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Teresa Reis: “Precisamos de mais audiologistas nos Açores para podermos oferecer a todos um serviço de qualidade”

 Correio dos Açores - Para começar, o que é a Audiologia? E quais as funções exercidas pelo audiologista?
Teresa Reis (Coordenadora do Serviço de Audiologia do Hospital do Divino Espírito Santo) - Audiologia (do latim audire “ouvir” e do grego -logia “estudo”) é um ramo da ciência que estuda a audição e o equilíbrio, bem como os distúrbios relacionados. O audiologista desenvolve a sua acção nas áreas da prevenção (rastreios), diagnóstico e reabilitação da audição e do equilíbrio.

A audição tem um papel fundamental no desenvolvimento da comunicação… 
A audição é o elemento fundamental da comunicação humana. É através dela que o ser humano adquire a linguagem e se comunica. Sem ela, há uma limitação na recepção e transmissão de conhecimentos e mensagens. Quando se nasce surdo ou nos tornamos surdos e sem acesso a uma língua, gestual ou oral, perdemos a nossa ligação ao mundo e à sociedade.
A implementação do rastreio auditivo neonatal universal (RANU) permitiu identificar a surdez à nascença e diagnosticá-la nos primeiros meses de vida, possibilitando a precoce habilitação destas crianças. Sabe-se que 1 em cada 1000 recém-nascidos é portador de um défice auditivo profundo. 
A perda de audição é a deficiência mais frequente a nível mundial, atingindo 15 a 20% da população, abrangendo valores superiores a 25% à medida que se vai avançando na idade.

Qual a diferença entre os aparelhos auditivos e os implantes?
Os aparelhos auditivos são dispositivos electrónicos, colocados no ouvido externo (canal auditivo externo – intra canais e/ou pavilhão auricular - retro auriculares), que permitem reabilitar a função auditiva em perdas auditivas de vários graus, desde ligeiras a profundas.
Os implantes, como a própria palavra diz, referem-se a dispositivos em que, pelo menos uma parte é implantada, através de um procedimento médico-cirúrgico, ou seja, realizada por um especialista em otorrinolaringologia. 
Nos Implantes Cocleares é implantado na Cóclea (ouvido interno) um pequeno feixe de eléctrodos, permitindo enviar informação sonora directamente ao nervo auditivo. O processador auditivo é a parte exterior do Implante Coclear (IC), recebe os sons do meio ambiente, processa-os e envia-os para o feixe de eléctrodos na cóclea. Este método é usado nas perdas Neurossensoriais Severas e Profundas. Nos Implantes Osteointegrados, é colocado um pilar no osso, próximo do ouvido, que vai estimular o ouvido interno de forma natural, enviando o som através do osso, nos casos em que o ouvido médio ou externo esteja danificado. Conectado a esse pilar estará um processador que tem como função captar os sons, processá-los e enviá-los para o ouvido interno. Este tipo de Implante é indicado para perdas de condução ou mista, de grau ligeiro a severo, ou para perdas unilaterais (num só ouvido).

Quais são as principais causas que estão na origem da perda de audição?
Podem ser de origem genética, congénita, infecciosa, tóxica, traumática, entre outras.

E quais são os primeiros sinais de alerta?
Os sinais de alerta vão depender da idade do seu aparecimento: à nascença ou nos primeiros anos de vida, vai dificultar a aquisição da linguagem oral e comprometer o desenvolvimento cognitivo; na idade escolar, a linguagem e a articulação das palavras podem deteriorar-se e o aproveitamento escolar bem como a aquisição de conhecimentos podem ser afectados; na idade adulta, em especial em idades mais avançadas, a troca de fonemas, dependendo das frequências mais afectadas, “trocar alhos por bugalhos”, “pedir para repetir mais alto”, “os outros falam muito baixo”. Nestas idades mais adultas, a perda auditiva pode levar à frustração, ao medo, à vergonha, ao isolamento e até à demência.

Como reagem as pessoas perante um diagnóstico?
Nas crianças, o processo de aceitação passa, primeiramente, pelos pais. O processo de reabilitação é muito mais fácil porque as crianças não têm memória auditiva. Neste caso, precisamos envolver os pais e os educadores/professores para que a evolução seja a mais adequada possível.
No caso dos adultos, é a constatação de algo que já “sentiam”. No entanto, quando se apresentam as soluções possíveis reagem, normalmente, de forma negativa. Demoram cerca de 5 a 7 anos, em média, a procurar ajuda.

A sociedade ainda associa muito a ideia de que quem usa aparelho é porque está surdo ou porque já é velho. No entanto, a realidade não é essa.
É verdade. A realidade é que existem pessoas de todas as idades a usar aparelhos auditivos.
Nas crianças é muito importante, como já foi referido, começar o processo de reabilitação o mais precoce possível, mas nos adultos também. Quando a pessoa já não ouve nada, quer dizer que as células auditivas já estão muito danificadas e o processo de reabilitação já não é viável. É como colocar uns óculos a uma pessoa que cegou…
Por isso, é muito importante começar o processo de reabilitação numa fase inicial e logo que a perda de audição se verifique, principalmente, quando as frequências da fala são afectadas, evitando inibições e cansaço extremo na conversação, melhorando, assim, a qualidade de vida.

Existe cada vez mais jovens com problemas auditivos?
Cada vez mais jovens ouvem música muito alta nos seus “headphones” e durante muitas horas (alguns dormem com os headphones nos ouvidos… o nosso cérebro precisa de silêncio para descansar). Por outro lado, cada vez existe mais concertos em que o excesso de decibéis é uma constante. E, para além disso, vivemos numa sociedade em que o ruído nos cerca e cada vez mais alto!
Um dos primeiros sinais é o aparecimento de um zumbido (acufeno ou tinitus – vários nomes para o mesmo fenómeno, ou seja, um som produzido pelo ouvido, sem existir uma fonte sonora exterior). No início pode ser passageiro, mas com a continuação da exposição ao ruído, pode tornar-se permanente e incapacitante.

Há falta de profissionais no arquipélago?
Neste momento, somos 10 audiologistas: 3 nas ilhas do Faial e Pico, 2 na ilha Terceira e 5 em São Miguel.
Houve uma evolução positiva pois, quando comecei a trabalhar, há 23 anos, éramos apenas dois: um na Terceira e eu aqui em São Miguel. Mas, com o crescimento de sensibilização para a perda de audição e os seus constrangimentos, houve uma maior procura pelos serviços audiológicos qualificados, embora nem toda a sociedade esteja sensibilizada para pedir essa certificação. Quando alguém necessita de realizar exames audiológicos de diagnóstico ou de reabilitação, de audição ou de equilíbrio, deve exigir do profissional a sua Cédula Profissional, que o qualifica para a função. 
É necessária essa sensibilização para que as pessoas não continuem a ser enganadas, por empresas sem escrúpulos e pessoas não qualificadas. Estou a referir-me, concretamente, a carrinhas de rastreios auditivos, que têm como objectivo a venda de aparelhos auditivos que vão embora sem garantir a assistência e o acompanhamento da pessoa em processo de reabilitação auditiva. Não basta colocar o aparelho auditivo. Este processo requer um acompanhamento, porque é necessário “ensinar” o cérebro a ouvir de novo.
Como cada vez vão existir mais pessoas com perdas auditivas, e por que se considera uma profissão de futuro, precisamos de mais audiologistas nos Açores para podermos oferecer a todos um serviço de qualidade.
                                               

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Autor: Rita Frias

Categorias: Regional

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