A nossa gente (218) – Feliciano Soares

“Não temos alojamento a mais e não sou contra o aumento de hotéis, sou contra hotéis megalómanos”

De onde é natural e como é que foi o seu crescimento?
Nasci em Santa Bárbara de Santo António em 1948 e vim estudar para a Escola Industrial e Comercial de Ponta Delgada, onde fiz o curso Comercial. Como as escolas industriais e comerciais não davam acesso à Universidade, trabalhei um ano nos serviços municipais. Na altura, na parte das carnes e dos talhos que eram dependentes da Câmara. Neste ano tive explicações. Fiz os exames do antigo quinto ano do Liceu e entrei para o terceiro ciclo para fazer o então sexto e sétimo ano. Daí é que parti para Lisboa, para a Engenharia Civil.

Porque escolheu Engenharia Civil?
O meu pai gostava que eu fosse militar. E eu não achava a vida militar muito interessante. Não entendia que fosse uma vida em que se pudesse ter iniciativa e fazer coisas. Era uma vida muito condicionada.
Acabando o curso, era o tempo da guerra colonial, era logo para a tropa. Não havia espera. Acabei o curso em Junho e em Outubro de 1972 fui para a recruta, em Mafra. Felizmente, fui bem classificado no curso e escolhi Cabo Verde. Passei dois anos e meio em Cabo Verde numa comissão civil, servindo de militar. Era Alferes na mesma, ganhava pouco nas obras públicas de Cabo Verde onde tenho muitos amigos. E temos voltado a Cabo Verde.
Uma particularidade é que começamos pela ilha de Santiago. Levei logo a esposa porque era melhor ir casado do que solteiro e também havia uma prioridade na escolha da Província Ultramarina. E, portanto, foi muito bom porque o Governador mandou-me para a ilha de Santo Antão onde só havia um técnico e tive um percurso interessante que foi construir uma escola para que houvesse alunos que frequentassem o primeiro ciclo. Só havia lá a instrução primária.
Construi uma escola de quatro salas e fui professor de Matemática nas horas vagas e a minha mulher foi professora de francês. Eram apenas duas turmas. Criamos um grupo de amigos, de alunos que, depois, nos visitavam em Lisboa e que nos recebem em Cabo Verde com todo o carinho. A última vez, em que a minha mulher ainda era viva, fomos lá e não havia maneira de não chorar com as coisas que nos estavam a fazer. 

