8 de outubro de 2019

Paradoxos eleitorais nacionais

Os resultados das eleições legislativas nacionais de Domingo passado também tiveram, tal como aconteceu antes na Região Autónoma da Madeira, um certo conteúdo paradoxal.
O PS ganhou as eleições, inequivocamente, mas o que os seus dirigentes queriam era a maioria absoluta, que lhes tirasse de cima as arrogantes exigências do Bloco de Esquerda. Daí o combate frontal e a várias vozes contra o Bloco, durante toda a campanha eleitoral. O que agora se perfila no horizonte é uma negociação complexa dos dois partidos, visando uma solução de estabilidade para a legislatura. Ou seja, um cenário parecido com o que se tem verificado em Espanha, com a consequente paralisia das instituições, para cujo risco o PS não se cansou de bradar, pelos vistos sem sucesso.
Para encurralar o Bloco e as suas pretensões desmedidas, que podem ir até a reclamar lugares no Governo, António Costa anunciou o alargamento das negociações para uma nova “Geringonça” ao vitorioso PAN e até ao Livre, que ganha as suas esporas de ouro com a entrada no Parlamento da sua primeira Deputada, por sinal de origem africana, o que, salvo erro, é uma estreia no período democrático. As elogiosas referências feitas ao PCP, na sua modalidade CDU, vieram na lógica do discurso anterior sobre os bons e os menos bons aliados, mas noutras circunstâncias até poderiam ser julgadas cínicas, face à quebra de votação do partido de Jerónimo de Sousa e ao desaparecimento do Parlamento dos Deputados do PEV.
O PS reforça a sua posição e até conta muito mais votos do que em 2015, o que era expectável, já que então perdeu as eleições para a ex-PAF. Terá recolhido votos tradicionais do PSD? Pelo menos esforçou-se por isso, assumindo com particular vigor o tema das contas certas, sem se preocupar com a coincidência de tal temática com alguns velhos dogmas da era salazariana. Os méritos do Ministro Centeno foram exaltados ao máximo, partindo do princípio que nem todos teriam presente que o método por ele seguido para fazer boa figura perante Bruxelas consistiu em carregar nos impostos e cortar nas despesas, pondo serviços públicos essenciais à beira da ruptura, que é o que está passando com a Saúde e a Educação, já sem falar nas Forças Armadas, que nem dinheiro têm para mandar remendar as redes de protecção dos paióis e os respectivos sistemas de alarme, como se viu em Tancos, para vergonha nacional. 
Com este percurso de governação, favorecido por uma conjuntura económica europeia e mundial de crescimento, os dirigentes do PS estavam convencidos da possibilidade de uma vitória esmagadora. Foram sendo embalados por sondagens positivas, divulgadas em grandes parangonas por todo o País. A vitória teve por isso um certo sabor amargo e travou o triunfalismo exibido no começo da noite eleitoral perante estudos de opinião feitos à boca das urnas, apontando para a maioria absoluta.
O PSD perdeu as eleições, mas não foi arrasado, como estimavam alguns, que chegaram ao ponto de prever uma diferença de 20 pontos percentuais relativamente ao PS. Com alguma gesticulação excessiva e argumentos de vitimização pessoal desnecessários, Rui Rio pôde apresentar-se com um discurso de estabilidade e até com disponibilidades patrióticas de diálogo com o previsível Governo socialista minoritário, aliás de viabilidade mais do que duvidosa, mas disso havemos de falar noutra altura
Os adversários internos do actual líder do PSD estão a contar as espingardas para os confrontos que se avizinham. Mas se Rui Rio se recandidatar nas eleições directas do começo do próximo ano o mais provável é que seja reeleito. Com efeito as possíveis alternativas estão ainda muito próximas do passos-relvismo e portanto carimbadas pelo seu insucesso mirabolante na Oposição ao Governo PS e nas eleições autárquicas. Alguns críticos talvez decidam mesmo optar por aderir ao Chega, pelos vistos chegado também ao Parlamento  naquela espécie de bodo aos pobres em que consiste a atribuição dos últimos lugares no  gigantesco círculo eleitoral de Lisboa. Tenha-se em conta que o líder desse partido foi candidato a uma autarquia no período passos-relvista.
Já caminho diferente se impôs à líder do CDS, que abandonou a cena, num assomo de dignidade. De pouco lhe valeu ter recorrido ao apoio de Paulo Portas na fase final da campanha eleitoral. Muito reduzido no seu Grupo Parlamentar, o CDS fica na iminência de voltar às mãos de algum líder antigo porventura regressado.
Foi penoso ver o discurso do líder do PCP na noite das eleições. É todo um mundo que se vai esboroando perante e apesar da dedicação do próprio e dos militantes do partido.
O sonho da Aliança desfez-se, mostrando, se era preciso, que as cisões partidárias têm custos elevados. Por mim não passo certidão de óbito político a Pedro Santana Lopes. Como o gato, ele tem sete foles… Há-de voltar, antevejo, como candidato a Presidente da República, talvez já em 2021, pela direita de Marcelo, que para já continuará brilhando no alto, enquanto a nova “Geringonça” se arrasta ou mesmo se afunda nos previsíveis problemas que se avizinham.

(Por convicção pessoal, o Autor 
não respeita o assim chamado 
Acordo Ortográfico.)  
 

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Categorias: Opinião

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