9 de outubro de 2019

Mais um Mamarracho em Ponta Delgada?

Ficamos a saber pelo Suplemento “Correio Económico”, do jornal “Correio dos Açores”, do passado dia 27 de Setembro, da intenção de se construir um edifício de grande volumetria, destinado a habitação e comércio ao lado do Hotel Azor nos terrenos da desaparecida Fábrica da Cofaco, entre a 1ª e 2ª Travessas da Calheta. Acresce a notícia que este “mamarracho” será uma mais valia para a Avenida Litoral, dando maior valorização à frente marítima.
Não será uma mais valia para o seu promotor? Não será mais um enorme bloco de cimento tapando a visão da cidade sobre a frente marítima ou o inverso? E a qualidade de vida de quem ali reside está assegurada?
Ponta Delgada, por falta de coragem e sensibilidade dos gestores da “coisa” pública da altura, perdeu a sua História, a sua identidade, na década de cinquenta do século passado, para dar lugar à Avenida Infante D. Henrique. O património que desapareceu, entre o Cais da Sardinha e a igreja de S. Pedro, incluindo o complexo designado por Cais da Alfândega, a Sul da igreja Matriz, foi imenso, e era de grande relevância no testemunho da nossa História.
Tudo foi enterrado em prol de uma cidade moderna, em prol do desenvolvimento, surgindo uma Praça Pombalina (Praça Gonçalo Velho Cabral) que nada tinha e tem a ver com a nossa identidade.
No entanto, há que realçar a limitação imposta aos edifícios, três andares; rés do chão e dois andares em volta da Praça e nos edifícios a Poente até ao forte de S. Brás. A Nascente desta Praça vão os edifícios subindo e descendo em volumetria desde os seis andares até aos exagerados vinte andares, entre a referida Praça e o edifício da EDA.
A Poente, temos harmonia no património construído com a zona marítima, a Nascente, temos um muro em betão que esconde a cidade da zona marítima. Como era agradável e bonito dar um passeio à doca e ver a cidade a descer da montanha até junto da orla marítima, um presépio! Em prol do desenvolvimento tudo foi tapado! 
Mais tarde, nos últimos anos do século passado, para prolongar esta Avenida os mesmos erros foram cometidos! Enterra-se o pitoresco porto piscatório da Calheta Pêro de Teive e toda a sua rica História em troca de um cemitério de elefantes ali construído e um Mamarracho a Sul do secular e bonito edifício da EDA. 
Todos nós, Ponta-Delgadenses, lembramo-nos bem das promessas políticas: “voltar a cidade ao mar.” O que temos hoje? Um conjunto de edifícios, um muro em betão que esconde a cidade da frente marítima 
Ficamos convencidos que Ponta Delgada não tem uma linha que defina regras no seu crescimento, no que se deve, como se deve ou não construir, avança em prol dos promotores imobiliários e seja o que Deus quiser! São muitos os exemplos, lembro dois: as típicas casas do bairro dos pescadores na Calheta que podiam ser um museu a céu aberto; na Praia dos Santos, freguesia de S. Roque, as construções típicas que ali existiam – a Sul, estão a ser substituídas por edifícios modernos, cada um com a sua tipologia, alterando, por completo, o que era um rico conjunto de casas típicas Micaelenses. 
Ponta Delgada precisa, com urgência, reunir as sua forças vivas, incluindo os seus cidadãos, para definir o que se quer para esta cidade. Não se pode continuar a construir ao Deus dará, pondo em causa a cidade, a segurança e a qualidade de vida dos Ponta-Delgadenses! 
Esta é uma acção para ontem, porque hoje já estamos a comprometer a cidade que vamos deixar aos nossos descendentes!

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Categorias: Opinião

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