“Filhos da Comunidade” é um projecto social pioneiro em São Pedro

Correio dos Açores: Como surgiu o projecto “Filhos da Comunidade”? E com que objectivo?
Solange Vieira da Ponte: Os “Filhos da Comunidade” é um projecto que nasceu na freguesia de São Pedro há sensivelmente 3 anos. Tem como finalidade promover a sinergia entre a saúde física e mental, o desenvolvimento orgânico e social e visa o incremento junto da comunidade, de hábitos sócio desportivos, da motricidade em geral e das capacidades motoras e mentais. Pretende trabalhar a inclusão social e a intergeracionalidade através dos diferentes programas que oferece.

Por quê esta designação?
Esta designação surgiu espontaneamente por mim. Havia a intenção de estruturar um projecto que englobasse toda a comunidade. Enquanto o projecto se encontrava na fase de concepção, “fez-se luz” para o nome. Na realidade, todos pertencemos, somos “filhos”, de uma determinada comunidade/sociedade/local, e com este projecto é esperado que todos possam envolver-se nas modalidades e nas práticas que oferecemos. 

Quantas pessoas estão envolvidas neste projecto?
O projecto tem vindo a sofrer algumas alterações, ao longo dos anos, relativamente às pessoas envolvidas. Inicialmente, começou com mais dois promotores para além de mim, neste caso, com o Filipe Alegria e o Hugo Oliveira. Actualmente, apenas eu é que estou na gestão e na coordenação do projecto. Na parte da dinamização das aulas das crianças e jovens, tenho contado com a colaboração do Rafael Silva (breakdance e afrodance) e do Abel Martins (modalidade breakdance). Também, não posso deixar de referenciar os voluntários, que são incansáveis: Nuno Reis, Delfina Ponte, Márcia Silva e Carolina Raposo. Têm colaborado activamente para tornar possível a dinamização das actividades.
Em relação ao público posso dizer que, ao longo destes 3 anos, uns foram ficando, outros saindo, e já passaram pelo projecto cerca de 250 pessoas. 

Para quem se destina este projecto? E quais as faixas etárias?
O projecto, sendo intergeracional, foi desenhado inicialmente para abranger todas as idades. Porém, desde a sua implementação até hoje, e por falta de verbas, só conseguimos abrir 5 dos 7 microprojectos: para crianças e jovens, para casais, para as senhoras, um para os senhores e por fim as aulas de dança contemporânea. Actualmente, e por considerarmos bastante útil no contexto onde intervimos, eu e o Rafael Silva temo-nos dedicado essencialmente ao projeto das crianças e dos jovens de forma voluntária. 
Então, “abrirmos portas” a partir dos 7 anos de idade. Durante este Verão de 2019, foram imensas as solicitações de pais e mães e de profissionais de instituições para abertura de vagas e de inscrições. Conscientes da necessidade, decidimos abrir “espaço” para duas turmas: para a turma “Kids” (7-10 anos) e turma “Juniores”, a partir dos 11 anos (até aos 15 anos). 
Abrimos as inscrições na semana passada e esgotamos as vagas! Ficamos contentes e satisfeitos e com a missão de que “estamos a cumprir o nosso dever: oferecer aulas de dança a todos os que nos procuram!”. Esta semana, tivemos a reunião oficial com todos para o arranque desta época de dança. Uma boa notícia: serão dois jovens, que são simultaneamente alunos, que darão as aulas às turmas, com a nossa supervisão, claro. E isso vai ao encontro dos objectivos deste projecto, que é o facto de, proporcionarmos oportunidades aos jovens que se empenham e que têm competências para estarem “na linha da frente das aulas”. 
Para além destas duas turmas “Kids” e “Juniores” iniciantes, já temos um grupo de dança: os Soul Stealers. Este grupo é dividido em Kids, Juniores e Old School Stealers e são praticantes já com alguma experiência e preparados para irem a espectáculos, festivais de dança, workshops e eventos temáticos. Já têm e apresentam imensas competências artísticas, pessoais e sociais para a participação comunitária.

Como foi a receptividade?
Tem sido boa e gratificante para nós! Sendo um projecto de cariz social e comunitário, temos conseguido tornar visível a nossa acção através do envolvimento e participação dos pais, familiares e restante comunidade e ainda na criação de parcerias com entidades locais, instituições particulares de solidariedade social, casas de acolhimentos de menores, entre outras. 

Falando em parcerias, que entidades envolveram-se no projecto?
Ainda bem que fala nisso! Temos de agradecer aos apoios e às parcerias que temos conseguido até hoje porque sem eles jamais teríamos conseguido realizar o projecto. Por isso, é nosso dever agradecer e referir os apoios: do Governo Regional dos Açores, através de candidatura ao Programa de empreendedorismo social “Jovens +”, da Direcção Regional da Juventude, da Junta de Freguesia de São Pedro, da Câmara Municipal de Ponta Delgada e do Centro Social e Paroquial de São Pedro. 
Em termos de parcerias, temos actualmente com a Valência do Centro de Atividades e Tempos Livres do Instituto de Apoio à Criança – Açores, Lar de Acolhimento de Menores “Casa o Gaiato”, para integração de crianças e jovens no projecto.  

