Madeirense escolhe Açores para viver e hoje dá a conhecer as vivências em livro de poemas

No âmbito III Encontro Internacional de Poesia que decorre em Ponta Delgada, considerada a cidade dos poetas, vai ser lançado hoje, pelas 19 horas, na Casa dos Açores da Madeira a primeira obra de Luís Ramos Freitas intitulada “Arritmias”. A apresentação do livro de poemas está a cargo de João Carlos Abreu, ex-Secretário do Turismo da Madeira, e promotor do III Encontro Internacional de Poesia [prefaciador do livro] em conjunto com Susana Goulart Costa, Directora Regional da Cultura.
“Arritmias” é o nome pensado pelo seu autor ainda quando a obra começava a ganhar forma, por que “são os altos e os baixos de tudo o que vai acontecendo. Fala muitos dos lugares e principalmente da relação com as pessoas e com o  amor”.  
Um dos poemas “Lembrei-me” é um misto de sentimentos, que fala de amor, de vontades, de dualidades.

Lembrei-me
Lembrei-me que existias,
lembrei-me...
Fui triste ao lembrar-te
por saber que não te possuo;
mais uma vez triste, faz parte,
mas também não te excluo.
Lembrei-me num desvario,
no sopro do vento bem forte,
que o que me mata não é o frio
Mas a robustez do teu decote.
Lembrei-me; mas fui infeliz ao fazê-lo,
por não te ter e não o ter,
a ti e ao teu decote.

João Carlos Abreu, no prefácio escreve sobre o poeta e sobre o que este deixa em poema.
“O Luís Freitas é um jovem nascido na “Ilha dos Amores”, numa região onde as rochas e o mar guerreiam-se, nos invernos rigorosos e nos verões deitam-se tranquilamente na preguiça de um sono romântico. Por isso a sua poesia tem amor, tem angústia, tem encontros e desencontros. Ele saiu de uma ilha e refugiou-se, voluntariamente, em outra ilha. Esta, carregada de verdes estendidos em planícies onde repousa o olhar doce das suas gentes. Justamente o oposto da sua Madeira, agressiva e desafiante nas montanhas e estonteante no ziguezaguear dos seus caminhos românticos.
Dependurado na saudade, ele mete-se por dentro do silêncio e faz da solidão a companheira ideal para expor os seus pensamentos: mágoas, alegrias e paixões. É a timidez que o faz gigante das suas histórias de amor e de algumas desilusões. Ele refugia-se nas palavras, aí encontra o seu mundo seguro para mostrar-se inteiramente. A sua poesia é, algumas vezes, de uma paixão ardente, diria febril, nem sempre, em minha opinião, correspondida. É um poeta sofredor, cuja alma sensível flutua nos corredores impenetráveis do seu ser, fá-lo admirar o mundo e as pessoas sempre numa perspectiva de amor. A natureza, as ilhas, com as suas paisagens únicas, majestosas e contrastantes, com as florestas, com as lagoas e o mar. O mesmo mar, Atlântico, que as une e separa, tem sobre ele uma grande influência, de tal forma que lhe desperta a inspiração”.


