temos de ir junto dos restaurantes e lembrar para não se esquecerem daquele vinho, temos de ir junto das autoridades para dizer que aquele vinho existe. E quando alguém pergunta o que é que se faz com aquele vinho, procuramos exemplificar”, refere.
O Grão-Mestre da Confraria fica no entanto algo descontente quando vê, na Terceira, usar-se outro tipo de vinho para assinalar momentos solenes. “A Presidência do Governo já por várias vezes usou o Verdelho dos Biscoitos como Verdelho de honra, ouve-se falar de um Porto de honra ou um Pico de honra no Pico ou no Faial. Agora, sendo os Biscoitos uma Região Demarcada, é um bocado complicado na Terceira usar-se um Moscatel ou um Douro ou Pico, quando temos o nosso Verdelho”, desabafa.
Acredita que tem de ser a Confraria a “lembrar” que existe o Verdelho os Biscoitos, embora reconheça que “há outras coisas pelo meio”. E enumera “a quantidade produzida não é muito grande, os preços e os valores que estão em causa muitas vezes são diferentes. Quando se quer fazer uma festinha simpática de comemoração de alguma coisa, às vezes é mais fácil arranjar um outro vinho que é mais barato. Isso tudo também se não estivermos sempre a chamar a atenção, devagarinho as coisas vão escorregando para o habitual, e deixa-se de ter a noção exacta do que é que se está a fazer quando se escolhe um determinado vinho para receber alguém ou um determinado prato, quando se recebe alguém. Achamos que é muito importante garantir que o Verdelho exista e que faça de maneira consciente parte da noção que toda a administração e todas as pessoas têm da sua identidade. É muito importante que a administração tenha a noção da importância deste tipo de produtos, é muito importante que quem discute questões de economia e de desenvolvimento sustentado pense nisso”, alerta.

O trabalho da Confraria
Grão-Mestre desde 2010, Francisco Maduro Dias recorda que a Confraria não é uma associação de produtores mas antes “uma organização privada, de gente que gosta de vinho, de gente que tem a sua vida espalhada de maneiras diferentes na sociedade e o que os une é exactamente o lado do gostar de vinho em geral, e que a viticultura em termos históricos, culturais e paisagísticos é uma mais-valia”.
A Confraria do Vinho Verdelho dos Biscoitos tem vindo a comemorar, “de maneira mais consistente”, o Dia europeu do Eno-Turismo em que se tenta “discutir a questão do vinho e da viticultura”. Além disso tem promovido alguns jantares “onde o Verdelho é o rei da festa”.
Acabada de comemorar 25 anos de existência, a capacidade de esforço tem sido a tónica dominante. “Nós não somos uma autarquia, não somos uma organização partidária, nem uma organização ligada a estruturas tradicionais da comunidade e é fácil, às vezes, sermos o tal elo de ligação intermédio em que ninguém é forçado a sair do seu espaço de conforto e como estamos ali podemos servir de plataforma”, explica Maduro Dias que revela que a Confraria é constituída “por gente com uma grande capacidade de esforço, com uma grande abnegação porque é tudo feito fora das horas de serviço e à custa das chamadas horas livres”.
A Confraria gosta de dizer que se coloca no meio da sociedade “de forma às pessoas saberem que queremos ajudar. Que não nos vejam como um objectivo em fim, mas um objectivo intermédio para que as pessoas ao verem que nós existimos, que podemos ajudar, estivessem abertas às nossas propostas”.
Por isso, em conjunto com a Associação Regional de Turismo e com a Câmara do Comércio e Indústria de Angra do Heroísmo, a Confraria elaborou um desdobrável temático “com um olhar para a ilha Terceira sob o olhar da vinha e do vinho, que passa pelo património cultural, natural, paisagístico, histórico e património gastronómico”. Tudo para que o Verdelho não desapareça e para que volte a aparecer na mesa dos terceirenses e açorianos. E para que se divulgue este património que a Confraria do Vinho Verdelho dos Biscoitos teima em querer enobrecer para que as castas regionais sejam vistas como uma mais-valia para a Região.

                       

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Autor: Carla Dias

Categorias: Regional

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