Quais crêem ser os maiores problemas que existem na freguesia de São Pedro e que poderiam estar resolvidos? E por que motivo o projecto está sedeado nesta freguesia?
Em relação à freguesia de São Pedro, assim em traços gerais e sociais, em algumas zonas da freguesia, existe o problema da toxicodependência, a problemática da gravidez na adolescência, violência no namoro, por exemplo. 
Tivemos consciência de, antes de procedermos à concepção do projecto, realizar um diagnóstico, isto é, fomos identificar as principais necessidades existentes na freguesia de São Pedro. Fizemos mesmo um “trabalho de terreno” junto de várias instituições locais e de alguns residentes para perceber que “lacunas” a sociedade não estaria no momento a dar resposta. 
“Mas porquê na freguesia de São Pedro?”. A resposta é muito simples: perante a realidade social de São Pedro. Por ser uma das maiores freguesias da Região Autónoma dos Açores em termos populacionais, por apresentar grandes discrepâncias a nível económico-social, pelo facto de os ATL’s sedeados no contexto abarcarem crianças até aos 12 anos de idade, ficando as restantes sem respostas, e ainda a ausência de projectos de intervenção local e com carácter de continuidade. 
O projecto, para além das aulas práticas, tenta ir de encontro às necessidades e à realidade da freguesia e dos jovens e para isso tentamos, ao longo do ano criar parcerias com instituições para incutirmos valores sociais e alargarmos a nossa oferta formativa. Uma importante parceria feita foi com a Academia Gulbenkian do Conhecimento da Universidade dos Açores, para a minha qualificação enquanto mentora na área da criatividade. Tenho dinamizado sessões formativas nesta área com os jovens, para que sejam jovens mais capazes de resolver problemas, criativos e com sucessos em várias áreas da vida. Outra, por exemplo, com a UMAR-Açores para dinamização de acções preventivas sobre violência no namoro com a enfermeira Liliana Janeiro, que recentemente dinamizou um workshop de inteligência emocional- teatro das emoções para os jovens, aulas de nutrição, entre outras. 
Mas com a nossa intervenção, temos incutido nas crianças e jovens valores sociais, como o sentido de responsabilidade, respeito, partilha, coesão grupal, participação individual e colectiva. A nossa sede é no pavilhão multiusos da Junta de Freguesia. 

Deveriam existir mais projectos deste género para uma maior envolvência da comunidade?
Sem dúvida… Até em outras áreas e indo de encontro às realidades da freguesia! Também, de forma mais geral, e tendo em conta os dados regionais, questões como a pobreza, a exclusão social, a discriminação social, entre outras, têm estado “na ordem do dia”. Acho necessária a igualdade de oportunidades e isto pode ser possível na estruturação de projectos locais, continuados no tempo e inovadores.
Mas, através da “Associação de Juventude Aprender A Viver”, da qual faço parte, juntamente com uma equipa multidisciplinar, estamos a trabalhar para dar algumas respostas nestas áreas. Fiquem atentos à nossa página!

Que impacto é que os “Filhos da Comunidade” têm ao nível social e cultural?
Em termos de impacto, posso dizer que o Projecto “Filhos da Comunidade” é pioneiro no que diz respeito à sinergia entre a saúde física e mental. Existem imensos ginásios que trabalham a componente física é verdade, mas e a componente mental? É esquecida. Por exemplo, num ginásio ou numa instituição, quem é que se preocupa se determinada criança é desatenta, se tem problemas de atenção e de concentração? É uma criança irrequieta? O projecto procura ter em conta as necessidades individuais dos sujeitos e as mesmas são tidas em conta aquando da integração da pessoa na modalidade. Para além das aulas motoras, damos aulas de estimulação cognitiva e técnicas de relaxamento. 
Devido às alterações do projecto, informamos que as aulas são gratuitas para todas as crianças e jovens que se identifiquem com a nossa missão e que queiram estar ocupados nos seus tempos livres. Gostaríamos que o projecto fosse restruturado e inserido em outros contextos como por exemplo, funcionar como um atelier em contexto escolar ou mesmo em outras freguesias. Também estamos a reestruturar o projecto para “abarcar mesmo todos”, ou seja, crianças e jovens com deficiência motora, com dificuldades cognitivas, entre outras, para poderem ter a oportunidade de praticar uma modalidade. 
Mas como já referi anteriormente, fazemos isso, actualmente de forma voluntária, e para tornar possíveis estas ideias, são necessários apoios para a concretização das mesmas. 

Qual o balanço que faz ao longo de três anos de actividade?
Como já dito anteriormente, o projeto “Filhos da Comunidade” pretende incluir todos os que queiram praticar modalidades desportivas e sócio-recreativas, sem excepções. Passaram pelo projecto, ao longo destes 3 anos, quase 250 pessoas como já referi, o que é um número significativo para nós, visto que intervimos no contexto de São Pedro. Temos consciência de que os “Filhos da Comunidade” existem com o propósito de envolver toda a comunidade pois só assim se consegue trabalhar verdadeiramente uma das finalidades do projeto: a inclusão social. Temos as portas abertas aos que se queiram aliciar a esta iniciativa, seja como praticante ou como instituição parceira, estando abertos a novas propostas ou sugestões.   

 

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Autor: Rita Frias

Categorias: Regional

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