São boas memórias desse tempo…
Boas memórias, exactamente. Voltamos com frequência. O ano passado fomos lá. A minha filha Cláudia nasceu lá. Ela é cabo-verdiana, tem as duas nacionalidades sem pedirmos nada. Dão a nacionalidade cabo-verdiana desde que se tenha nascido lá sem qualquer documento. 
Logo depois de regressar de Cabo Verde, fomos para Lisboa, sem emprego, sem casa, sem nada, com uma filha com um ano. Fui procurar emprego e lá consegui um emprego numa empresa de construção onde já trabalhava um colega meu e fui ficando até entender que tinha outra opção. Era uma empresa de construção de apartamentos para venda. Portanto, não era um empreiteiro. Faltava-me esta experiência. Despedi-me e fui trabalhar para os empreiteiros, um dos quais me mandou para os Açores. Era o António Simões da Silva que estava a construir o Estádio de São Miguel. Ainda foi no meu tempo que se colocou aquela pala. Estivemos ali cinco dias das 8h00 às 24h00, sempre a betunar para que houvesse continuidade no betão. Fizemos também os acabamentos do edifício das Finanças.
No final de 1979 a empresa António Simões da Silva tinha falido no Continente. E nós tivemos que fechar portas também aqui no final do ano. Disse aos de fora que quem vier vem por sua conta porque vocês estão no desemprego e eu também. Ficamos todos desempregados.
Estamos no final de 1979. Qual era a opção? Voltar para Lisboa ou trabalhar numa empresa da Região. Eu constituí a empresa logo e, em vez de irem embora, ficaram cerca de 30 trabalhadores e não perderam um único dia de salário. Já conhecia as Obras Públicas e arranjei logo trabalho. Descofrar a pala do Estádio, trabalhos pequenos, e constitui a Cipraçor em final de Fevereiro de 1980.  
 A 1 de Janeiro de 1980 há o sismo que destrói a Terceira. Muita gente de São Miguel, mesmo sem ser pedreiros, pegaram numa pá, uma colher e um martelo e foram para a Terceira trabalhar dizendo que eram pedreiros ou oficiais da construção. Isso deixou São Miguel com poucos trabalhadores e todas as empresas de construção ficavam cheias logo. 
A Cipraçor é que foi fazendo obras e obtendo bons resultados. Tínhamos aquele terreno onde é o hotel de Ponta Delgada. E em metade do terreno fizemos as nossas instalações de carpintaria e venda de materiais. Portanto, a Cipraçor é que deu origem ao resto porque foi realizando dinheiro e foi possível começar a investir e diversificar numa área que sempre gostei, a área do turismo. A minha esposa também. E decidimos avançar para o projecto da construção do hotel de Ponta Delgada. Não era fácil aprovar projectos, mas hoje em dia ainda é pior. 
E tem uma curiosidade. É que as Obras Públicas é que detinham o pelouro do urbanismo e, portanto, a arquitectura do hotel de Ponta Delgada era aprovada pela Secretaria de Obras Públicas e Equipamentos e então o Secretário é o Senhor Américo Natalino de Viveiros. Foi ele que deu a aprovação final do Urbanismo porque a Câmara estava contra. A Câmara não queria, não aceitava a altura que queria para o edifício que era de seis pisos. Foi aprovado o projecto, começamos a construção, acabamos e abrimos metade do hotel de Ponta Delgada actual em 1993. Seis anos depois abri a outra metade. Foi o ano em que chegou a minha filha Cláudia formada. A mãe era a Directora. O filho Tiago também foi para a Escola Superior de Hotelaria e Turismo no Estoril, como a Cláudia. 
Eu ia continuando a construção e ia dando apoio e foi por este crescimento que, seis anos depois, tínhamos mais 50 quartos e achámos que podíamos ir investir – na altura, como havia poucos hotéis, ganhava-se maior margem. 
Lembro-me de uma cena no hotel de Ponta Delgada em que apareceu o arquitecto António Gomes de Menezes e o Dr. Luís Bensaude. E, à porta, estavam a dizer: “vamos ver o que este rapaz fez para aí”. Entraram e gostaram. E, se calhar, o próprio Dr. Luís Bensaude achou que, se alguém acreditava no turismo nos Açores, também ele poderia vir a acreditar. E suponho que, depois, é que avançaram com o projecto hoteleiro, comprando hotéis, comprando o antigo Seminário de Ponta Delgada.
E nós continuamos sem pressas excessivas. Quando havia capital, investíamos. Foi o caso do hotel da Povoação. 
Em Ponta Delgada começamos a comprar parcelas de terrenos para o que viria a ser o Antilia desde 1997. Eram umas estufas abandonadas que só tinham o acesso por uma ladeira e, portanto, não tinha grande interesse. Compramos esta parte barata, demos estas estufas á exploração e foi-se germinando o projecto. Entretanto, apareceu um comprador para apartamentos que a Cipraçor construiu nas Laranjeiras e quis entregar a casa como parte do pagamento. A casa era esta na Rua do Perú 105, que serviu para criar a entrada para esta zona. A seguir também apareceu alguém que tinha uma casa e um quintal na Rua do Negrão. Convenceram-nos que seria bom comprar, tinha um bom quintal e encostava ao nosso terreno. E, então, criámos duas entradas e a possibilidade de construir o hotel. Durante a construção, compramos duas casas porque os vizinhos se queixavam que tinham fendas. Mas resolvemos. Fizemos negócio: comprámos as duas casas que ficaram paradas até que houvesse a possibilidade de fazer a ampliação. Passou-se a crise de 2008 a 2014 e não havia possibilidade de nem sequer se pagar as prestações do investimento interior que se reprogramaram. Depois, a crise acabou, começaram os voos low cost e o crescimento do turismo começou a ser exponencial. Então, decidimos avançar, logo que possível, com a ampliação do Antilia onde se fez mais 20 quartos e 18 apartamentos. No total, agora, temos 92 unidades, sendo 26 quartos e o resto tudo apartamentos T1, e T2. E estamos satisfeitos com a obra feita e com a exploração familiar. Não há ninguém de fora. Era a minha esposa, eu e os três filhos. Eles interessaram-se pela continuidade e assim foi. O mais novo, o João, é que não está cá. Esteve a trabalhar em Gibraltar e está em Lisboa agora. Eu, a pouco e pouco, vou-me reformando. Reformei-me na idade certa para receber a reforma e continuo a trabalhar sem qualquer remuneração porque não vale a pena porque a reforma chega para viver. 

