Fontes Vivas (11) – João José Taveira de Brito Subtil

“A invenção do imposto palhota na Guerra do Ultramar é das coisas que choca e aproxima-se um pouco da escravatura...”

Como começou o seu envolvimento na vida militar? E no Ultramar?
É uma pergunta sempre muito difícil. A vida militar começ[ou] pelo berço, praticamente. Obviamente que nem todos poderão dizê-lo, mas a realidade é que no nosso tempo, nós eramos educamos para tal. Ou vivíamos para tal, embora não tivéssemos [Portugal] estado na Segunda Guerra Mundial, por exemplo. 
O facto é que “estávamos” acompanhados de países da Europa que iam tendo os seus exércitos e que iam querendo sempre mais, situação que vinha do início do século XX, quando se começou a definir a instauração e a implantação em África, em Timor e na Índia.
Entrei na Marinha em 1966, na Escola Naval e lá fiz o curso de Ciências Militares Navais. Logo depois de o ter finalizado, fiz a comissão em 1971. Não fui um bom aluno, mas depois paguei as favas! Tal como os meus camaradas, quase 2 milhões de jovens que foram para o serviço militar, fui destacado para o Ultramar. Fiz uma comissão completa, uma missão especial em Angola e depois 3 missões de apoio à descolonização em Guiné, Cabo Verde e Angola entre Maio de 1971 e Novembro de 1975. Participei na guerra a bordo de navios - fragatas e corvetas – apanhando já o seu final. Mas fomos sempre impedidos de entrar em qualquer porto de África porque estávamos em guerra e todos os outros países do continente africano rejeitavam-nos. Só entravamos na África do Sul devido ao regime de apartheid.

Onde estava quando se deu o 25 de Abril? 
Em Luanda, acabado de chegar de Cabinda. Tinha acabado de tirar as munições, as peças de artilharia, e estávamos a começar a descansar. De madrugada, o meu adjunto vem ter comigo: “dizem que há golpe de estado em Lisboa”. Só me veio à cabeça um nome: Spínola. A partir daí, foi o fim da guerra com uma descolonização selvagem…

Qual a sua opinião sobre o processo de descolonização?
A descolonização não foi simpática nem para um lado nem para o outro. Mas como é que este país foi feito o país há 800 anos? Quantos morrerem neste país? Quantas revoluções foram feitas até agora? Não gostei do processo, como também nunca gostei de alguns generais, entre outras coisas. O fim da guerra acabou devido à revolução, como nós sabemos.
Os períodos de luta não foram os piores, mas sim os da descolonização. Fiquei com essa sensação de que marcaram muito mais a rapaziada. Convenceram-se que eram capazes de tudo. Alguns, na altura, estavam em fase de negação. Para eles, deve ter custado muito mais do que para mim pois encontrava-me no mar. De longe, permitiu-me observá-los e pensar de outra maneira. Mas tudo se faz, tudo se paga. “Perdi” amigos de infância, que desapareceram, nunca mais os vi nem sei deles pois também devem ter ido para a guerra. 

Era preciso fazer aquela guerra? Fez sentido?
Sim, mas era complicado. Mas fez sentido porque os países fazem-se assim. Fazem-se e desfazem-se. Se não houvesse guerra, ela vinha na mesma ter connosco. Por exemplo, Moçambique tem actualmente aquela fronteira toda bem demarcada a norte e com precisão. Olho para aqueles povos que entraram sempre em conflito e em rebelião uns com os outros tendo uma fronteira que lhes foi imposta por portugueses, ingleses, holandeses, alemães. Os países fazem-se assim. Por muito que nos custe, os países fizeram-se violentamente. É como Portugal que foi feito à custa da violência de outros povos que acabaram por se instalar. No Alentejo, vemos a presença romana de outros tempos, mas até os sírios vieram para a Península Ibérica. Se não fossem as guerras, os países não se faziam. Mas a Guerra da Independência Argelina – em que a Argélia se libertou do domínio francês – devia ter sido olhada por nós [portugueses] como uma primeira lição de guerra. Só que isso não aconteceu. 
Fomos “empurrados”. As guerras existem…mas o sentido é que faz as guerras, digo eu. 
Não havia consenso sobre a guerra do Ultramar…
No fim de toda essa luta, que obviamente é sempre discutível, nós temos o direito de dizer “não devíamos de ter feito a guerra”. Outros, que sempre tiveram convicções grandes e implantadas desde o berço, eram da opinião que “não devíamos ter largado a guerra porque íamos ganhar”. Não são coisas que se tratem dessa maneira, creio. A guerra trata-se de um processo complicado que mete muito de política e mete, também por outro lado, a vontade do povo que é chamado, quer queira quer não, a participar na guerra. Normalmente, a guerra nunca é produto saído da vontade do povo, tirando os casos de independência e invasões. 
O povo português nunca foi um guerreiro propriamente como os outros. Meteu-se a fazer a Batalha de Aljubarrota, fez uma revolução e uma guerra com D.Pedro IV, por exemplo, mas já foi muito complicado ir à Primeira Guerra. O povo não queria porque não sabia o que estava a acontecer e isso também aconteceu connosco naquela altura. A maior parte dos homens tinham instrução primária com a formação da História de Portugal e essa era caracterizada pelos feitos citados por Camões. Não sabiam sequer que nas populações das colónias haviam indivíduos negros ou mestiços. A generalidade dos militares portugueses não sabia quem eram aquelas pessoas que lá estavam.
Ao analisar a nossa história até ao século XIX, pelos registos que existem, os portugueses foram, a par da Igreja, para a África fazer a sua expansão, mas os restantes territórios foram constituídos por pequenos povoados e pequenas feitorias e fortes para protecção dos interesses e das pessoas que lá estavam. E quer custe muito ou não perceber, pagava-se às populações para lá estarem. O Rei de Portugal recebia impostos, mas pagava também. Isto era uma maneira de também coexistir. 
Mas termos esquecido de que estávamos a viver e a conviver com outros povos é um dos aspectos mais gritantes daquilo a que chamamos de império. Quisemos ser donos e depois obrigá-los a trabalhar. A invenção do imposto palhota é das coisas que choca a quem vê assim à distância. Isto aproxima-se um pouco da escravatura. Havia quem estivesse agarrado à ideia de que aquilo [as colónias] era nosso porque tinha sido herdado pelo esforço dos nossos pais, avós, e que não podia ser deitado fora. Pensamento europeu…

Como veio parar ao arquipélago dos Açores? 
Vim de navio! (risos) Fiz duas comissões nos Açores ainda antes de vir para cá de vez. Depois, fui para o continente e tirei o Curso Geral Naval de Guerra. Após isso, estive no Comando da Zona Marítima do Norte, bem como no da Madeira. Tive uma passagem rápida no Comando Naval de Lisboa e por fim, em 1996 vim para o Comando Naval, aqui no arquipélago que, posteriormente, passou a Comando da Zona Marítima dos Açores. 
Em 2000, fui trabalhar para a Atlântida Serviços, Lda que operava no terminal de petróleos da Nordela. Ao fim de 5 anos, acabei por ir para a reforma. Dei formação a pescadores, a desportistas náuticos e mantenho ainda a actividade de formador.

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Autor: Rita Frias

Categorias: Regional

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