“Há muitos aspectos das demências que a maior parte das pessoas não conhece”, diz especialista

Tendo como objectivo criar um grupo de voluntários capazes de dinamizar sessões de informação alusivas ao tema das demências nos Açores, a Alzheimer Portugal irá, na próxima semana, fazer-se representar em Ponta Delgada para nos dias 16, 17 e 19 de Outubro cativar e esclarecer pessoas, bem como para formar dezenas de novos embaixadores da campanha “Amigos na Demência”.
Neste sentido, e de acordo com Tatiana Nunes, uma das responsáveis por trazer este projecto até Ponta Delgada, ao angariar voluntários nos Açores, estes estarão disponíveis para realizarem sessões de informação em vários locais, permitindo assim o projecto “crescer em cadeia”, iniciando-se então na próxima Quarta-feira, pelas 11h00 no Parque Atlântico, com uma sessão de informação aberta à comunidade em geral.
Já no que diz respeito às duas formações que ocorrerão nos dias seguintes, esta requererá a inscrição dos interessados na plataforma online da campanha ou por telefone, uma vez que “há um guião específico e materiais específicos” que permitem uniformizar o papel do embaixador da campanha “para que todos aprendam a dinamizar as sessões da mesma forma”, independentemente do sítio onde esta é realizada.
Apesar de referir que “qualquer pessoa pode ser um embaixador da Amigos na Demência”, Tatiana Nunes não deixa de referir que é fundamental “que a pessoa queira fazer parte da campanha e que queira cumprir o código de conduta para os embaixadores”, uma vez que devem ser seguidos os princípios da Alzheimer Portugal e os princípios da respectiva campanha.
Em troca, é pedido ao embaixador para realizar sessões de informação relacionadas com esta doença, não havendo, porém, limites ou imposições em relação ao número de sessões que devem fazer, sendo ainda possível optar por fazer sessões para pequenos grupos ou para grandes auditórios.

Preconceitos em relação à demência devem 
extinguir-se para o bem do doente

Esta é também uma oportunidade para desmistificar certos estereótipos que existem em relação às demências, salienta Tatiana Nunes, dando como exemplo o simples facto de se recorrer ao termo “demente” para classificar a pessoa com demência, explicando que “essa palavra tem uma conotação negativa que faz com que estejamos primeiro a ver a doença e não a pessoa. Por isso nós devemos sempre dizer “a pessoa com demência”, porque acima de tudo esta será uma pessoa com uma história de vida, com gostos e hábitos que a tornam única”.
Também as alterações de percepção causadas pela demência são, de acordo com a directora de comunicação da Alzheimer Portugal, pouco compreendidas pela sociedade em geral e até pelos familiares ou cuidadores da pessoa com demência, criando assim pontos de conflito entre a pessoa doente e a sua família.
“Nós não nascemos ensinados e há muitos aspectos que fazem parte da demência e das alterações que se verificam nas pessoas com demência que a maior parte das pessoas não conhece. Por exemplo, as alterações de percepção. Um tapete escuro pode, para uma pessoa com demência, parecer um buraco e um tapete de remoinhos pode parecer-se com cobras e assim pessoa fica assustada porque tem outra percepção, algo que a maior parte das pessoas não sabe que pode acontecer”, explica.
Por esse motivo, adianta ainda que é importante que “as pessoas tenham mais conhecimentos sobre o que é a demência”, de modo a conseguirem também perceber que “não é por a pessoa ter o diagnóstico da demência que fica completamente incapaz”.
Neste sentido, adianta que um dos maiores erros que podem ser cometidos facilmente por um familiar de alguém com demência, embora seja um erro que possa ocorrer não de forma propositada, passa por deixar de sair com essa pessoa: “Isto está errado porque a pessoa com demência pode continuar a passear na cidade, é preciso é compreendermos os seus comportamentos e sabermos de que forma podemos agir para que deixe de existir essa vergonha”.
Um dos motivos que pode estar por trás desta opção que acaba – eventualmente – por criar um isolamento desnecessário, está com o facto de se acreditar que a pessoa diagnosticada com demência deixará de aproveitar os momentos fora de casa porque os irá esquecer, algo que, refere Tatiana Nunes, deverá ser contrariado.
“Outro exemplo que costumamos dar é o de que a pessoa com demência pode já não se lembrar que esteve connosco e que foi dar um passeio até à praia, mas aquele sentimento de felicidade, de carinho e de momentos agradáveis fica lá, mesmo que a pessoa já não se lembre onde foi”, explica a profissional da Alzheimer Portugal.
“Muitas pessoas não sabem que a parte das emoções fica durante muito mais tempo do que os factos, ou seja, a pessoa pode até nem se lembrar do que fez, mas a sensação que isso lhe trouxe fica lá e por isso é muito importante proporcionar bons momentos às pessoas com demência”, afirma, explicando que isso poderá também acontecer em relação aos momentos de frustração e tristeza, sendo por isso fundamental evitar entrar em conflitos com o doente.
Existe também o preconceito de que a demência é sinónimo de envelhecimento, “mas não é, uma pessoa ao ficar mais velha não significa que terá demência, até porque há casos de pessoas mais novas que também a desenvolvem. Por outro lado, há muito a ideia de que a demência é sinónimo de esquecimento, mas é muito mais do que isso”, afirma.
Por esse motivo, não compete apenas aos cuidadores conhecer melhor as demências, compete sim “a todas as pessoas porque não sabemos quando a demência nos vai bater à porta. (…) Podemos até estar num supermercado e dar com uma pessoa com demência completamente desorientada, e se soubermos de que forma poderemos ajudar isso é extremamente importante”.
Assim, conclui que “é preciso haver mais conhecimento sobre estas doenças para que as pessoas possam ter uma melhor qualidade de vida porque vivemos numa sociedade tão estigmatizada, onde há tanta falta de conhecimento, onde as pessoas são excluídas e onde não se sentem bem”, apresentando assim a campanha Amigos na Demência como uma importante ferramenta para que se comece a contrariar estas tendências.
 

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