Criação de planos de biossegurança nos ilhéus da Região será a forma de assegurar biodiversidade de aves marinhas endémicas

De forma a garantir que a biodiversidade das aves marinhas não é afectada por espécies predadoras, por exemplo, será importante que exista em relação aos ilhéus da Região planos de biossegurança, assegurando assim monitorizações periódicas que averigúem que espécies estão presentes nestes locais.
É esta a convicção de Verónica Neves, investigadora do Centro Okeanos da Universidade dos Açores, dando como exemplo a existência de formigas no Ilhéu da Praia, localizado ao largo da ilha da Graciosa, que em 2018 dizimaram muitas crias de Painho-de-Monteiro, uma ave marinha endémica cuja nidificação só foi até agora confirmada nessa ilha do Grupo Central.
Estes planos de biossegurança permitiriam também perceber se este é um problema que ameaça as aves que nidificam noutros ilhéus e detectar de imediato se há alguma alteração no que toca à presença de roedores nesses mesmos locais, assegura.
“O objectivo destes planos é a acção atempada e foi isso exactamente que foi conseguido em 2019 e em estreita colaboração com a equipa do Parque Natural da Graciosa (PNG), tendo-se reduzido a mortalidade causada pelas formigas em mais de 75% em relação a 2018”.
“É importante haver um plano de biossegurança em relação aos ilhéus, ou seja, um plano que permita uma monitorização periódica para assegurar que não há roedores que chegaram a um determinado ilhéu e têm consequências imediatas, por exemplo. Ao mesmo tempo que detectámos um problema com formigas no ilhéu da Praia, é importante verificar se isso acontece noutros ilhéus ou não, qual o seu impacto e o que se pode fazer para minorar esse problema”, explica a investigadora após a sua intervenção na segunda temporada da iniciativa “Ciência com Café”, organizada pela Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade dos Açores.
De acordo com os dados existentes das investigações das quais faz parte, Verónica Neves explica que as formigas afectam principalmente as crias de Painho-de-Monteiro, espécie endémica que nidifica durante o Verão, uma vez que “os adultos quando são incomodados pelas formigas podem voar, vão para o mar e vêem-se livres delas”, o que já não acontece com as crias.

