10 de outubro de 2019

Do meu olhar

Esta chaga da abstenção!


1. Em boa verdade estas últimas eleições não fortaleceram a democracia e confirmaram as fragilidades do sistema que os políticos carreiristas procuram lastimar mas, até hoje, nunca foi encontrada nenhuma solução apesar das comissões oficiais paritárias , dos grupos de trabalho, das inúmeras reuniões e do frequente muro de lamentações. Só uma parte do eleitorado vai às urnas cumprir o dever de votar e definir o futuro do país e da Região, quase sempre menos de metade da população . Nos Açores a situação agrava-se e, por isso, aguarda-se com elevada expectativa o resultado do estudo que foi pedido à Universidade dos Açores. A meu ver as razões são múltiplas e diversas e vão recair em muitos factores, muitos deles estruturais, de fundo e  de base , dos alicerces do sistema, pelo menos após a revolução de Abril, quando se cantaram vitória e liberdade e os cravos percorreram as conhecidas espingardas G3, que finalmente parece que vão ser substituídas!

2. Com os quatro líderes históricos fundadores desta democracia, de saudosa memória, Mário Soares, Francisco Sá Carneiro, Freitas do Amaral, há pouco desaparecido do mundo dos vivos,  e Álvaro Cunhal, o líder carismático dos comunistas portugueses, o país  ( e as Regiões Autónomas ) foi irremediavelmente retalhado em direita e esquerda, uns ainda mais à esquerda e outros mais inclinados à direita. Hoje é moda  ser-se de esquerda, uma esquerda que parece mais social, mais benevolente, mais propensa aos benefícios e às regalias, que todos aspiram, que todos ou quase todos apoiam e depois votam, muitos para assegurar subsídios e benefícios sociais e laborais sem nada se lhes exigir! O pior é quando tocam as sirenes e os sinos troikianos com aperto geral do cinto dos cidadãos, incluindo aqueles que mais sofrem pela natural fragilidade derivada da idade e da doença! A este respeito, convém sublinhar que a origem desta abstenção e deste alheamento convulsivo começa na Escola, que é o alicerce da Educação, ainda com elevado insucesso e fuga ao ensino, a par do baixo nível cultural da população , dos fracos conhecimentos , da formação que não chega a todos e à qualificação profissional ainda pouco abrangente .E ao fraco exercício da cidadania responsável.

3. O furacão da abstenção explica-se, também, a meu ver, pela qualidade dos políticos que temos, pelos carreiristas, pelos amiguistas, pelos que se desviam do caminho, tantos que infelizmente rodopiam por aí! Pelos Partidos Políticos que se foram proliferando e que depois se transformaram  em viveiros fechados onde meia dúzia de cabeças coroadas  pensantes decidem a vida do país e das pessoas, escolhem candidatos, elaboram programas, definem políticas e traçam o futuro, muitas vezes sem ouvir ninguém, a não ser os que pertencem ao círculo do poder e até à própria rede familiar! Muitos desses candidatos e eleitos nunca aparecem para dialogar com o eleitorado, cheios que estão com a agenda de reuniões, de viagens, de compromissos oficiais que pouco importam às pessoas!

4. Se me perguntassem qual foi o Partido que, nesta última campanha, apresentou o programa mais atraente, eu diria que foi o Bloco de Esquerda, no sentido que sempre procurou ir ao encontro do interesse, aspirações e necessidades dos eleitores, no aumento de pensões, no aumento do salário mínimo, na redução do horário de trabalho, na luta contra a precariedade laboral, pelo emprego, pela concessão de subsídios para os pais ficarem em casa a olhar pelas crianças e por aí adiante. As questões orçamentais depois arrumavam-se, diziam eles, acabando com os ricos e com as empresas que dão mais lucro, transferindo verbas e reduzindo gastos em outros setores, exceto na saúde e na educação . Uma espécie de milagre de multiplicação dos pães!

5. E quanto aos Açores ? 
Nove ilhas, cada uma a votar consoante as promessas e as mordomias, as conquistas e o medo de perder o que já foi ganho, com um governo cansado mas habilidoso, frente a uma oposição que ainda procura o seu Norte !
Mas afinal o que nos prometeram os candidatos e os partidos que os suportaram? Quase uma mão cheia de nada e outra meia vazia, sem grandes ideias e sem definir as linhas de rumo do futuro da Autonomia e dos Açores! Falando muito do mar e do céu sem porem os olhos na terra firme onde estão as pessoas, de carne e osso, essas que andam nas paragens do autocarro, que esperam anos por uma consulta e por uma operação à vista ou aos ossos, ou a outra qualquer maleita, se não morreram antes, as que se arreliam pela renda da casa, os que se arreliam pela ineficiência dos Serviços Públicos e com as carradas da burocracia reinante, os que quase todos os dias esgotam a paciência por um lugar de estacionamento, ou então aqueles que não têm nem formação  nem emprego, que no fim do mês não podem ir à farmácia  porque a pensão não esticou! Que gritam, nas aflições e nos apertos, jurando que não vão votar mais e que já não acreditam nos políticos ! E, por isso, a abstenção sobe em flecha ! E assusta! Mas façam lá os estudos depressa e bem!
     

A sete de Outubro
 

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Categorias: Opinião

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