Rotas gastronómicas (18)

“O turista tem um poder de compra muito superior o que nos dá margem para continuarmos a ter preços acessíveis na hora de almoço”

No passado mês de Julho completava o seu 13.º aniversário o restaurante Rotas da Ilha Verde, localizado na Rua de Pedro Homem e frequentemente chamado apenas por “Rotas”, sendo o resultado de uma aposta ambiciosa de Catarina Ferreira numa altura em que o vegetarianismo dava passos de bebé na ilha de São Miguel.
De acordo com a própria, que esta semana aceitou o desafio de fazer parte da rota gastronómica levada a cabo pelo nosso jornal semanalmente, não havia na ilha um projecto semelhante e que fosse capaz de oferecer uma vasta gama de produtos frescos que depois resultassem em pratos vegetarianos e veganos que fizessem o encanto do paladar daqueles que por ali passam, sentindo assim “falta deste tipo de alternativa”, diz.
Para além da comida vegetariana, também o próprio conceito do restaurante é bastante diferente da grande parte dos restantes espaços dedicados à restauração, a começar pelo ambiente rústico e ao mesmo tempo agradável que ali existe, marcado pela presença de peças de mobiliário restauradas ou com o soalho nu que contrasta com as paredes coloridas ou com a luz quente que ilumina o espaço durante a noite.
O espaço agradável é ainda complementado com as decorações vintage que mostram também a preocupação em dar uma segunda ou terceira vida ao objectos que, num primeiro momento, pudessem já não ter utilidade, como loiça antiga, formas de bolos ou até batedores de claras.
Neste espaço há também uma clara preocupação para com a sustentabilidade ambiental, uma vez que tanto as toalhas de mesa como os guardanapos individuais ou até os menus são feitos de pano, substituindo assim o papel que, muitas vezes, é descartável.

Restaurante vegetariano foi 
“muito bem acolhido”

Recuando 13 anos, até à abertura do restaurante que depois foi conciliando em conjunto com um dos primeiros hostel que começou por receber turistas na ilha, o ¾, Catarina Ferreira conta que o primeiro restaurante vegetariano da ilha “foi muito bem acolhido”, uma vez que as pessoas aceitaram bem a presença desta opção alimentar em Ponta Delgada.
A aceitação foi tão positiva, conta, que muitas das pessoas que aderiram ao conceito “até mudaram parcialmente ou até completamente o seu estilo de alimentação”, inspirados pela diferença desta oferta gastronómica.
No entanto, salienta que para que o restaurante e o respectivo conceito continuem a funcionar, “todos os dias tem de haver a preocupação de procurar os melhores produtores e os melhores produtos”, salientando que as principais dificuldades sentidas no início do Rota” prendeu-se exactamente com esta necessidade, “uma vez que não havia no mercado muitos dos produtos de que precisávamos, por exemplo as proteínas”, conta a jovem empresária.
Ao longo destes 13 anos de portas abertas ao público numa zona da cidade de Ponta Delgada que foi – aos poucos – se tornando cada vez mais desenvolvida no que diz respeito à variedade de restaurantes existente, Catarina Ferreira salienta que a balança que mede a presença de clientes locais e turistas no “Rotas” foi sempre muito equilibrada.
“Ao almoço temos 90% de locais e ao jantar temos 90% de turistas”, afirma, explicando que a principal diferença entre estes dois tipos de clientes está, para além do poder de compra, no hábito de fazer reservas: “Penso que nós, locais, não nos habituamos a fazer reservas e os turistas quando marcam as suas férias fazem logo as reservas para jantar. Por exemplo, em Janeiro já temos reservas para Agosto”.
Já no que diz respeito a este sucesso que marca a história do restaurante, a empresária – que divide esta ocupação também com a paixão por ensinar –, adianta que se deverá tanto à curiosidade das pessoas como pelo facto de cada vez mais pessoas aderirem a este tipo de dieta e/ou estilo de vida.
Adianta ainda que “O Rotas já traz uma história e muitas referências internacionais, havendo muitas pessoas com curiosidade para conhecer o espaço e terem esta experiência”, o que pode ser facilmente comprovado através de uma visita à página do espaço no TripAdvisor.
Para além disso destaca também “o carisma do espaço” e a “preocupação constante com as pessoas que ali trabalham e com o bem-estar de quem nos visita”, refere Catarina Ferreira, salientando que embora não haja grande diferença no movimento entre os dias de semana e o fim-de-semana, o turista “ajuda muito” no fluxo do negócio tendo em conta que tem “um poder de compra muito superior e que nos dá margem para podermos continuar a ter preços acessíveis na hora de almoço”.
Quanto aos outros espaços da restauração em São Miguel, Catarina Ferreira salienta que embora se considere que o cliente vegetariano – ou aquele que apenas procure uma refeição diferente – “muitas vezes não encontre grandes alternativas nos menus, cada vez mais os restaurantes começam a ter mais oferta. Numa terra em que a carne de vaca e o peixe são reis é de valor haver esta mudança”.
Porém, e à semelhança da maior parte dos empresários ligados à restauração, Catarina Ferreira “arrisca dizer que o único problema” que sente neste sector tem a ver com a falta de pessoal qualificado na área, considerando que “é muito difícil encontrar pessoas motivadas e com vontade de trabalhar neste ramo”. 
No entanto, adianta que procura na maior parte das vezes “pessoas com vontade, com qualidades humanas e que, sobretudo, gostem do que vão fazer e servir”, em vez de se concentrar demasiado na qualificação dessas mesmas pessoas.