Quando regressou de Cabo Verde, sempre teve o bichinho de ser empresário?
Nesse momento não. Foi consequência da falência da empresa onde trabalhava foi um certo choque e as condições que se verificavam nos Açores é que me fizeram avançar. Sem qualquer dinheiro começámos a empresa e a conseguir pagar o salário aos trabalhadores que não foram embora e começámos a ganhar obras. Concorremos a obras particulares, porque obras públicas era preciso ter alvará. Fez-se uma obra que não era preciso alvará porque ninguém quis concorrer para ela e assim tivemos logo direito a pedir o alvará de construção. E fomos crescendo. 

Como era o turismo quando começou a construir o hotel Ponta Delgada?
Ninguém acreditava que os Açores tivessem turismo. Considerava-se que os Açores tinham mau tempo e só durante três meses de Verão podia haver turismo. O maior operador turístico da Região nessa altura vaticinou que o nosso hotel ia fechar ao fim de três meses, porque era atrás da “casa dos mortos” e ninguém ia querer ir para ali. Três meses depois, esse mesmo operador estava a pedir uns quartos para os seus clientes. 

Eram clientes mais exigentes do que hoje em dia?
Penso que não. As pessoas não mudaram muito. Pode haver mais exigência hoje em dia mas também há melhores instalações e quando isso acontece o cliente vai exigindo mais e temos de ir sempre melhorando e dar aos clientes o que eles querem porque agora a concorrência é muito maior e precisamos manter os nossos clientes habituais. 

Com a crise de 2008 pensou que as coisas retrocedessem?
O pensamento era só um: sobreviver à crise. A crise não ia durar sempre, embora tivesse durado bastante tempo. Era preciso sobreviver e depois voltar ao investimento, a melhorar o que se pudesse fazer. Investir muito nas reservas online, fomos sempre trabalhando nisso, sempre investindo. 
Há uma curiosidade que me esqueci de dizer. Talvez o bichinho da hotelaria tivesse nascido nas férias de Junho a Outubro de 1966, em que estive a trabalhar no Hotel Infante. Trabalhei como recepcionista e talvez tenha surgido aí, quando tinha 18 anos. Gostei da actividade porque o gerente saiu e o dono disse-me que ia ser o gerente e passei da recepção para o escritório, porque tinha formação comercial. 

Teve de tomar alguma decisão mais difícil durante a crise?
Durante a crise o difícil era pagar as prestações ao banco e os incentivos recebidos. Mas tivemos de fazer prorrogações e tivemos sempre a confiança dos bancos e do Governo. Tivemos de fazer a reestruturação dos valores em dívida por forma a podermos pagar sempre os investimentos. Não foi fácil mas conseguimos ultrapassar. Quem sofreu com isso foi a construtora que fechou. 
Mas sempre pensei que íamos ultrapassar. Sou optimista por natureza e sempre achei que as crise se ultrapassam, é preciso é sobreviver a elas.

Como vê actualmente o turismo na Região? Temos alojamento a mais?
Não temos alojamento a mais porque se todos enchem no Verão ainda há margem para aumentar. Não sou contra o aumento de hotéis, sou contra hotéis megalómanos.
Não somos a América ou França, onde há hotéis de mil quartos. Para nós, não é isso que nos interessa porque é muito impessoal um hotel demasiado grande. No hotel da dimensão do Antilia, os clientes conversam com a recepção, com os empregados do bar, das limpezas. Há tempo e uma personalização que o cliente admira muito mais. Nunca será um turismo que interessa aos Açores. O Alojamento Local apareceu em grande força, creio que no ano passado aumentou 6 mil camas, mas em todo o lado é assim. Isso não é mau, desde que haja clientes. São ofertas diferentes e o cliente é que tem de escolher. 
Estou contra o alojamento local em que se transforma o galinheiro no quintal em alojamento. Assim dá uma má imagem e os clientes vão dizer mal quando se forem embora.

