8 de outubro de 2019

Donald e Greta

Têm algo em comum, talvez único, não deixam ninguém indiferente. Seria inevitável, não suscitarem paixões, as mais diversas, paradoxais e contraditórias. Sendo a mais comum a de ódio e amor, a repulsa e adesão. Desde a mais racional à mais estúpida. Donald Trump e Greta Thunberg. Quem diria? Do Trump, vá lá, ainda se admitiria dada a sua exposição pública, mas da Thunberg, jovem desconhecida. O que terá feito?
Têm a separá-los a idade. O Donald com os seus 70 anos e Greta com os adolescentes 16 anos. A vantagem da Greta é que poderia ser neta do Donald e este seu avô, e tratá-la com aquela “atitude doce natural dos avós”. Contar-lhe aquelas histórias, que começam sempre por “ um dia minha neta saberás o que é ser avô”. E terem ficado por aqui, apenas pela relação entre um avô babado e uma neta mimada.
Comentadores, procuraram, com subtileza, fazer sobressair para o grande público, sempre ávido e preparado apenas para receber mensagens que não impliquem grande esforço racional, traços de personalidade e até de carácter de Greta, tais como a sua “fisionomia sisuda e a sua voz monocórdica”, como exemplo. Esses, sempre bem informados comentadores, pagos para serem “as vozes do dono”, os tais a quem o tema não interessa, olvidaram com propósito, que à referida adolescente, foi diagnosticado o síndrome de Asperger, forma ligeira de autismo, que “envolve problemas  na comunicação e no relacionamento social”. Contudo, especialistas, sustentam, “a determinação, capacidade de detectar mentiras com maior facilidade, ver o mundo de maneira diferente”.
Daqui, eventualmente, a razão porque o “avô” Donald estando a poucos metros da “neta” Greta na sede da ONU, procurou evitá-la não fosse embaraçá-lo com a expressão: isso que estás para aí a dizer é uma mentira, uma” fake news”, matéria na qual o Donald se especializou
Nesta mesma ocasião, no seu estilo habitual Donald desabafa, eu é que mereço o prémio Nobel da Paz, porque já ultrapassei o paralelo 38 com o Jong da Coreia e não esta menina que faltou à escola para estar aqui a “armar-se”. Quem Julga que é?    
Esta “birra” entre o Donald e a Greta, está relacionada com um tema muito sério, alterações climáticas. Que os divide. Enquanto o Donald as nega, Greta encetou uma campanha de protesto perante a falta de acção dos governantes face ao aquecimento global e o clima. Há muito a ciência vem alertando para as causas conexas como, a concentração excessiva de gases com efeito de estufa, consequência de entre outros factores à industrialização e a emanação desmesurada de poluição, derivado do consumo de combustíveis fósseis como o petróleo ou gás, assim como à queima de carvão, desflorestação, etc…
Seja como for, temos um problema, ou se calhar sempre o tivemos, que no nosso tempo se torna mais evidente, com o avanço da ciência e com as chamadas novas tecnologias disponíveis.
Se é a natureza e não a acção humana que influencia o clima, manda o bom senso, ou se quiserem, o senso comum, que nos ponhamos de acordo que existe um problema, o que se deve refutar de importante, porque mais perto se estará da solução.
Também não se deve estranhar a pluralidade de opiniões e, porque não dizê-lo, alguma conflitualidade, que em si, não é má, se se discutirem ideias e se fizerem acordos no que se pode ou não fazer. Apenas ficar-se pela negação, sem a sustentada fundamentação científica, como fez o Donald ao não assinar o acordo de Paris assinado em 2015 por 195 países, é razoável supor ser uma atitude reprovável, ademais vinda do Presidente da, ainda, maior nação do mundo.
Dispensável será mesmo a argumentação trauliteira e soez de alguns populistas, os tais que para problemas complexos têm sempre soluções simplistas.
Como publicar mensagens com imagens falsas da Greta a tomar uma refeição junto a uma janela com vista para o exterior, onde deveriam estar árvores, se viam crianças africanas sub-nutridas, ou a cumprimentar o milionário americano de origem húngaro George Soros quando a imagem se reportava a um encontro com Gore, antigo vice-presidente dos Estados Unidos e conhecido activista ambientalista. 
Daqui às inevitáveis teorias da conspiração foi um passo. Elas são que a Greta estaria a ser manipulada, desde milionários da esquerda liberal e ou internacional. Que ataca o mundo ocidental, mas é reservada em condenar a China ou a India, os dois maiores poluidores do mundo. Quem financiou a sua viagem para estar na ONU?
Há também quem ironize, com chorrilhos de mau gosto, não só atentatórios do carácter da jovem como em relação ao seu país natal a Suécia, assim como insultos ao Secretário - Geral da ONU António Guterres, que recebeu a jovem sueca na sede da organização, insultos que se estenderam aos Chefes de Estado de vários países presentes, que deveriam ter tido a coragem de convidar jovens das nações de África acossados pela fome e miséria, e não uma jovem rica dum país rico. É a tal demagogia, em que os populistas se especializaram.
Mas como sempre acontece com as grandes causas, os seus defensores, por vezes de tão zelosos, acabam por cair em extremismos e até populismos, dando autênticos “tiros nos pés” colocando-se a jeito das críticas dos negacionistas, que aproveitam todas as brechas para atacarem as causas que têm por objectivo tornar a nossa “Casa Comum” perene de vida e esperança. Neste grupo de “zelotas” radicais, podemos encontrar desde universidades e académicos, até organizações que de tanto extremar quase se fundem com aquelas outras que dizem combater, o mais não seja nos métodos e palavras de ordem. Afinal continua válido o ditado “ no meio é que está a virtude”. 
Sobre as personagens que encimam este despretensioso texto, partilha-se com gosto, assim como se subscreve, o que escreveram em recentes crónicas, dois prestigiados escritores açorianos:
 “…querida Greta, ficaste famosa pelas melhores razões, o que é muito bom nestes tempos em que tantos são famosos por irrisórias ou mesmo iníquas razões…”
“... São os homens e as mulheres, querida Greta, muito egoístas só curando do dia que passa e do seu bem - estar imediato, assim muito pouco conscientes relativamente aos problemas ambientais…”
“…É duma tremenda burrice negar as alterações climáticas, minimizar o risco das emissões de gases com efeito de estufa, considerar as evidências científicas (em matéria de aquecimento global) como fazendo parte de uma conspiração global. É esta a douta opinião de Trump…”
Obrigado Paula e Victor.
 

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Categorias: Opinião

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