Turistas procuram 
principalmente produtos regionais

Para além do Rota”, Catarina Ferreira é também a proprietária do Louvre Michaelens”, que veio em 2016 dar um novo ar ao número 8 da Rua António José d’Almeida, bem no coração do centro histórico de Ponta Delgada, depois de ali ter encerrado uma das lojas mais regionais da cidade, concretizando assim um dos seus sonhos desde que chegara à ilha.
“Desde que vim viver para a ilha sonhava com aquele espaço, até que surgiu a possibilidade de em 2016 começar a pensar o que poderia ali acontecer. As histórias são muitas e contam desde o tempo do Sr. Duarte Cardoso. A mim, estas histórias chegaram pela voz da senhoria, Manu, que foi uma peça fundamental na reabertura do Louvre Michaelense”, conta na primeira pessoa.
Para levar o projecto a cabo foi respeitada toda a traça original do espaço, optando assim por manter os armários antigos e por recuperar o nome da loja na parte superior, opções estes que permitiram recuperar também todo o glamour que a loja tinha antes de ser encerrada e que, na sua opinião, “desperta a curiosidade de quem passa à porta mesmo sem saber o que irá encontrar em funcionamento no interior”, uma vez que “tudo o que diz respeito à história desperta o interesse das pessoas”.
Ali, são os turistas que frequentam maioritariamente o espaço no Verão, uma dinâmica que se altera assim que chega o tempo mais frio, conta a proprietária, adiantando que os turistas gostam sobretudo de experimentar as queijadas e os chás por saberem que é tipicamente local.
“Fazem questão de perguntar o que é mais típico para experimentarem, e neste momento, com a reabertura do Louvre Michaelense com uma cozinha mais completa, tempos pessoas (turistas e locais) a quererem experimentar a nossa carta de Chef ao pequeno-almoço, brunch e almoço”, diz Catarina Ferreira, adiantando que agora também é possível desfrutar destas experiências ao jantar.
Já nas diferenças que existem entre o Verão e o Inverno, a empresária adianta que é no Inverno que há almoços movimentados e jantares mais desafogados, adiantando ainda – ao contrário de outros empresários – que “os dias de mau tempo chamam mais gente, talvez pelo facto de o Louvre ser um sítio acolhedor em que as pessoas gostam de estar, nem que seja apenas para virem trabalhar ou para ler um livro e beber um chá, dizem-nos que é confortável”, afirma. 
Em relação às dinâmicas que o turismo trouxe ao centro de Ponta Delgada, a empresária adianta que gosta de ver “a cidade com vida”, mesmo que gerir espaços não seja fácil, adianta, “a verdade é que com a variedade de pessoas que por cá passam, a curiosidade e as críticas tão positivas, tudo se torna mais fácil e prazeroso”.
 

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