Este ciclo do turismo é só mais uma fase?
Não há regresso ao passado. Vamos continuar a crescer. É preciso que as ilhas continuem a ser vistas cada vez mais como um sítio único, pelas suas belezas naturais, pela sua população simpática, e o turista admira isso. 
O nosso turismo ainda vai crescer e até temos um projecto que pode ser que avance se houver aprovação do projecto e acreditamos que não vai haver nunca um retrocesso. Dizem que as ligações da Delta Air Lines vão acabar. O que esperamos é que seja substituída por outra companhia. A própria SATA, que é pena não estar melhor para fazer esse serviço que a Delta faz. A pior crise que senti nestes longos de vida foi a de 2008 a 2014. Em 2014 a facturação do hotel Antilia, ainda só com uma parte do que temos agora, era um terço do que é hoje. Estamos no triplo dessa facturação. Também crescemos, mas foi possível avançar com a ampliação quando se acredita no mercado.

Que projecto é esse que fala?
Junto ao Forno da Cal comprámos um terreno, mas difícil é aprovar o projecto. Infelizmente ali não tem as regras de Ponta Delgada cidade, é São Roque. Para hotelaria só autorizam hotéis de três pisos. Só quando o PDM for alterado, pode ser que o novo PDM autorize uma altura diferente para investimentos. Mas não tem sido fácil. 

E novos projectos?
Para já não há. Comprámos o Hotel Colombo em Santa Maria porque havia perspectivas de desenvolvimento em Santa Maria, o que não se veio a verificar. Terá sido o meu pior negócio. Mas continua aberto, continuamos a investir e a ter prejuízo mas sempre a melhorar e a acreditar que a ilha possa voltar a crescer. Santa Maria em 2005, quando fizemos a compra, tinha mais 50% de habitantes do que tem hoje. Foi uma das ilhas prejudicadas pelas low cost, porque ficou mais barato ir a Lisboa ou ao Algarve passar férias do que ir para Santa Maria. Também há o reencaminhamento, que é interessante, mas é só por um dia. Já propus ao Governo, mas não foi aceite, que ficasse mais um dia. Se ficassem dois dias facturávamos o dobro, mas a lei não permite. Mas acho que se foi criada a noção de Ilhas da Coesão, de que Santa Maria faz parte, podia-se abrir uma excepção para as Ilhas da Coesão. Santa Maria tem voos directos semanais, os clientes podem ficar um dia e vir embora no dia seguinte. 

Estando ligado ao turismo; faz turismo?
Com certeza. No ano passado fui para Cabo Verde e para o Algarve. Vou frequentemente a Lisboa, já fiz cruzeiros, e sempre vendo como os outros fazem, para depois fazer melhor. 
Tenho viajado bastante, não viajo por obrigação. Quando me interessa um destino vou. 

Quando regressa aos Açores…
Nada como voltar a casa. O regresso até é antecipado porque alguma coisa se passou ou por causa da saudade do nosso trabalho. 

O que gosta de fazer quando tem algum tempo livre?
Gosto de dançar e vou iniciar umas aulas de dança com a minha companheira. Também gosto de cinema e tenho pena que não haja melhores filmes a vir para cá, porque raramente temos um bom filme para ir ver. Tenho uma vida pacata que me mantém activo e não me tem trazido inimigos. Que eu conheça. 

Noto que é uma pessoa bastante ponderada…
Tem de ser porque as loucuras nunca dão certo. Não me posso queixar porque tive uma boa vida e feliz. Isso é importante.

Tem netos? Como é a relação com eles?
Muito boa. Os netos adoram-me e eu a eles. O mais velho já está no 3º ano de medicina e a irmã está no Liceu. Tenho dois mais pequenos, com 10 e 12 anos. Estão sempre a querer conviver, querem que eu faça uns bifinhos que eles adoram, jogamos futebol no quintal, fazemos umas festas de Verão para a família toda. Quando os meus irmãos vêm da América juntamo-nos todos e fazemos uma festa. É muito importante ter a família unida. Damo-nos todos bem. Além de irmãos somos todos amigos.

Falou aí num bife, gosta de cozinhar?
Só sei fazer dois pratos, mas que os netos adoram. Um bife de alcatra em que compro a carne do coração da alcatra e tenho de deixar maturar no frigorífico no mínimo três dias e só depois faço os bifes. Tem um molho especial que eles gostam e comem satisfeitíssimos.
Faço também salmão grelhado, fresco e fica saboroso com arroz frito à minha moda. Mas só sei esses dois pratos. 
                       

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Autor: Carla Dias

Categorias: Regional

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