O primeiro livro de poemas aos 30 anos

Luís Ramos Freitas escreve desde adolescente, ganhou o primeiro prémio num concurso de poesia na escola que frequentava na Madeira, mas nunca publicou os seus poemas fora do contexto escolar e são poucos os que conhecem esta sua veia poética. O ano passado, por altura do II Encontro Internacional de Poesia, realizado no Porto Santo, tomou coragem e entregou os seus poemas a João Carlos Abreu e a José Andrade, para que opinassem sobre os mesmos.  Gostaram, incentivaram-no a publicar um livro, e aos 30 anos a obra deste madeirense materializa-se, numa edição de autor, toma forma e chega ao público hoje.
“É uma edição de autor porque é um livro para amigos e conhecidos, embora também esteja disponível para todos quantos o quiserem ter, mas o meu objectivo foi feito para as pessoas mais próximas, que são aquelas, acho eu, que poderão compreender melhor o que escrevo”. 
A poesia transmite sentimentos, estados de alma, e Luís Ramos Freitas questionado se os seus leitores conseguirão ler um pouco do que viveu, do que vivenciou é peremptório em afirmar que “ninguém me vai descodificar, mas vão perceber aquilo que poderá ser o meu pensamento mas não linear, a não ser que ligo muito para os lugares, para os afectos, para a saudade. Isso influencia-me”.
“Eu nunca fui de fazer diários mas fui sempre de rabiscar nos papéis os meus pensamentos e ideias, em jeito de nota, em jeito de sonho e também em jeito de desabafo.  
Depois de ter tido contacto com os poemas e os poetas que são ensinados na escola, fui tomando o gosto de tentar fazer com que as mensagens e pensamento que eu tinha rabiscado pudessem  ser poemas”, diz-nos Luís Ramos Freitas, que nada foi a sério “mas sempre como uma brincadeira, uma brincadeira para mim, que mais tarde tive de partilhar, em 2007, a convite de uma professora, que ao saber que eu escrevia, convidou-me a participar no «Suplemento Escolas” integrado no Jornal da Madeira. Foi nesse ano que ganhei o primeiro lugar com o melhor poema”. Foi o incentivo para continuar “porque são estas experiências que nos ajudam a escrever, que ficam no imaginário. É uma preparação, pois um poema quando se escreve não  fica imediatamente pronto, não é um ciclo que se fecha, fecha-se, sim, quando está publicado que é o que acontece nesta altura porque já está em livro”.
Ao ver o livro pronto, Luís Ramos Freitas diz que sentiu-se invadido no seu espaço. 
“Acho que isso tem um lado positivo que é o de podermos retratar os nossos sonhos, as nossas alegrias e a nossas tristezas, mas também há um lado menos positivo, que se calhar não é assim tão negativo, é o de sermos escrutinados e interpretados por pessoas que não têm noção do que levou aquela escrita e do existe atrás daquele pensamento. Isso é um pouco como despirmo-nos para as outras pessoas e ficarmos expostos e constrangidos. Foi isso que eu senti em 2007, não porque faziam críticas negativas mas senti que estava a ser avaliado a nível pessoal, porque os poemas são muitos pessoais. Os meus poemas são apegados ao que são as minhas experiências pessoais”.
Questionado se os seus poemas são muito de si, não do que sente mas do que vê, o poeta refere que “é isso mesmo”, mas tem uma evolução desde que viveu na Madeira  e se fixou nos Açores. “Na altura não ouvia-me tanto mas à medida que fui crescendo passei a valorizar mais os meus pensamentos, tanto na Madeira como na minha vinda para os Açores e fazer o curso na Universidade dos Açores. Decidi colocar todo este período da minha vida no livro. Continuo a escrever, mas acho que não fazia sentido colocar os poemas mais recentes sem fechar um capitulo de uma primeira fase da minha vida. Eu achei que era importante, pois mais do que rever os poemas que escrevo hoje, reli muitos estes que estão impressos. São poemas que dizem muito de mim mas também dizem muito do que eram os meus sonhos. É um olhar para trás e perceber se parte deles foram cumpridos, ou não, ou da forma como me sinto hoje comparado com o que me sentia antes. É um misto de tudo”.  
O poeta confessa que ao longo do tempo foi amadurecendo a escrita, foi revendo o que escrevia, e voa livremente quando coloca no papel os seus pensamentos.
“Todos os textos que qualquer pessoa escreve, seja poeta ou escritor, tem o seu valor, independentemente de as pessoas perceberem ou não qual é esse valor. Por isso é que eu estou à vontade para partilhar. À medida que vamos estabelecendo contactos com outras pessoas chegamos á conclusão de que não somos os únicos a pensar desta forma, não somos os únicos a ter este tipo de experiências e há pessoas que também escrevem sobre estas experiências. Por isso, publicar algo é assumir que não se está só no mundo. Se eu não partilhasse podia sentir que era incompreendido e ao publicar posso ser compreendido, não por todos, porque isso não interessa, interesse sim não ser compreendido porque me dá o frenezim para continuar a escrever”.
            

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