O caso de sucesso do Ilhéu da Praia

Para além destes planos de biossegurança, e tendo sempre em vista a conservação das aves marinhas dos Açores, será necessário ter também em atenção a reabilitação de alguns ilhéus da Região, como terá acontecido a partir de 1995 com o Ilhéu da Praia, conta a investigadora que actualmente trabalha num projecto de pós-doutoramento, apoiado pelo Fundo Regional para a Ciência e Tecnologia (FRCT). 
“O Ilhéu da Praia era um ilhéu que historicamente tinha tido um grande uso humano, pastoreio de gado e introdução do coelho e que por isso estava completamente devastado. Não havia vegetação porque os coelhos comiam tudo o que encontravam, havia apenas as tamargueiras ou salgueiros, havia ravinas de erosão muito profundas e existia também uma grande componente de utilização recreativa do ilhéu que, de certa forma, inibia a nidificação de aves marinhas”.
Por estes motivos, adianta, o número de aves marinhas era então muito restrito, sobretudo no que toca aos Garajaus por serem muito sensíveis à perturbação humana, mas que a partir da “transformação completa do ilhéu”, conseguida com a erradicação dos coelhos, a travagem da erosão do solo e com a re-introdução de espécies endémicas acabou por permitir o regresso de importantes populações de garajaus ao ilhéu da Praia.
A criação de ninhos artificiais foi também muito importante para a regeneração das populações de painhos do Ilhéu da Praia, iniciada por Mark Bolton, hoje coordenador da secção de Ciência da Conservação da Royal Society for the Protection of Birds, conhecido também por implementar “um sistema de atracção de aves que funcionava a energia solar e que, todas as noites, permitia fazer soar na colónia os cantos de aves que atraíam com muito sucesso prospectores para os ninhos”.
De acordo com Verónica Neves, estes projectos LIFE de financiamento Europeu e que resultaram de uma colaboração profícua e estreita entre a Universidade dos Açores e a então Direcção Regional do Ambiente permitiram não só “alcançar resultados fabulosos” como também fizeram com que o Ilhéu da Praia seja reconhecido “como um exemplo de recuperação de habitat tanto a nível nacional como a nível internacional”.
Também o Ilhéu da Vila, localizado a cerca de 300 metros da costa da ilha de Santa Maria, é actualmente “um excelente santuário para as aves marinhas mas que não foi alvo de projectos de recuperação como o Ilhéu da Praia por não estar tão degradado, embora ainda assim pudesse beneficiar de algumas acções de melhoria do habitat, tais como controlo de predadores e criação de ninhos artificiais”.
“O ilhéu foi ocupado pelo homem aquando da colonização, mas esses usos foram acabando de forma natural com o passar do tempo e por isso o ilhéu da Vila está mais preservado do que o Ilhéu da Praia estava na altura, o que não significa que não fosse positivo implementar lá algumas medidas, nomeadamente o controlo de predadores e a criação de ninhos artificiais que é sempre positiva”, explica a investigadora da Okeanos, centro de investigação ligado à vida marinha localizado na ilha do Faial.
Estes ninhos, explica, são um importante recurso uma vez que podem ser dimensionados de forma a não permitirem o acesso de aves maiores, mantendo assim as crias que lá estão em segurança, salientando que, por outro lado, seria também importante realizar alguns trabalhos de conservação na área da predação, “porque sabemos que há problemas graves no ilhéu da Vila com a predação dos ovos de garajau pelos estorninhos que predam anualmente centenas de ovos”.
No seu trabalho de pós-doutoramento, apoiado pelo FRCT através de uma bolsa pós-doc de três anos, dedica-se ao estudo comparativo de duas espécies, o Painho-da-Madeira e o Painho-de-Monteiro, tendo como palco principal o Ilhéu da Praia que actua não só como “um santuário para as aves marinhas mas também como um laboratório com várias vertentes importantes, tais como a conservação, a ciência e ainda a literacia na área marinha e na componente de educação ambiental”, diz.
“Na área científica temos uma situação ideal, fruto do excelente trabalho desenvolvido pela Universidade dos Açores em estreita ligação com o GA e com o Parque Natural da Graciosa. Temos cerca de 150 ninhos artificiais e só temos que levantar uma tampa e, sem perturbar muito a ave que lá está, conseguimos usar as novas tecnologias, como GPS’s que pesam menos do que um grama, para conhecer quais são as suas áreas de distribuição do mar. Temos além disso uma população em que muitas aves são de sexo e idade conhecida, aspectos fundamentais para testar diferentes cenários. A existência das populações de Inverno permite um acompanhamento integral das condições oceanográficas ao longo de todo o ano”, explica a investigadora.
Através de um intenso esforço de trabalho de campo, a informação recolhida por estes dispositivos, permitem à investigadora “estudar as aves e os locais onde elas se alimentam, tendo também em vista perceber quais as zonas marinhas mais importantes para a conservação destas aves incríveis”.
A par disto, o grupo de investigadores estuda também as aves mesmo quando elas não estão no arquipélago, ou seja, durante as suas migrações, utilizando geolocalizadores (GLSs) que são colocados numa anilha plástica que é posta na tíbia da ave e que “uma vez recuperados permitem ver onde foram as aves durante o Inverno, onde passaram o tempo e que rotas migratórias seguiram”. Animada, a investigadora avança ainda que em Setembro de 2019 recuperaram 9 dos 10 geolocalizadores que colocaram em Painho-da-Madeira em 2018/2019, uma taxa de recuperação de 90% e das mais elevadas que se se conhecem em aves, ou mesmo noutros organismos.
Também a dieta destes animais está, de momento, a ser estudada através de tecnologia molecular que permite identificar através das fezes os alimentos que a ave consumiu. Este estudo, desenvolvido em colaboração com colegas da Universidade de Cardiff, permite reconhecer as diferenças que podem existir nas dietas entre sexos, entre espécies e entre estações, nomeadamente durante o Verão e o Inverno.

O eventual impacto das 
alterações climáticas

No que diz respeito a este projecto de investigação ligado aos Painhos, os investigadores envolvidos começam também a aperceber-se de algumas situações que poderão – ou não – estar directamente ligadas às alterações climáticas, uma vez que “não há, infelizmente, dados históricos suficientes” que permitam chegar a uma conclusão definitiva.
No entanto, explica Verónica Neves, nos Açores “está-se a observar este ano que o Painho da-Madeira, que nidifica no Inverno, chegou à colónia entre a primeira e a segunda semana de Agosto e começou a utilizar os ninhos onde havia crias Painho-de-Monteiro, causando elevada mortalidade”.
“Não temos, infelizmente, dados históricos suficientes que nos permitam dizer que os Painhos-da-Madeira estão a chegar mais cedo ou que os Painhos-de-Monteiro estão a nidificar mais tarde, mas no âmbito do projecto que estamos a desenvolver no Ilhéu da Praia e da permanência muito intensa no campo, estamos a apercebermo-nos de muitas coisas que até agora não tinham sido descritas, e esta, a par da predação das formigas, é uma delas”, diz a investigadora.
 

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